Indy | Decisão em Homestead

Franchitti é bicampeão com vitória
da inteligência em Homestead

Sábado, 10 de Outubro de 2009, 21:32

Resumo especial de 19 min da IRL em Homestead, prova que definiu o bi para Franchitti

Lucas Giavoni

O desfecho da temporada 2009 da Indy não foi decidido na rapidez, mas sim na astúcia. Em uma corrida sem bandeiras amarelas, Dario Franchitti ficou o título ao levar sua Ganassi à bandeirada com um pit stop a menos que seus rivais Ryan Briscoe (Penske) e Scott Dixon, que terminaram em 2º e 3º na prova, mas invertidos na tabela de pontos.

Franchitti deixou que Briscoe e Dixon duelassem em uma insana disputa roda a roda pela liderança no quarto final da prova. Ambos aceleraram até o limite e precisaram de um splash and go nas voltas finais. Dario, que estava 24s atrás, poupou combustível, assumiu a ponta faltando apenas 6 voltas para o fim e conseguiu receber a bandeirada 5s à frente. Tinha apenas meia volta de etanol no tanque – tanto que fez apenas uns ‘zerinhos’ de comemoração e precisou ser rebocado para o podium.

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Dario campeão

Dario poupou mais que seus rivais Briscoe e Dixon e comemorou com zerinhos em Miami

O mais novo bicampeão disse que usou a mesma tática que lhe deu o primeiro título na Indy: “Como em 2007, eu apenas tinha que tentar economizar um pouco de combustível e ficar dentro da estratégia”, contou. Naquela ocasião, Dario, que corria pela Andretti Green, superou seu atual companheiro Dixon nos últimos metros da decisão em Chicago porque o rival ficou sem combustível e sem o título nos metros finais.

A ausência de bandeiras amarelas em Homestead – a primeira vez que isto ocorre na história a IRL - evidenciou a diferença de desempenho entre os competidores. A trinca de postulantes ao título – Dario, Ryan e Scott, com carros claramente mais competitivos, fizeram uma corrida à parte. Tanto que Tony Kanaan (Andretti Green), o 4º, e Helio Castroneves (Penske), o 5º, tomaram uma volta deles. Hideki Mutoh (Andretti Green), Mario Moraes (KV) e Alex Lloyd, substituto de Oriol Servia na NHL, tomaram duas voltas. O restante chegou a partir de três voltas atrás.

Os coelhos falharam

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Dixon e Briscoe

Dixon e Briscoe agiram como coelhos, imprimindo um ritmo infernal à prova

O grid de largada da prova final já trazia os três postulantes ao título juntos – Franchitti fez a pole, Dixon em 2º e Briscoe em 3º. Após um curto período de três voltas, quando Ed Carpenter (Vision) andou na frente de Briscoe, os três logo se destacariam do resto dos competidores e fariam uma corrida digna de final de campeonato.

Dixon mostrou determinação desde o começo e logo emparelhou por fora com Dario, que havia mantido a ponta na largada. A ultrapassagem veio cedo, na 6ª volta. Briscoe aproveitou que Dario perdeu o embalo e também passou, 3 giros depois. O trio começou a pegar tráfego já a partir da 20ª volta.

Agora que é possível ter os dados da prova em mãos, fica bastante claro que Franchitti já tinha uma tática friamente pré-estabelecida: deixaria Dixon e Briscoe se pegar pela liderança e colocaria em prática um frio e eficiente jogo tático: fazer a qualquer custo a corrida em 3 paradas. Se houvesse bandeiras amarelas, a diferença para os líderes seria anulada, deixando espaço para nova poupança de equipamento. E se não houvesse amarelas – o que veio a acontecer – um splash and go dos rivais lhe daria a liderança.

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Wheldon e Danica

Wheldon [4] e Danica [7], que se odeiam e se estranharam o ano todo, bateram nos boxes

Na primeira rodada de pits, Briscoe, que forçou mais, parou na 45; o líder Dixon entrou na 48 e Franchitti na 50 – provando que o plano era viável, já que realizou as outras paradas religiosamente nas voltas 100 e 150.

Na velocíssima batalha pela liderança, Briscoe e Dixon procuravam estabelecer o maior número possível de voltas na liderança, o que garante dois pontos a mais. O australiano da Penske fechou a prova com essa bonificação. Pegou a ponta de Dixon na volta 63 e tomou o troco a 105. Voltou para a comandar na 124 e só abriria mão quando fez seu pit de emergência a seis voltas do fim.

Briscoe e Dixon não cogitaram a possibilidade da corrida não ter bandeiras amarelas, período em que há uma sensível economia de combustível. Desde a criação da IRL, em 1996, isso jamais havia acontecido. Mas esta seria uma corrida de exceção. Caso uma amarela acontecesse no último quarto da prova, a chance do desfecho do campeonato ter sido outro é muito grande. Eles puxaram o ritmo como coelhos, mas não chegaram a lugar nenhum com isso.

Campeão de retorno

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Casal 20

Franchitti recebe um prêmio extra a cada vitória: um beijo da bela esposa Ashley Judd

Quando Dario Franchitti venceu em 2007 o título da Indy pela Andretti Green, mesmo ano em que ganhou as 500 Milhas de Indianápolis, pensou que seu ciclo na categoria já poderia se dar por encerrado. O escocês rumou para a Nascar, mas não colheu bons resultados. E pior: ainda por cima quebrou o tornozelo em uma prova da divisão Nationwide (de ‘acesso’) em Talladega. Foram apenas 10 largadas no ano na divisão principal, a Sprint, e nenhum resultado satisfatório.

O próprio Chip Ganassi, para quem Dario pilotou na Nascar, lhe ofereceu um retorno à Indy. Já no fim de 2008, Dario estava a bordo da Dallara-Honda nº 10 da equipe na prova extra-campeonato de Surfers Paradise no lugar de Dan Wheldon, já a caminho da Panther.

A campanha de Franchitti pelo título 2009 teve 5 vitórias (Long Beach, Iowa, Toronto, Sonoma e Homestead) e outros 8 resultados entre os cinco primeiros. O escocês abandonou apenas uma etapa, a do Kansas, quando bateu por culpa de Graham Rahal. Curioso é constatar que, se a Indy adotasse o mesmo sistema de pontuação da Fórmula 1, que privilegia a consistência, o campeão seria outro. Briscoe, que só venceu 3 provas, mas chegou outras 8 vezes em 2º, superaria Dario: 104 contra 101. Dixon, que ganhou 5 vezes, teria marcado 96 pontos.

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Briscoe

Briscoe ganharia o título se a pontuação fosse igual a da Formula 1

Este é o sétimo título da Ganassi, e com direito a dobradinha. Os quatro primeiros foram conquistados nos tempos da Cart por Jimmy Vasser (1996), Alex Zanardi (1997 e 1998) e Juan Pablo Montoya (1999) – que curiosamente superou Franchitti na ocasião. A equipe transferiu-se para a IRL em 2003 e logo faturou mais um título com Dixon, que viria a ganhar mais um em 2008.

A campanha brasileira na Indy

Apesar de não contar com postulantes ao título na última etapa, o Brasil esteve muito bem representado este ano. O ano foi de superação para Helio Castroneves, que provou sua inocência diante de um tribunal que o acusava de sonegação de impostos e fraude fiscal. Voltou às pistas, venceu a etapa do Texas e, principalmente, as 500 Milhas de Indianápolis pela terceira vez na carreira. Estas conquistas valem mais que o 4º lugar na tabela de pontos.

Helinho sofreu fora das pistas, Tony Kanaan sofreu dentro. A Andretti Green já não é a mesma equipe de ponta que costumava ser e foi totalmente superada por Ganassi e Penske, que ganharam 16 das 17 provas do ano. Ainda assim, conseguiu um pequeno milagre ao chegar em Indianápolis na liderança do campeonato. Mas após a principal prova do ano, sofreu uma série de infortúnios, como o incêndio nos boxes em Edmonton. Ainda assim, conseguiu fechar o ano em 6º lugar, com 386 pontos e 5 visitas ao Top Five.

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Tony e Franchitti

Tony teve um ano difícil, mas não perdeu o bom humor...

Assim como já era esperado, Raphael Matos, da Luczo Dragon, terminou a temporada como o melhor estreante (rookie) do ano. O brasileiro, que foi campeão da Indy Lights em 2008, fechou em 13º na tabela, com 312 pontos. O melhor resultado de Matos no ano foi um 6º lugar na etapa de Milwaukee. O segundo melhor estreante foi Robert Doornbos, que começou o ano pela Newman Haas, mas não desenvolveu uma boa relação com o time e com o companheiro Graham Rahal. Fez as últimas 5 corridas pela fraca HVM e terminou em 16º.

Mario Moraes, da KV, fechou o ano em 14º. Foi o típico caso de um piloto que não conseguiu traduzir em resultados as boas sessões de treinos que teve durante o ano, incluindo nisso a Indy 500, quando classificou-se em 5º, mas abandonou na largada com um enrosco com o sempre afoito Marco Andretti. No fim do ano, Moraes colecionou três resultados no Top Five – entre eles um podium em Chicago. É possível esperar tanto dele quanto de Matos mais pontos para o próximo ano.

Vitor Meira, último dos brasileiros da tabela, foi certamente o mais azarado. Na Indy 500, sofreu um incêndio nos boxes mas preferiu prosseguir na prova. Não deveria. Sofreu um fortíssimo acidente voltas depois em um enrosco com Matos e fraturou duas vértebras, ficando de fora pelo resto do campeonato - o qual fechou na 28ª posição. A boa notícia é que Meira está plenamente recuperado e poderia ter voltado a pilotar já em Homestead; a Foyt preferiu manter Ryan Hunter-Reay na corrida.

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Helinho

Helinho: o melhor brasileiro da temporada 2009

Confira o resultado da prova em Homestead, final do campeonato

1) Dario Franchitti (Ganassi), 200 voltas em 1h28min28s3117
2) Ryan Briscoe (Penske), + 4.7888
3) Scott Dixon (Ganassi), + 6.0206
4) Tony Kanaan (Andretti Green), + 1 volta
5) Helio Castroneves (Penske), + 1 volta
6) Hideki Mutoh (Andretti Green), + 2 voltas
7) Mario Moraes (KV), + 2 voltas
8) Alex Lloyd (Newman/Haas/Lanigan), + 2 voltas
9) Tomas Scheckter (Dreyer & Reinbold), + 3 voltas
10) Justin Wilson (Coyne), + 3 voltas
11) Graham Rahal (Newman/Haas/Lanigan), + 3 voltas
12) Ed Carpenter (Vision), + 3 voltas
13) Ryan Hunter-Reay (Foyt), + 4 voltas
14) Raphael Matos (Luczo Dragon), + 4 voltas
15) Mike Conway (Dreyer & Reinbold), + 5 voltas
16) Ernesto Viso (HVM), + 6 voltas
17) Milka Duno (Dreyer & Reinbold), + 6 voltas
18) Sarah Fisher (Fisher), + 13 voltas
19) Danica Patrick (Andretti Green), + 15 voltas

20) Robert Doornbos (HVM), 166 voltas
21) Dan Wheldon (Panther), 150 voltas
22) Marco Andretti (Andretti Green), 58 voltas
23) Jaques Lazier (3G), 23 voltas

Volta mais rápida: Dixon, 0:25.4483 (105ª)

A temporada 2010 da IRL começa em 14 de Março no Brasil. Os organizadores deverão divulgar o local da prova em breve.