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Especial LM 2009 | Texto 03
Os grandes nomes que se imortalizaram em La Sarthe
Quinta-feira, 18 de Junho de 2009
Le Mans Portugal
Tom Kristensen e Jacky Ickx, os maiores vencedores. Juntos, têm 'apenas' 14 taças...
Márcio Madeira da Cunha / Lucas Giavoni
Conforme já vimos, a ideia por trás das 24 Horas de Le Mans é a de uma forma mais ampla de automobilismo. Uma prova não de velocidade pura, mas de cabeça, estratégia, resistência, administração de equipamento e ritmo. Por isso mesmo, é natural que o desafio representado por este evento ímpar do esporte a motor tenha, ao longo da história, premiado um tipo específico de piloto, muitas vezes diferente daquele que naturalmente teria sucesso em corridas mais curtas.
Fazendo uma analogia com o atletismo, estamos aqui falando de algo similar aos diferentes biótipos para os corredores das mais diversas distâncias. A Formula 1, por exemplo, é uma categoria totalmente focada em acelerações. Seus carros não são os mais velozes do mundo, mas nada sobre a face da Terra é capaz de correr mais rápido em qualquer circuito misto – e quanto mais sinuoso este for, maior a diferença em relação a qualquer outra categoria.
O GP de Mônaco de F1, portanto, equivaleria a uma corrida de 100 metros rasos. Uma prova de aceleração total, na qual a rapidez importa mais do que velocidade final ou resistência física. Lembre-se que a prova monegasca tem pouco mais de 250 km, na qual o piloto trabalha o tempo todo gerando acelerações, lineares ou não. Em resumo: vence em Mônaco quem for mais rápido no absoluto.
Arquivo
Graham Hill foi o único ser deste planeta a vencer Le Mans, Mônaco e Indianápolis
Seguindo nosso paralelo, podemos comparar as 500 milhas de Indianápolis com uma corrida de 800 metros rasos, na qual o resultado é obtido numa delicada relação entre velocidade máxima, resistência e acompanhamento do ritmo dos adversários mais fortes. Afinal, a prova norte-americana tem 800 km e é percorrida em pouco mais de 3 horas. É velocidade pura, obviamente conjugada com a resistência necessária para cumprir o percurso. Vence em Indianápolis, portanto, quem for mais veloz e tiver mais a oferecer num sprint final entre os que estão no pelotão dianteiro.
Já as 24 Horas de Le Mans representam para o automobilismo a maratona – prova esta a mais nobre do atletismo. É muito mais complexa e que efetivamente leva carros e pilotos ao limite de suas forças por um longo tempo. A pista é extremamente exigente, percorrida em 85% do tempo com aceleração máxima, em meio a longas retas super onduladas. Em geral o vencedor percorre algo acima de 5 mil quilômetros, que seria quase como ir de Porto Alegre a Belém do Pará num único dia!
Os incríveis ‘maratonistas’
Assim como numa maratona, é crucial que o piloto tenha o perfeito conhecimento de suas próprias limitações, bem como das do carro. Correr demais, dar tudo de si, na maioria das vezes pode ser algo muito mais prejudicial do que benéfico, em termos de resultado final. Natural, portanto, que poucos pilotos tenham conseguido se sair bem em La Sarthe e paralelamente em provas curtas, de rapidez.
Reprodução
Henri Pescarolo, hoje dono de equipe, é o rescordista de largadas. Um super-herói barbudo...
Isso fica ainda mais claro quando olhamos para a lista de vencedores das 24 Horas, e encontramos diversos pilotos com passagens opacas pelo universo dos Grand Prix. E antes que os mais apressados concluam que, em virtude disso, estamos falando de uma corrida mais ‘fácil’, vale lembrar que o contrário também é verdade. Muitos nomes de primeira grandeza dos GPs jamais conseguiram repetir seus melhores resultados em Le Mans. Portanto, não há nada de ‘fácil’ aqui.
O maior vencedor da prova, por exemplo, teve como seu máximo na F1 ser piloto de testes da então decadente Tyrrell em 1998. O dinamarquês Tom Kristensen é dono de nada menos que oito conquistas nas 24 Horas, um número assombroso se levarmos em consideração que fora das provas de resistência ele é um piloto “normal” do Campeonato de Turismo Alemão (DTM), categoria pela qual corre desde 2004, mas venceu apenas quatro GPs. Neste ano, Kristensen fará sua última temporada de turismo, dedicando-se agora exclusivamente no que melhor sabe fazer...
Entre os vencedores da prova ainda se encontram inúmeros pilotos que só encontram seu estado de excelência em provas longas. O mais emblemático dos exemplos talvez seja do francês Henri Pescarolo. Ele só conseguiu um podium na F1 em 57 GPs disputados entre 1968 e 1976, mas é uma espécie de super-homem de Le Mans. Participou da prova por 34 vezes entre 1966 e 1999 e venceu quatro. Sua paixão pelas provas de resistência é tanta que, assim que encaminhava para a aposentadoria, formou a Pescarolo Sport, uma das mais prestigiadas equipes particulares de endurance, e que conta com os conhecimentos do nosso amigo e colaborador Ricardo Divila.
Arquivo
Phil Hill e Olivier Gendebien - a melhor dupla de endurance entre 1958 e 1962
O recentemente aposentado Emanuele Pirro, por exemplo, venceu a prova expressivas 5 vezes, revelando um talento e uma maturidade que simplesmente não puderam ser devidamente valorizados na F1. Frank Biela, também pentacampeão e companheiro de Pirro, tem formação no turismo, correndo em monoposto apenas F-Ford. Derek Bell é outro penta que não deu certo nos fórmulas – mesmo disputando algumas provas de F1 pela Ferrari. E o francês Yannick Dalmas encontrou na maratona de La Sarthe o ambiente ideal para fazer valer suas virtudes, conquistando quatro vitórias com quatro modelos de carro distintos.
Ainda dentro desse grupo de pilotos que tinham como meta a F1, não tiveram êxito e se consagraram nas 24 Horas, temos: Paolo Barilla, Johnny Dumfries, Jan Lammers, Bertrand Gachot, Volker Weidler, Mauro Baldi, Joachim Winkelhock, Pierluigi Martini e Allan McNish – este, um bicampeão que ainda pode aumentar seus números, já que se trata de um dos melhores pilotos do staff da Audi.
Há, porém, quem tenha feito mágica, e obtido destaque em todos estes tipos de palcos. Acima de todos estes nomes se encontra o de Graham Hill, eterno Mister Mônaco, e único piloto na história a vencer as 3 principais provas do mundo, que formam a Tríplice Coroa do esporte a motor: em Monte Carlo nos anos de 1963/64/65/68/69, em Indianápolis em 1966, e em Le Mans em 1972.
Wikipedia
O inglês Derek Bell é pentacampeão de La Sarthe...
Tudo isso sem mencionar que Graham também tem na F1 dois títulos mundiais, conquistados em 1962 e 1968. Um feito que no atletismo talvez só encontre paralelo no espetacular tcheco Emil Zátopek, chamado de “A Locomotiva Humana” por suas inacreditáveis conquistas nos 5 e 10 mil metros rasos e também na maratona dos jogos olímpicos de Helsinque 1952. Uma lenda que, curiosamente, também venceu a São Silvestre, aqui no Brasil, um ano mais tarde.
AJ Foyt passou perto desse feito. Vencedor de Le Mans em 1967, foi tetracampeão de Indianápolis – número que ainda hoje é o recorde - e triunfou também a Daytona 500 da Nascar, o que para os norte-americanos desacostumados com a Formula 1 significa o auge do esporte a motor.
Outro campeão da F1 que também brilhou em Le Mans foi o norte-americano Phil Hill, que venceu o Campeonato Mundial em 1961 e escreveu seu nome como triunfante em La Sarthe por três vezes (1958/61/62), todas as conquistas a bordo de carros Ferrari. O compatriota e lenda-viva do esporte Carroll Shelby, que ganhou a prova de 1959 com um Aston Martin e em 1966/67 como dono de equipe com os Ford GT40, apontava Hill como um dos melhores pilotos de endurance que ele conheceu.
O companheiro de conquistas de Phil foi o não menos extraordinário belga Olivier Gendebien (pronuncia-se “Jândebiân”), que ainda venceu a edição de 1960 com o piloto-jornalista Paul Frère, e que só não colecionou mais troféus porque parou de correr após o tetracampeonato em 1962, por pressão da família.
Friedman/BockPirro.com
...assim como o italiano Emanuele Pirro. Ambos não 'deram certo' na Formula 1
Ainda dentro do mesmo do seletíssimo clube de Phil Hill, temos Jochen Rindt, o campeão póstumo de 1970. Em dupla com Masten Gregory, outro que competiu na F1, fizeram milagre com uma Ferrari particular com menos potência e venceram a edição de 1965 – assunto para os próximos textos. O último triunfante nos dois mundos é Mike Hawthorn, de quem também falaremos nos próximos textos, pois foi um dos personagens da trágica edição de 1955.
Impossível não falar também de nomes como Jacky Ickx, que por duas vezes foi vice na F1 (1968/70), e, com incrível adaptabilidade empalmou Le Mans por nada menos que seis vezes (1969/75/76/77/81/82). Certamente um dos maiores pilotos de carros-esporte que o automobilismo já viu, e arrebatador também sob pista molhada. Um talento maleável e eclético o bastante para vencer, por exemplo, o Rally Paris-Dakar em 1983 – apenas um ano após sua última conquista nas 24 Horas.
E por falar em rally, outro que competiu – e muito bem, como sempre – em Le Mans, foi o genial pentacampeão Sébastien Loeb. Provando que também é bastante rápido fora da sua área de domínio, Seb correu a prova pela Pescarolo em 2005 e 2006 e conseguiu uma segunda colocação já na segunda tentativa, guiando um protótipo certamente menos competitivo que o Audi R10 dos vencedores Pirro, Biela e Marco Werner. Divila trabalhou diretamente com Loeb, e declarou textualmente ao UV que o francês foi sempre seu melhor piloto na prova.
Forocoches/reprodução
Olha só o segundo nome, que correu Le Mans pela Mercedes em 1991...
Por fim, há ainda uma infinidade de nomes famosos e grandiosos que participaram da prova sem alcançar o gosto da glória. Michael Schumacher, por exemplo, é um que se aventurou por lá, conseguindo uma 5ª colocação na edição de 1991. Michael foi autor da melhor volta. O ritmo demasiadamente forte, porém, é apontando como uma das causas dos problemas mecânicos que atingiram o carro do time Júnior da Mercedes-Benz naquele ano.
Seria impossível lembrar aqui todas as participações de peso na história da corrida, mas não podemos deixar de citar Juan Manuel Fangio e Stirling Moss, que fizeram a dupla perfeita em 1955 – edição que, como falamos, merece um texto destacado, já que se trata do maior desastre do esporte a motor. O grande Jim Clark também tem largadas em Le Mans, mas classificava a prova como perigosa, pois ele, que tinha uma pilotagem exuberante, não acreditava que existissem no mundo 120 pilotos com capacidade de competir em provas de alta velocidade.
Clark, de fato, tinha razão quanto a periculosidade da prova, que justamente por levar carro e piloto ao limite por mais tempo, fica também mais exposta a falhas, tanto de equipamento quanto de pilotagem. Excluindo-se fiscais de pista e espectadores, 14 pilotos morreram durante a prova e outros sete em testes e treinos. Mais da metade dos acidentes fatais ocorreu na reta Mulsanne, que foi cortada por duas chicanes em 1990. Um ano antes, carros começaram a quebrar a inacreditável barreira dos 400 km/h.
Newman/Haas/Lanigan Racing
Paul Newman, 2º em Le Mans 1979, e Mario Andretti, participante de muitas edições
Em sua pluralidade ímpar, Le Mans também ganha destaque por um grupo de pilotos que não alcançou a fama nas pistas, mas fez justamente o contrário – trouxe a fama que já possuía para engrandecer ainda mais a prova. E entre as celebridades que já participaram da prova, ninguém fez mais bonito que Paul Newman. O eterno Butch Cassidy, falecido recentemente, chegou em segundo lugar na edição de 1979 no Porsche 935 de Dick Barbour, que ainda contou com a pilotagem de Rolf Stommelen.
Para a edição 2009, Patrick Dempsey, astro de alguns filmes à la Sessão da Tarde dos anos 80 e atual protagonista do popular seriado de TV Grey’s Anathomy, apareceu como uma espécie de sucessor de Newman, inscrito em uma Ferrari F430 da categoria GT2.
Stevie McQueen, nome máximo do binômio corridas-cinema, é um caso à parte – literalmente. Ele, que chegou em 2º lugar na edição 1970 das 12 Horas de Sebring, nos EUA, estrelou o filme Le Mans, que também terá um capítulo especial dentro desse especial.
A criação dos carros para Le Mans segue a mesma lógica usada para definir o perfil dos pilotos vencedores. E tanto em um caso quanto em outro, nomes ficam consagrados através dos tempos. Uma das belezas da prova é poder abrigar vários tipos de carros, de escolas de engenharia distintas e que variam em tamanho, potência, peso etc.
Este é o assunto do próximo texto. Continuem com a gente!
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