24 Horas de Le Mans | Audi faz trinca

Peugeot naufraga e Audi faz
fantástica trinca em Le Mans

Domingo, 13 de Junho de 2010, 12:12

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Os vencedores Rockenfeller, Dumas e Bernhard com o chefe da Audi, Wolfgang Üllrich

Lucas Giavoni

Nada como um dia após o outro, ou, se preferir, um ano após outro. Após a inferioridade mostrada nos treinos e a lembrança da dura derrota no ano passado, a Audi conseguiu um triunfo completo na edição 2010 das 24 Horas de Le Mans. Não apenas venceu com o carro #9 de Timo Bernhard / Romain Dumas / Mike Rockenfeller, como completou o podium com outros dois carros, #8 e #7. A favorita Peugeot afundou-se e nenhum carro chegou: 3 tiveram motores quebrados e o outro, problema de chassi. Nas categorias LMP2, GT1 e GT2, vitórias de modelos Acura, Saleen e Porsche, respectivamente.

Das 397 voltas que a corrida teve, a Peugeot liderou as primeiras 264 (dois terços da prova) com seus três modelos de fábrica, #1, #2 e #3. A partir da 16ª hora, o Audi #9 tomou a dianteira até a bandeirada, 133 voltas depois, nesta que foi a primeira vitória para os três pilotos – Bernhard, Dumas e Rockenfeller. O Audi #8, de Marcel Fassler / Andre Lotterer / Benoit Treluyer, veio em 2º, uma volta atrás, e o #7 de Rinaldo Capello / Tom Kristensen / Allan McNish completou o podium, três giros atrás.

A 78ª edição de Le Mans ficará lembrada na história como o retorno da Audi ao círculo da vitória. A marca alemã estabeleceu nesta última década um domínio impressionante, com 9 vitórias – se igualando à Ferrari e ficando atrás apenas da Porsche, que tem 16 taças. Nos anos 2000, 2001, 2002, 2004 e 2005 foram de vitórias com o modelo R8 –um Bentley projetado e motorizado pela Audi ganhou em 2003.

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Rockenfeller vibra: o Audi #9 revidou a Peugeot, vencedora de 2009 com esse nº no carro

As edições de 2006, 2007 e 2008 foram todas do sucessor R10, que inovou por usar o diesel como combustível. O Audi R15 estreou para manter a coroa em 2009, mas foi derrotado (com justiça) para a Peugeot e seu belíssimo modelo 908 HDi FAP aprimorado, que resultou em dobradinha para a marca do leão.

Neste ano, diante de um público de 238.850 espectadores, veio o revide da marca das quatro argolas, com uma trinca que encheu o podium.

Do outro lado da moeda, a corrida também será lembrada pelo retumbante fracasso da Peugeot, que defendia seu título com flagrante favoritismo mostrado nos treinos. Os três carros de fábrica ocuparam as três primeiras posições no grid e ainda um quarto 908, cedido para a equipe Oreca, completava a quadra que prometia manter a hegemonia francesa. Nenhum dos quatro carros, no entanto, alcançou a bandeira quadriculada na mais nobre das corridas de automóvel. Rapidez e velocidade não são tudo em Le Mans.

Começo sortudo para a Peugeot

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A Peugeot largou na frente e conseguiu 1min de vantagem para os Audi logo de cara

Allan McNish não poderia ter sido mais sincero. O escocês, bicampeão de Le Mans (1998, 2008), disse que a vitória da Audi foi uma tremenda surpresa. “Estou realmente maravilhado, totalmente chocado, estou assustado por tudo”, revelou o piloto que chegou em 3º ao site inglês Autosport.

A incrível velocidade mostrada pela Peugeot desde os treinos e no começo de corrida dava a entender que o Audi R15 ficaria marcado para sempre como o protótipo fracassado da marca. As coisas só pioraram quando, na volta 5, três Safety Car foram lançados por causa de um acidente. Os quatro Peugeot, liderados pelo pole #3 que tinha Sébastien Bourdais ao volante, ficaram atrás de um dos carros, mas os três Audi acabaram atrás de outro, o que separou o grupo e causou certa indignação nos boxes da equipe alemã, que perdeu cerca de um minuto de distância por conta disso. E tudo acontecendo nos primeiros 20 minutos de prova.

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A vantagem da Peugeot teve origem na batida do Ginetta de Nigel Mansell

O piloto que causou a entrada dos carros de segurança era uma das atrações da corrida: Nigel Mansell. O Leão estava a bordo de um Ginetta-Zytek (propositalmente registrado com o número 5) que compartilhava com os filhos Greg e Leo. O veterano inglês sofreu uma batida forte entre a curva Mulsanne e a Arnage causada por um furo de pneu. Foi carregado pra fora do carro pelos fiscais e levado de ambulância. Felizmente, nada de grave aconteceu com o campeão de F1.

Assim que a prova foi retomada, cinco voltas depois, os quatro Peugeot ficaram livres para aumentar ainda mais a distância para os rivais prateados. Com duas horas de corrida, o #2 liderava, seguido pelo #3 (a 4,5s), pelo #1 (a 12,7s) e o Oreca # 4 (a 29,2s). Os três Audi vinham em seguida, sem descontar o minuto que haviam tomado e com mais algum acréscimo. O #7 tinha 1min25s2 de desvantagem, seguido pelo #9, a 1min36s7 e o #8, a 1min55s0.

A prova não poderia ter começado de modo mais perfeito para a Peugeot. Mas a maré de sorte começaria a mudar nas horas seguintes até o pesadelo completo.

O calvário de Bourdais

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Após a confirmação da quebra do Peugeot #3, Bourdais lamenta junto a um mecânico

Sébastien Bourdais é um francês nascido na cidade de Le Mans. Portanto, chamá-lo de piloto da casa ganha um significado ainda mais forte do que o habitual nesta situação. Ele passou perto de ganhar em 2007, quando foi 2º, atrás de um Audi R10 no batismo de fogo do Peugeot 908. Ausente no ano seguinte, tinha tudo para ganhar em 2009 até enfrentar um pit não-programado para arrumar os freios, que o empurrou novamente para o vice, desta vez atrás de outro Peugeot.

Neste ano, foi Bourdais a garantir a pole para os franceses no carro #3. Pedro Lamy foi encarregado do primeiro turno de pilotagem e vinha em 2º, quando, pouco antes da metade da segunda hora, uma estranha fumaça saiu do carro. Num primeiro olhar, parecia ser um azarado furo de pneu, pois o carro estava com a frente arrastada.

O português levou o carro para os boxes, onde foi constatada uma perigosa quebra da suspensão dianteira na ancoragem do chassi – felizmente acontecida em baixa velocidade. Fim de prova e as imagens do box eram focadas apenas em Bourdais, que em vez de entrar no carro para prosseguir na sua tentativa de vencer em casa, era agora consolado por membros da Peugeot.

Audi #7 perde tempo com a "arte"

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Kristensen bateu por causa da BMW GT2 com pintura artística e perdeu 3 voltas

A trinca da Audi avançou uma posição com o abandono do carro #3, mas ainda não conseguia alcançar o agora trio de Peugeot que permaneceu na pista. Ao soar as quatro horas de corrida, o melhor Audi era o #7, pilotado pelo octacampeão Tom Kristensen, que já tinha 2 minutos de desvantagem em relação ao líder, mas se mantinha na mesma volta. O dinamarquês, maior vencedor da História, tentava ganhar terreno quando foi atrapalhado pelo tricampeão do WTCC Andy Priaulx, que andava lentamente com o BMW #79 da categoria GT2 por um furo de pneus.

Para não acertar o carro de Priaulx, que ostentava uma pintura especial feita pelo artista plástico norte-americano Jeff Koons, Kristensen saiu da pista, rodou e bateu de traseira na barreira de pneus da curva Porsche. O acidente custou uma volta para Tom voltar ao traçado e outras duas nos boxes, pois a traseira do Audi precisou de reparos. Agora andando em 7º lugar, atrás até da Lola-Aston Martin #007 capitaneada pelo popular mexicano Adrian Fernandez, não seria desta vez que Kristensen conquistaria a 9ª vitória.

No paddock, sobrou bronca do chefe da Audi, Wolfgang Üllrich, para os diretores da BMW Motorsport, que tiveram que engolir a seco as palavras do conterrâneo. Priaulx mais tarde pediria desculpas a Kristensen, que, como grande campeão que é, aceitou prontamente.

Após problema, Gené azula a pista

Peugeot Sport

Uma troca de alternador fez com que Gené acelerasse forte o Peugeot #1 para recuperar-se

Na metade da 7ª hora de corrida, o Peugeot #1, que liderava com pequena vantagem para o #2, entrou nos boxes e foi diretamente para a garagem, onde os mecânicos levantaram a tampa do motor. O alternador estava com defeito, fato confirmado pelo chefe da Peugeot, Olivier Quesnel. O reparo foi muito trabalhoso e custou aproximadamente 4 voltas, quase 10 minutos. Quando Marc Gené foi finalmente liberado para voltar à pista, estava em 7º. A nova ordem era: #2, #4, #9, #8, #7, #007 e #1.

Gené partiu para o tudo ou nada, sendo destacadamente o mais rápido da pista e exigindo tudo do carro campeão. Ele superou com facilidade a Lola #007 e alcançou o Audi #7 no entrar da 9ª hora. O espanhol, que estava em ritmo de qualificação, conseguiu a espetacular marca de 3:19.644, que lhe daria a pole-position! Ele entregou o carro para o também ex-F1 Anthony Davidson próximo da hora 10, ainda batalhando contra o terceiro Audi, que voltava a ter Kristensen ao volante, com ordem para responder ao ataque do rival e pisar fundo.

Davidson conseguia tempos melhores que Kristensen e se aproximava vigorosamente até que, na metade da décima hora, ficou atolado na brita por cerca de um minuto ao negociar mal a ultrapassagem em um retardatário. Teria que remar tudo de novo. Na frente, o Peugeot #2 e o #4 finalmente apareciam uma volta à frente do Audi #9 e do #8.

Peugeot Oreca se atrasa na metade do caminho

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Doado para a Oreca para atazanar a Audi, o Peugeot #4 também sofreu falhas

Na alta madrugada francesa, assim que os competidores chegaram na 12ª hora, perceberam que o Peugeot Oreca #4 havia desaparecido do 2º lugar. Estava na garagem, sendo freneticamente trabalhado por mecânicos há praticamente 10 minutos, com o piloto, Loic Duval, esperando pacientemente por uma boa notícia. Esta só veio alguns minutos depois, com a substituição de um eixo quebrado. A parada empurrou o carro para uma conhecida posição, a 7ª, que já foi habitada pelo Audi #7 e o Peugeot #1, ambos também sobreviventes de infortúnios de corrida.

O atraso do Oreca provocou a promoção do Audi #9 para o 2º lugar, mas 3 minutos e 15 segundos atrás, quase tomando volta, o que já havia acontecido com o Audi #8, promovido a 3º. O Peugeot #1 e o Audi #7 se engalfinhavam pelo 4º lugar a cada pit stop, mas ambos estavam 3 voltas atrás. E o Oreca #4 estava agora 1 giro atrás dessa briga.

Raios de sol para a Audi; trevas para a Peugeot

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No surgimento do sol, a grande virada para a Audi e a grande tragédia para a Peugeot

O dia começou a raiar em Le Mans na 14ª hora e praticamente nada mudou até a entrada da 16ª. Mas o surgimento do sol teve significados diferentes para as grandes rivais: para a Audi, o prenúncio de um desfecho iluminado; para a Peugeot, o mergulho profundo nas trevas. O líder #2, pilotado por Frank Montagny, que estava para dar duas voltas no Audi #9, começou a soltar fumaça e fogo pelo escapamento direito logo após um pit stop de rotina justamente na virada para a hora 16.

Montagny tirou o carro da pista na curva Tetre Rouge, onde fiscais debelaram a labareda do escapamento. O francês saiu do carro, levantou a tampa do motor e logo constataria que o motor havia estourado, fazendo com que, na virada do último terço de prova, a Audi finalmente alcançasse a liderança com o carro #9 de Timo Bernhard e o #8 de Benoit Treluyer – francês que no ano passado pilotou um Peugeot 908 cedido para a Pescarolo, equipe que teve problemas com sócios investidores e está em um forçado e triste ano sabático.

Christian Vignon/ACO

A labareda no Peugeot #2 denuncia: o motor havia estourado fatalmente

Não havia o que fazer senão acelerar ainda mais o último Peugeot de fábrica, o #1, que vinha sendo nas últimas 6 horas o carro mais rápido da pista. Marc Gené partiu mais uma vez para um stint exigindo tudo do carro #1, que agora ocupava o 3º lugar e tinha duas voltas de desvantagem para os rivais alemães à frente. Pouco antes da 17ª hora, ele foi rendido por Anthony Davidson, que tinha a mesma ordem do espanhol: acelerar como se não houvesse amanhã. Isso significava voltas até 6s mais rápidas que qualquer outro carro e outra volta que lhe daria pole-position, ainda melhor – 3:19.527.

Na metade da 19ª hora, o Peugeot #1 já havia descontado a volta para o Audi #8 e estava com aproximadamente 4 minutos de desvantagem para o líder. Davidson deu lugar a Alex Wurz e o austríaco continuou em ritmo pé-de-chumbo. Pouco antes da 22ª hora, estava a apenas 7s de tomar definitivamente o 2º lugar do Audi #8 quando tanta exigência com o equipamento cobraria seu preço. O motor do Peugeot campeão também explodiu, soltando óleo e fumaça enquanto Wurz carregava o carro lentamente até os pits para encerrar a participação do time de fábrica de modo melancólico.

Uma trinca até o fim

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O trio Audi andou em formação para receber a bandeirada, facilitando a fotografia...

A última ameaça na pista à trinca Audi era o Peugeot da Oreca. Este corria em 4º, dois minutos atrás do carro #7. O chefe da equipe Hugues de Chaunac tinha duas opções: ou pedia para seu piloto Loic Duval preservar o carro, ou apostar tudo numa perseguição à última vaga do podium.

Minutos depois, o assombroso tempo de 3:19.074 alcançado pelo carro #4, meio segundo mais rápido que a pole, respondeu às especulações. Esta seria a melhor volta na prova e o prenúncio da última grande perseguição da corrida na categoria LMP1. Forçando deste modo, porém, o carro durou apenas outros 45 minutos. Pouco antes da entrada na 23ª e penúltima hora, a característica fumaça e labareda de quebra de motor marcava o caminho de Duval para os pits, deixando De Chaunac órfão de seu principal carro. O desastre da Peugeot estava completo.

A terceira quebra de motor da Peugeot causou espanto nos engenheiros da marca. “Desde a estreia do modelo 908 HDi FAP, nunca tivemos problema de motor”, declarou um atônito diretor técnico Bruno Famin ao site da Peugeot Sport.

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Hugues de Chaunac (Oreca) e Olivier Quesnel (Peugeot) lamentam juntos a derrota do 908

A 4ª colocação agora era da Lola-Aston #009, longínquas 14 voltas atrás. Os Audi #9, #8 e #7 navegaram tranquilamente, andando em formação na última meia hora após propositalmente se encontrarem na pista. No cravar das 24 horas, vibração no box germânico na passagem da bandeirada coletiva liderada por um eufórico Timo Bernhard.

Não bastasse a vitória total, o carro vencedor, de quebra, igualou o recorde de voltas dadas e percorreu 5410,713 quilômetros, finalmente superando a marca de 5335,313 km alcançada pela dupla Gijs van Lennep / Helmut Marko com um Porsche 917 em... 1971! Naquela época o circuito de La Sarthe praticamente não tinha chicanes e a reta Mulsanne ainda tinha a exuberante extensão de 6 quilômetros, permitindo aos carros médias horárias mais elevadas que nos anos seguintes.

Despedida

Este foi o segundo e último ano de batalha entre Peugeot 908 e Audi R15. Tanto os franceses quanto os alemães irão aposentar estes modelos ao fim do ano e apresentar novas gerações de protótipos para Le Mans 2011. Aguardemos ansiosos desde já pelas futuras máquinas e futuras batalhas.

Disputa à gasolina

Michel Legeay/ACO

O Oreca-AIM #6 foi informalmente o 'campeão' entre os carros à gasolina

Se Audi e Peugeot com seus protótipos a diesel capitalizaram as atenções pela vitória, houve também muita disputa entre os demais carros da categoria LMP1 pela hegemonia do melhor carro à gasolina. O modelo Lola-Aston-Martin, que defendia esse título informal com três carros na pista, chegou muito perto de mantê-lo, mas não teve êxito.

O carro #007 de Adrian Fernandes / Stefan Mucke / Harold Primat, 4º colocado na Le Mans 2009, liderou esse pelotão a partir da segunda hora de prova, chegando até a superar os carros favoritos que tiveram atrasos. Manteve-se impávido até enfrentar uma demorada troca de câmbio na 16ª hora, que custou ao trio um atraso de 25 voltas.

A Lola-Aston #009, de Juan Barazi / Sam Hancock / Darren Turner passou a liderar a trupe a gasolina e certamente ficaria com o 4º lugar geral, mas teve uma quebra de motor a apenas uma hora da bandeirada. Com a desistência dos velhos Audi R10 da Kolles (que apesar de serem à diesel, eram equivalentes em desempenho) e de outras Lolas, como as da Rebellion Race (#12 e #13) e da Drayson (#11), capitaneada por Emanuele Pirro, penta de Le Mans, o melhor carro a gasolina acabou sendo o Oreca-AIM #6. O trio Soheil Ayari / Didier Andre / Any Meyrick, que sofreu rodadas e pequenos choques durante a prova, fechou em 4º lugar, a 28 voltas do vencedor.

LMP2 – Batalha particular da Acura; Erdos é 3º

Highcroft Racing

Os Acura dominaram a LMP2; o #42 ganhou, mas o desafiante #26 teve problemas

A batalha pelo título na LMP2 ficou praticamente restrita aos dois carros Acura ARX-01 inscritos – o #26 da Highcroft, e o #42 da Strakka – sempre com os melhores tempos nos treinos. O conhecido modelo nipo-americano (que estava inscrito na prova como “HPD”) foi lançado em 2007 e ganhou várias provas do American Le Mans Series, quando rivalizava principalmente com o Porsche RS Spyder, vencedor da LMP2 em 2009 e que não apareceu este ano.

Passado o primeiro terço de prova, os dois Acura provavam a superioridade perante a concorrência ao ter 3 voltas de vantagem para o OAK-Pescarolo-Judd #35, para a RML-Lola #25 do brasileiro Thomas Erdos e para a Ginetta-Zytek #40 da equipe ASM.

A vitória seria decidida a favor da Strakka e seus pilotos Nick Leventis / Danny Watts / Johnny Kane em forma de uma sucessão de problemas no carro da rival Highcroft. Tudo começou com um furo de pneu na virada para a 10ª hora, fazendo o fortíssimo trio David Brabham (campeão pela Peugeot em 2009) / Marino Franchitti (irmão de Dario, da Indy) / Marco Werner (tri pela Audi) perder duas voltas.

Jean Philippe Boyer/ACO

Mesmo com uma Lola com 2 anos de uso, Thomas Erdos chegou em 3º

Jonny Kane, um ex-campeão britânico de Fórmula 3, aproveitou para apertar o ritmo, marcando tempos quase tão bons quanto os carros à gasolina da LMP1 e aumentando a vantagem na ponta para 3 voltas num pit demorado do rival. As coisas pioraram ainda mais para o carro #26 quando foi descoberto um vazamento no sistema de resfriamento, fazendo a desvantagem pular para 6 voltas no entrar da 18ª hora e para 8 voltas na 20ª, quando eles caíram para 4º na categoria.

Enquanto Danny Watts recebia a bandeirada num espetacular 6º lugar geral, 30 voltas atrás, e ficava com a vitória na categoria, o carro da Highcroft teve que ser recolhido aos boxes para apenas ser relançado à pista no fim, para completar a prova, 71 voltas atrás do rival. O OAK Pescarolo #35 de Matthieu Lahaye / Guillaume Moreau / Jan Charouz ficou em 2º, cruzando 6 voltas atrás com fumaça no motor, que não agüentaria muito tempo. A velha Lola #25 da equipe de Thomas Erdos / Mike Newton / Andy Wallace completou o podium, 9 voltas atrás

GT1 – Favoritos quebram, ganha azarão

Frédéric Gaudin/ACO

O belo Saleen havia marcado o penultimo tempo da GT1, mas ficou com a vitória

Com apenas 8 carros inscritos, a categoria GT1 (que será extinta no próximo ano para abrir a GT2 para profissionais e amadores) foi vencida por um dos carros que teoricamente tinha menos chance, o Saleen S7R #50 da Larbre Competition, pilotado por Gabriele Gardel / Roland Berville / Julien Canal.

Eles, que marcaram o penúltimo tempo da categoria, ganharam ao chegar na 13ª posição geral, 66 voltas atrás do Audi #9 vencedor. Foi uma prova de sobrevivência na categoria, uma vez que o Saleen chegou atrás até dos dois primeiros colocados da GT2, que teve 18 inscritos na prova.

Apenas outros dois carros da GT1 terminaram, e ficaram com as outras vagas do podium: o Corvette #72 da Luc Alphand, de Jerome Policand / Stephan Gregoire / David Hart, 4 voltas atrás; e o Aston Martin #52 da Young Driver, de Tomas Enge / Christoph Nigaard / Peter Kox, que marcou a pole da categoria, mas enfrentou uma série de problemas mecânicos e fechou com um atraso de 20 voltas.

Arnaud Cornilleau/ACO

O Aston #52, capitaneado por Tomas Enge, marcou a pole, mas ficou só em 3º

Além do Aston #52, que mostrou um ritmo de prova muito ruim, os favoritos eram os 3 Ford GT inscritos, que foram forçados a abandonar. O primeiro deles foi o #70 da Marc VDS Racing. Antes da 2ª hora, Bas Leinders bateu e fez um grande estrago na parte traseira do carro. O piloto ainda conseguiu levar os destroços até os boxes, apenas para os mecânicos o avisarem que era impossível fazer qualquer coisa.

A próxima desistência, para tristeza de toda uma torcida masculina, foi o #61 da Matech Competition, do trio das musas suíças Natacha Gachnang / Cyndie Allemann / Rahel Frey. O GT delas teve um incêndio na entrada da 5ª hora, obrigando Natasha, que pilotava com uma proteção na perna, a sair pela porta do passageiro.

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O Ford #61 das musas suíças pegou fogo. Coitadinhas!

O outro carro da Matech, o #60, estava em confortável liderança de duas voltas de vantagem para o Corvette #73 da Luc Alphand, quando na 9ª hora Thomas Mutsch errou na chicane Ford e envolveu-se numa batida com o OAK Pescarlo-Judd #24 da categoria LMP2. O GT foi reparado, mas abandonou definitivamente na hora 13, decepcionando o francês Romain Grosjean, que não dava as caras desde que foi dispensado pela Renault F1 após péssimas exibições.

A partir de então, o Saleen #50 tomou a liderança, mantendo-a até a bandeirada, uma vez que o Corvette #73 havia se atrasado nos pits e abandonaria na hora 17 por problemas mecânicos, deixando o gêmeo #72 na 2ª posição.

GT2 – Louca batalha entre Ferrari e Corvette; Farfus completa

Porsche Motorsport

O Porsche #77 esperou pacientemente os favoritos terem problemas para tomar a ponta

A vitória da sempre muito competitiva e plural categoria GT2 foi para o Porsche 997 #77 da equipe Felbermayr, que fechou a prova no 11º lugar geral. O trio de pilotos Marc Lieb / Richard Lietz / Wolf Henzler chegou a andar em 7º na categoria, enfrentou um longo pit de 8min na hora 14, mas ficou com a taça ao tomar a liderança na 17ª hora de prova.

O carro vencedor foi seguido por Dominik Farnbacher / Allan Simonsen / Leh Keen, duas voltas atrás com a Ferrari 430 #89 da Hankook; e por Marco Holzer / Richard Westbrook / Timo Scheider, 11 voltas atrás com o Porsche 997 #97 da BMS-Scuderia Italia – mesma equipe que correu com a marca Dallara na F1 entre 1988 e 1992.

Mesmo enfrentando diversos problemas, Augusto Farfus Jr., brasileiro que é uma das estrelas do WTCC, conseguiu completar a prova em 6º lugar na BMW M3 #78 de fábrica, juntamente com os colegas Jorg Müller e Uwe Alzen. “Foi desgastante, mas recompensador. Terminar uma prova como essa, onde inúmeros carros ficam pelo caminho já é uma grande conquista", argumenta o estreante.

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Farfus enfrentou alguns problemas com a BMW M3, mas fechou a prova em 6º na GT2

Farfus chegou a ocupar a 4ª posição, mas uma falha eletrônica e problemas com o freio fizeram o carro perder rendimento. "O visor de marchas parou de funcionar e o pedal do freio afundava. Isso, somado ao cansaço, dificultou muito o nosso trabalho", lembra o brasileiro, que ficou em 19º lugar na classificação geral.

O outro brasileiro na prova, Jaime Melo Jr., participou da grande batalha na pista desta edição das 24 Horas de Le Mans, a fantástica disputa entre sua Ferrari #82 da Risi Competizione e o Corvette #64 de fábrica. Melo havia marcado a pole da GT2, mas uma pequena irregularidade na asa traseira da Ferrari fez com que ele e seus colegas Gianmaria Bruni e Pierre Kaffer largassem em último, num grid de 55 carros.

O brasileiro foi encarregado da largada e cumpriu as duas horas iniciais de pilotagem, passando a Ferrari para Kaffer já na 3ª posição, atrás apenas dos dois Corvettes de fábrica, #64 e #63, respectivamente.

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Com a Ferrari #82, Melo chamou o Corvette #64 para uma disputa pela liderança...

Kaffer e Melo, em seus turnos, tiveram então disputas fortíssimas com Emmanuel Collard e Oliver Gavin, pilotos do Corvette #64, que comprou a briga pelo comando da prova. Nem parecia que a corrida tinha 24 horas. A incrível batalha entre os dois carros parecia ser sempre pelo simples direito de ser líder na volta seguinte, já que trocaram de posição nada menos que nove vezes!

Esse ‘pega’ durou mais de cinco horas seguidas – da metade da hora 2 até 15 minutos para a hora 8, quando Melo reportou à Risi a ocorrência de problemas na seleção das marchas da Ferrari #82. Sem mais opções, abdicou da liderança e procurou os boxes.

“Foi um problema atípico, que nunca aconteceu. O câmbio é um dos pontos fortes da Ferrari. Faltou sorte, mesmo”, disse o piloto, que defendia o título na categoria. “Nossa batalha com os Corvette, como todos viram, foi muito dura, e poderíamos ter levado aquele duelo até o final da corrida, mas hoje o câmbio não ajudou a gente”, lamentou o brasileiro.

Frédéric Gaudin/ACO

...que duraria nada menos que 5 horas seguidas! Pena que abandonaram...

O destino dos Corvettes, entretanto, também seria a desistência. O #63 teve o motor quebrado na hora 16 e, uma hora depois, o #64 bateu forte de traseira na curva Porsche, quando Collard foi praticamente atropelado por Anthony Davidson do Peugeot 908 #1, que estava em velocidade máxima tentando alcançar o Audi #7.

Os mecânicos do time americano até ‘remendaram’ o carro, mas não haveria mais condições de continuar. A desistência definitiva veio pouco antes da hora 19, quando o Porsche #77 já havia tomado a liderança rumo à vitória.

Yoann Boulay/ACO

Isto é Le Mans! Esporte a motor em estado de arte!

Confira o resultado das 24 Horas de Le Mans 2010

1) [9] Bernhard/Dumas/Rockenfeller (Audi R15), 397 voltas (5410,713 km)

2) [8] Fassler/Lotterer/Treluyer (Audi R15), + 1 volta

3) [7] Kristensen/McNish/Capello (Audi R15), + 3 voltas

4) [6] Ayari/Andre/Meyrick (ORECA 01-AIM), + 28 voltas

5) [42] Watts/Kane/Leventis (Strakka HPD ARX-01), + 30 voltas

6) [007] Mucke/Fernandez/Primat (Lola-Aston Martin), + 32 voltas

7) [35] Moreau/Charouz/Lahaye (Oak Pescarolo), + 36 voltas

8) [25] Erdos/Newton/Wallace (RML Lola HPD), + 39 voltas

9) [24] Hein/Nicolet/Yvon (Oak Pescarolo), + 56 voltas

10) [41] Greaves/Ojjeh/Chalandon (Bruichladdich), + 56 voltas

11) [77] Lieb/Lietz/Henzler (Felbermayr Porsche), + 59 voltas

12) [89] Farnbacher/Simonsen/Keen (Hankook Ferrari), + 61 voltas

13) [50] Gardel/Berville/Canal (Larbre Saleen), + 66 voltas

14) [97] Westbrook/Scheider/Holzer (BMS Porsche), + 70 voltas

15) [72] Policand/Gregoire/Hart (Alphand Corvette), + 70 voltas

16) [95] Alesi/Fisichella/Vilander (AF Corse Ferrari), + 74 voltas

17) [76] Pilet/Narac/Long (IMSA Porsche), + 76 voltas

18) [28] Rostan/Meichtry/Bruneau (Race Perf Radical), + 76 voltas

19) [78] Farfus/J.Muller/Alzen (BMW M3), + 77 voltas

20) [40] Hughes/Amaral/Pla (ASM Ginetta-Zytek), + 79 voltas

21) [75] Splunteren/Hommerson/Machiel (Prospeed Porsche), + 80 voltas

22) [52] Enge/Nygaard/Kox (YD Aston), + 86 voltas

23) [37] P.Salini/S.Salini/Gommendy (WR Zytek/Salini), + 89 voltas

24) [88] F’mayr/F’mayr/Konopka (Felbermayr Porsche), + 93 voltas

25) [26] Brabham/Franchitti/Werner (Highcroft HPD), + 101 voltas

26) [39] Noda/Pourtales/Kennard (KSM Lola-Judd), + 106 voltas

27) [85] Coronel/Dumbreck/Bleekemolen (Spyker), + 117 voltas


Não-classificados (menos de 70% percorridos)

28) [11] Pirro/Cocker/Drayson (Drayson Lola), + 144 voltas


Abandonos

29) [4] Panis/Lapierre/Duval (ORECA Peugeot 908), 373 voltas

30) [009] Turner/Hancock/Barazi (Lola-Aston Martin), 368 voltas

31) [1] Wurz/Davidson/Gene (Peugeot 908), 360 voltas

32) [15] Jarvis/Albers/Bakkerud (Kolles Audi R10), 331 voltas

33) [008] Mailleux/Ragues/Ickx (Signature Aston), 302 voltas

34) [2] Montagny/Sarrazin/Minassian (Peugeot 908), 264 voltas

35) [64] Gavin/Beretta/Collard (Corvette), 255 voltas

36) [73] Jousse/Gouselard/Massen (Alphand Corvette), 238 voltas

37) [63] O'Connell/Magnussen/Garcia (Corvette), 225 voltas

38) [83] Krohn/Jonsson/van de Poele (Risi Ferrari), 197 voltas

39) [14] Bouchut/Tucker/Rodrigues (Kolles Audi R10), 182 voltas

40) [12] Jani/Andretti/Prost (Rebellion Lola), 175 voltas

41) [60] Grosjean/Mutsch/Hirschi (Matech Ford GT), 171 voltas

42) [13] Belicchi/Boullion/Smith (Rebellion Lola), 143 voltas

43) [69] Yogo/Iiri/Yamanishi (JLOC Lamborghini), 138 voltas

44) [82] Bruni/Melo/Kaffer (Risi Ferrari), 116 voltas

45) [92] Bell/Sugden/Miller (JMW Aston Martin), 71 voltas

46) [80] Bergmeister/Law/Neiman (Fl. Lizard Porsche), 61 voltas

47) [61] Allemann/Gachnang/Frey (Matech Ford GT), 59 voltas

48) [29] Pirri/Cioci/Perrazzini (Racing Box Lola), 57 voltas

49) [79] Priaulx/D.Muller/Werner (BMW M3), 53 voltas

50) [38] Schell/da Rocha/Zollinger (Pegasus Norma), 40 voltas

51) [3] Lamy/Bourdais/Pagenaud (Peugeot 908), 38 voltas

52) [70] Leinders/Palttala/de Doncker (Marc VDS Ford GT), 26 voltas

53) [5] N.Mansell/G.Mansell/L.Mansell (Beechdean Ginetta), 4 voltas

54) [81] Goossens/Dalziel/Gentilozzi (Jaguar XKR), 4 voltas

55) [19] Lewis/Burgess/Willman (Autocon Lola-AER), 1 volta

56) [96] Salo/Russo/Companc (AF Corse Ferrari), não largou


LMP1: Preto; LMP2: Azul; GT1: Verde; GT2: Vermelho
Vencedores das categorias em negrito.