Indy | 500 Milhas de Indianápolis Centenária

Wheldon ganha chocante Indy
500 centenária na reta de chegada

Domingo, 29 de Maio de 2011
Atualizada terça-feira, 31 de Maio de 2011

Video oficial da IRL das 500 Milhas de Indianapolis 2011, edição centenária

Lucas Giavoni

Uma eletrizante trama nas voltas finais transformou-se em um final espetacular para a centenária edição das 500 Milhas de Indianápolis. Com várias táticas de combustível para a parte final e vários níveis de desempenho, JR Hildebrand (Panther) surgiu líder na penúltima volta até bater na última curva da última volta, quando tentou ultrapassar um retardatário por fora sem perder tempo. O acidente permitiu Dan Wheldon (Bryan Herta), em sua única participação neste ano, passar o carro destruído na reta final e vencê-lo por margem de 2,1s, repetindo sua vitória de 2005. Graham Rahal (Ganassi) foi 3º e Tony Kanaan (KV), que teve 2 pits desastrosos, ainda conseguiu recuperar-se a tempo de chegar num excelente 4º posto.

Começo cauteloso

Getty Images

Largada da Indy 500

O começo foi pouco mivimentado - apenas Kanaan se destacou ao subir muitas posições

O acerto do carro para os treinos não é exatamente igual ao acerto para a corrida. Fazer a pole nem sempre é garantia de ter o melhor carro para enfrentar as 500 Milhas. E os carros que logo no começo já se apresentaram como muito competitivos foram os dois ‘oficiais’ da Ganassi – Scott Dixon e o defensor da taça, Dario Franchitti.

Dixon – ele, também um vencedor da corrida - começou a mostrar-se logo na pouco organizada largada, quando o neozelandês já superou o pole Alex Tagliani (Sam Schmidt) na primeira curva. Oriol Servia (Newman-Haas), terceiro elemento da fila da frente, também passou o canadense, mas tomou o troco duas voltas depois. Todos começaram muito cautelosos, sem querer resolver nas primeiras voltas algo que só se decide na ducentésima.

Tagliani retomou a liderança na 8ª volta, seguido por Dixon, o companheiro Townsend Bell e por Wheldon, que também teve assessoria da Sam Schmidt em seu carro de Bryan Herta. Alex manteve o comando mesmo depois da primeira bandeira amarela: Takuma Sato (KV), que andava em 17º, abriu demais a trajetória e bateu no muro da curva 2, ‘assinando’ com os pneus o impecável muro branco da pista de Indiana na volta 21. O único que não foi nada cauteloso foi o companheiro de Sato. Tony Kanaan pulou de seu 22º lugar do grid para o 15º quando entrou no pitlane.

Começa o pesadelo da Penske

AP Photo

Power, Penske

Power fez seu pit e saiu sem uma das rodas - apenas o começo do martírio da Penske

A maratona dos primeiros pits foi inaugurada e a campanha fracassada da Penske – o time que mais venceu na Brickyard -, que começou com pífio desempenho para o grid, começava a ficar evidente. Will Power, que era o melhor competidor do time, em 7º, saiu de sua parada antes que um dos mecânicos fixasse o pneu traseiro esquerdo. O carro do australiano virou um triciclo e, com a nova parada para minimizar o estrago, caiu para 26º. A relargada, com Tagli na frente, teria no tricampeão Helio Castroneves a melhor Penske, na 14º posição... Kanaan fez pit rápido e pulou para 9º, em evolução impressionante. Wheldon era 6º.

Carros – na infeliz configuração de fila dupla, que só funciona para a Nascar – voltariam a acelerar na volta 27. Isso apenas para entrarem na segunda amarela do dia, com o 3º carro da KV de Ernesto Viso a estampar com intensidade o muro da curva 1. O venezuelano compartilhou por fora um triwide, com Jay Howard (Rahal/Schmidt) por dentro e meio para James Hinchcliffe (Newman-Haas), que tocou o carro verde, que rodopiou na grama interna da curva, girou e bateu com força.

Indycar Media

Kanaan e Hunter-Reay

Kanaan passou muitos, como Hunter-Reay, que comprou a vaga de Bruno Junqueira na Foyt

Bandeira verde a partir da volta 33 e Dixon mais uma vez estava no comando. O desempenho de Tagliani começou a decair e logo Franchitti alcançaria o 2º lugar na volta 44, trazendo Wheldon para a 3º posição. Bell mantinha a 5ª posição e Kanaan já era o 6º.

Pela primeira vez competidores tiveram que trocar pneus e reabasteceriam em bandeira verde. Wheldon e Bell inauguraram a rodada na volta 60. Dixon e Tagli foram na 61 e em seguida Jay Howard, que tinha acabando de fazer seu pit também teve uma roda mal fixada e ‘reescreveu’ o que Sato tinha deixado na curva 2, na 3ª batida do dia. Como alguns pilotos ainda não haviam parado, as posições ficaram embaralhadas no acionamento de nova bandeira amarela.

Um dos que perdeu terreno foi Kanaan. Assim que o brasileiro embicou para fazer seu pit, a inglesa novata Pippa Mann (Conquest) foi inadvertidamente liberada de sua parada e bloqueou o brasileiro, que passou do ponto. O carro verde #82 teve que ser puxado pelos mecânicos e caiu do 6º para o 24º lugar. A verde voltaria a ser agitada na 70ª passagem.

Ganassi finalmente no topo da torre

Reuters Pictures

Dario e Scott

Franchitti e Dixon mostraram ter os melhores carros na corrida, abrindo distância

Dixon já estava na ponta antes de fazer seu pit, e manteve-se por lá, com Franchitti em segundo. Os dois finalmente mostraram o favoritismo dos carros que usavam, alternando cautelosamente de posição enquanto abriam distância para os demais competidores. Na famosa torre indicadora de posições do Indianapolis Motor Speedway, só dava #9 e #10.

Enquanto isso, Wheldon novamente havia achado um jeito de passar Tagliani e ficar com o 3º lugar. Pouco antes da metade da prova, na volta 98, o inglês inaugurou nova rodada de pits, em bandeira verde. E não demoraria muito para que, mais uma vez, um acidente e acionamento do Pace Car (dirigido pelo mítico AJ Foyt) fosse feito, com o inevitável embaralhamento das posições intermediárias. Na centésima volta, Hinchcliffe, que já tinha se envolvido na pancada de Viso, fez desta vez um ‘solo’ ao bater na curva 1 quando abriu demais a trajetória e pegou a ‘farofa’ do traçado sujo.

Dario tornou-se líder, com Servia em um pit stop rapidíssimo, em 2º. O trabalho em Dixon não foi dos melhores e ele caiu para 5º. Wheldon era 7º e JR Hildebrand já começava a se destacar ao figurar em 8º. A relargada aconteceu na volta 107 e então se deu conta do piloto que acabava de tomar volta: Helio Castroneves.

Reuters Pictures

Briscoe e Bell

Briscoe, última esperança da Penske, bateu forte com Bell na volta 158

O tricampeão da Penske, que esteve todo o tempo com desempenho pra lá de modesto durante a prova, culpa de um acerto de carro infeliz, agora lutava para descontar a volta em relação ao líder. O brasileiro lutou bravamente e conseguiu passar e manter-se à frente por 8 voltas. Mas a partir do giro 118, foi novamente superado e as chances de um bom resultado desapareciam. Power há muito já estava uma volta atrás, na vergonhosa 22ª posição. Para o time de Roger Penske só restava Ryan Briscoe na briga, em 9º lugar.

Em poucas voltas, Briscoe também estaria fora da luta. Logo após uma nova rodada de pneus e combustível e pneus em bandeira verde, e a posterior bandeira amarela provocada pelo contato do pole Tagliani no muro – não foi forte, mas a suspensão quebrou, provocando abandono – o australiano da Penske se enganchou com Towsend Bell na volta 158 e ambos foram para o muro da curva 1 quando procuravam figurar entre os 10 melhores. Difícil dizer que esta não foi a maior humilhação que a Penske passou em Indianapolis.

Entrávamos no último quarto da corrida, em que os que andaram entre o pelotão dianteiro teriam que mostrar dali em diante o que tinham guardado para o final. Como nas provas fundistas do atletismo, é como se tivessem tocado o sino, anunciando a parte final da prova. Hora do sprint decisivo.

Na decisão, Ganassi tabela abaixo

Reuters Pictures

Dixon, Ganassi

Dixon começou o último quarto da prova na frente - mas nenhuma Ganassi triunfaria

A relargada seria dada na volta 165. Na anterior, o líder Franchitti tentou uma jogada decisiva. Como faltavam 36 voltas para a bandeirada, fez novo pit stop, a fim de não mais precisar parar, caindo para 12º, um risco calculado. O mesmo fez JR Hildebrand, agora 13º. O novo líder era Servia, junto com Graham Rahal, outro que passava a se destacar. Ambos seria superados por Dixon na bandeira verde em poucas voltas.

Parecia que Ganassi tinha a situação dominada naquele instante. Dixon comandando os que precisariam de mais uma visita aos boxes, e Franchitti comandando os que já haviam parado e tentariam ir até o fim com o combustível que tinham – chegando, ao voltar à pista, a marcar a melhor volta da corrida. As coisas mudariam dramaticamente nas voltas finais.

Wheldon foi para seu último reabastecimento na volta 177, e nas voltas seguintes o mesmo para Rahal, Servia – que teve um pit desastroso -, Kanaan e Dixon fizeram o mesmo. A liderança caía provisoriamente nas mãos de Danica Patrick (Andretti), que estava com mesmo tanque desde a volta 159 e não teria como chegar sem reabastecer. Ela estava com velocidade muito baixa para ser líder e foi alcançada por Bertrand Baguette (Rahal Letterman Lanigan), que estava na mesma tática, na 189. Um giro depois e Danica apontou nos boxes, para um inevitável splash and go.

Reuters Pictures

Baguette, Rahal

Baguette surpreendeu e liderou até precisar reabastecer, a 3 voltas do fim

O discreto belga surpreendeu e provou que havia poupado mais que a norte-americana; estava na liderança, e poderia venceria caso houvesse alguma bandeira amarela – situação comum em fim de prova, quando todos aceleram além dos limites. Ele passava a ser perseguido por Franchitti e Hildebrand, ambos teoricamente com mais combustível. Dixon era o 4º, e Wheldon 5º.

A 5 voltas do fim, a Ganassi perde a corrida. Franchitti calculou mal seu ataque pós-pit e precisou tirar o pé a partir da volta 196, deixando Hildebrand passar. Na volta 197, quando finalmente Baguette foi para os pits, era Hildebrand a tomar a ponta, enquanto Dario caía demais de desempenho. Dixon também perdeu terreno, sem combustível, e seria passado no fim por Wheldon, Rahal e Kanaan de uma só vez. Os melhores carros de repente já não eram os mesmos e a vitória escapava pelo vão dos dedos.

Final improvável e inesquecível

Indycar Media

Hildebrand e Wheldon

Hildebrand acerta o muro e Wheldon vibra antes mesmo de passá-lo na reta final...

O sonho de vitória de Baguette havia terminado e agora começava o do novato Hildebrand. Com pneus já no fim da vida e pouquíssimo combustível, ele apontou como líder na volta 198. Ele não queria – e não podia – perder tempo com retardatários. E levar isso ao extremo seria o erro fatal para o norte-americano. Na curva 4 da volta 199, na última milha de prova, ele deparou-se com Charlie Kimball (Ganassi), andando do lado de dentro. A tentativa de ultrapassagem daria início a algo jamais visto em 100 anos de Indianapolis.

Hildebrand resolve ir por fora, mas faz péssima trajetória, abrindo-a além do recomendável. Os pneus, que entravam naquele momento na temível zona suja com pouca aderência, passam a não responder o comando do volante e a batida, seca, no fim do muro da curva 4, é inevitável. O carro destruído de JR apontava para a reta de chegada e a tensão, que já era alta para todos os 400 mil presentes no autódromo e outros milhões que acompanhavam pela TV, agora era extrema.

Poderia um carro destruído ter força o suficiente para vencer a prova? Dan Wheldon, o mais rápido nas voltas decisivas, não deixou. Por margem de 2,1086s, o inglês passou o rival combalido, e chegou na quadriculada primeiro – devidamente acionada junto com a bandeira amarela. Isso quer dizer que, das 500 milhas, Dan não liderou nem ao menos metade de uma delas, e agora era o grande vencedor.

Reuters Pictures

Wheldon

...cruzando a linha de tijolos com vantagem de 2,1s. Liderou apenas os metros finais

O final foi tão chocante que poucos se deram conta de que Wheldon havia passado e era, de fato, o vencedor. A imagem do carro destruído de Hildebrand era assustadoramente hipnótica e Dan foi o primeiro – e mais importante pessoa – a perceber que tomaria a liderança para vencer. Tanto que as fotografias tiradas mostram um Wheldon com punho direito erguido mesmo antes de ultrapassá-lo.

Depois de Hildebrand também cruzar a linha de tijolos, Rahal chegou 5,5949s atrás de Wheldon, com 1,8921 de folga para Kanaan, o piloto que, no fim das contas, mais havia realizado ultrapassagens durante a corrida. Dixon foi apenas 5º, sendo que na penúltima volta estava à frente de Wheldon... E Franchitti ficaria apenas em 12º porque realizou um splash and go na penúltima volta. A Ganassi, tão favorita, repentinamente juntava-se à Penske na ala dos derrotados, a assistir o carro de uma equipe de ocasião vencer a prova mais importante do ano.

Getty Images

Wheldon, o vencedor

Sem vaga titular na IRL em 2011, Wheldon vence a mais importante prova que já disputou

Crônica de uma final centenária

A História - intensa, forte, marcante - diante dos nossos olhos.

Feliz de quem pôde, ainda que por uma tela de televisão, ser testemunha da 95ª edição da Indy 500, realizada no dia 29 de Maio de 2011, no 100º aniversário da corrida que começou a ser disputada em 1911. O inglês Dan Wheldon, com o carro da pequena equipe do ex-piloto e companheiro Bryan Herta, veio a liderar apenas uma pequena fração da última das 200 voltas do mítico circuito para conquistar uma vitória digna dessa edição de gala. Esta corrida, desde já, torna-se um clássico a ser lembrado por muitos e muitos anos.

Descartado pela equipe Panther ao fim da temporada anterior, Wheldon, que foi campeão em 2005 pela Andretti-Green e depois ganhou várias provas pela poderosa Ganassi, se viu sem vaga para correr neste ano. Foi chamado pelo seu antigo companheiro de equipe Bryan Herta, agora chefe de uma pequena e dedicada equipe, para fazer uma participação esporádica em Indianápolis. Pôs-se a trabalhar duro, mostrando um desempenho consistente durante os treinos.

E então, na reta de chegada da mais importante corrida que já participou na carreira, o descartado Wheldon derrotou JR Hildebrand, justamente o piloto que é o seu substituto no carro # da Panther. Quiseram os Deuses do Olimpo Automobilístico que o infeliz Hildebrand encontrasse a derrota no último muro para que Wheldon desse a volta por cima.

Getty Images

Wheldon com o Marmo Wasp

Wheldon, em seu Dallara-Honda, junto ao Marmon Wasp de Ray Harroun, vencedor em 1911

Confira o resultado da Indy 500 Centenária, 5ª etapa de 2011

1) [98] Dan Wheldon (Herta), 200 voltas em 2h56min11s7267
2) [4] JR Hildebrand (Panther), + 2.1086
3) [38] Graham Rahal (Ganassi), + 5.5949
4) [82] Tony Kanaan (KV), + 7.4870
5) [2] Oriol Servia (Newman-Haas), + 8.8757
6) [9] Scott Dixon (Ganassi), + 9.5434
7) [30] Bertrand Baguette (Rahal Letterman Lanigan), + 23.9631
8) [07] Tomas Scheckter (KV/SH), + 24.3299
9) [26] Marco Andretti (Andretti), + 25.4711
10) [7] Danica Patrick (Andretti), + 26.4483
11) [67] Ed Carpenter (Sarah Fisher), + 27.0375
12) [10] Dario Franchitti (Ganassi), + 56.4167
13) [83] Charlie Kimball (Ganassi), + 1 volta
14) [12] Will Power (Penske), + 1 volta
15) [14] Vitor Meira (Foyt), + 1 volta
16) [22] Justin Wilson (Dreyer & Reinbold), + 1 volta
17) [3] Helio Castroneves (Penske), + 1 volta
18) [44] Buddy Rice (Panther), + 2 voltas
19) [19] Alex Lloyd (Dale Coyne), + 2 voltas
20) [36] Pippa Mann (Conquest), + 2 voltas
21) [24] Ana Beatriz (Dreyer & Reinbold), + 3 voltas
22) [43] John Andretti (Petty/Andretti), + 3 voltas
23) [41] Ryan Hunter-Reay (Foyt), + 3 voltas
24) [11] Davey Hamilton (Dreyer & Reinbold), + 7 voltas
25) [23] Paul Tracy (Dreyer & Reinbold), + 25 voltas

26) [99] Townsend Bell (Sam Schmidt), 157 voltas
27) [6] Ryan Briscoe (Penske), 157 voltas
28) [77] Alex Tagliani (Sam Schmidt), 147 voltas
29) [06] James Hinchcliffe (Newman-Haas), 99 voltas
30) [88] Jay Howard (Rahal/Schmidt), 60 voltas
31) [78] Simona de Silvestro (HVM), 44 voltas
32) [59] Ernesto Viso (KV), 27 voltas
33) [5] Takuma Sato (KV), 20 voltas

Volta mais rápida: Franchitti, 0:40.0593, (169ª)


Indianápolis inaugurou – e como! – a temporada de ovais da IRL. A próxima corrida, daqui duas semanas, vai inaugurar um formato inédito na categoria. No sábado, 11 de junho, a etapa do Texas, no oval de Fort Worth, será composta de duas baterias de 275 milhas.