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Formula 1 | GP da Europa
Vettel vence de ponta a ponta corrida caótica em Valencia
Domingo, 27 de Junho de 2010, 12:59
Atualizada em 01/07/2010, 18:56
Getty Images
Button, Hamilton e Vettel celebram um podium que quase foi alterado pelos comissários
Márcio Madeira da Cunha
Num GP marcado pelo espetacular acidente envolvendo Mark Webber e Heikki Kovalainen, nada menos que 10 pilotos foram punidos depois da bandeirada pelos comissários de prova – 9 deles por irregularidades durante o período de Safety Car. Sebastian Vettel ficou longe dos problemas para vencer pela segunda vez no ano, seguido pelas Mclarens de Lewis Hamilton e Jenson Button, ambos punidos, bem como Rubens Barrichello, que fez um ótimo 4º lugar com a Williams.
Tecnicamente, pode se afirmar que a corrida valenciana foi artificial. A comparação entre o resultado final e os desempenhos apresentados pelos conjuntos em pista simplesmente não fecha, uma não se relaciona com a outra - à exceção, felizmente, do vencedor Sebastian Vettel, que teria vencido sob quaisquer circunstâncias consideradas normais. Já de Lewis Hamilton, 2º colocado, até os últimos que receberam a bandeirada, todo o ordenamento só poderá ser explicado quando levando em consideração fatores externos, ou menos nobres, se preferirem.
Casualidade, sorte, (des)honestidade, regras nebulosas, lentidão de julgamento, punições ineficazes, pitlane curto, reta dos boxes lenta... Todos estes fatores ajudaram, em algum momento, a montar este mosaico de influências que resultou na classificação do GP da Europa. Uma corrida, portanto, que pede uma abordagem analítica bastante diferenciada.
Guerra de bastidores
Getty Images
Em meio a tantos carros atualizados, foi a 'velha' Red Bull quem dominou o GP valenciano
Atingida a metade da temporada, e com os pneus para 2011 finalmente decididos - em favor da Pirelli -, é hora da Formula 1 voltar seus olhos para o próximo ano. Há, no entanto, um campeonato em jogo, e dois títulos a serem conquistados, de forma que para muitos times chegou o momento de lançar os últimos grandes esforços sobre as máquinas atuais.
Em Valência, a grande maioria das equipes estreou profundos pacotes mecânicos e aerodinâmicos. E a melhor síntese desta situação foi a imagem de Adrian Newey, projetista da Red Bull, passeando pelo grid de largada instantes antes da volta de apresentação, correndo com o olhar todas as novidades da concorrência.
E no fim, Newey deve ter ficado satisfeito com o que viu. Afinal, apesar dos novos sistemas de escapamento de Mercedes, Ferrari e Renault, e de todas as atualizações aerodinâmicas da Williams, foi o 'velho' RB6, agora equipado com uma nova versão do duto frontal, quem brilhou nas ruas de Valência.
Largada e posicionamento
AP Photo
Assim que foi dada a largada, Vettel manteve a ponta...
Apagadas as luzes vermelhas, a grande alteração de posicionamento - que muito em breve iria servir de estopim para toda a definição da corrida - coube à péssima largada de Mark Webber. Partindo do lado sujo da pista, o australiano foi superado por Lewis Hamilton e Fernando Alonso antes mesmo da 1ª curva. Felipe Massa também mergulhou, e foi outro que levou a melhor sobre Webber, que em meio a tantos ataques simplesmente não conseguia entrar no ritmo da prova. Ao completarem a volta inicial, o australiano aparecia numa inacreditável nona colocação.
Houve ainda muita tensão entre os líderes na primeira curva. Tendo superado Webber, Hamilton arriscou também uma ultrapassagem otimista em cima do líder Vettel. Os dois carros chegaram a se tocar na zona de aceleração, e ambos tiveram muita sorte por terem saído intactos do evento. Destaque também para mais um bom início de prova protagonizado por Michael Schumacher, que conquistou 4 posições apenas no 1º giro.
Getty Images
...mas Webber foi perdendo posições, o que mudaria o destino da prova
A ordem, portanto, era Vettel, Hamilton, Alonso, Massa, Kubica, Button, Barrichello, Hülkenberg, Webber e Buemi, e assim permaneceu até o fim da sétima volta. Webber sabia que perdia tempo atrás de carros mais lentos, mas por sua vez não podia antecipar a parada para troca dos pneus antes que tivesse uma vantagem em pista que o permitisse voltar à frente das equipes iniciantes. Valência praticamente não possui pontos de ultrapassagem, e tudo que a Red Bull fez, nestas primeiras voltas, foram contas. Ao fim da sétima volta, o australiano foi chamado aos boxes. Nico Rosberg, igualmente limitado por carros mais lentos, seria chamado na volta seguinte.
Foi então que a Red Bull cometeu um de seus únicos erros em pit stops ao longo de todo o ano. O pneu dianteiro esquerdo simplesmente não saiu a tempo, causando um tempo total de parada da ordem dos 8 segundos. Muito, para quem no Canadá havia trabalhado na casa dos 3s. E justamente este tempo a mais acabaria sendo decisivo para o fim de prova de Webber. Afinal, ao completar a 8ª volta, ele se encontrava 1,2s atrás da Lotus de Heikki Kovalainen - a de Trulli já havia se atrasado por problemas. Todo o plano de se livrar dos carros mais lentos havia fracassado graças ao problema na troca dos pneus.
Momento decisivo
FOM/Reprodução
Kovalainen freou e Webber, sem espaço, bateu na traseira da Lotus...
Precisando ser mais rápido que os líderes, para recuperar terreno, Webber devorou a distância em relação a Kovalainen em questão de poucas curvas, até que ambos se encontraram instantes antes da freada para a curva 12 - justamente o ponto de maior velocidade do circuito.
Talvez querendo fazer uma boa impressão na divulgada 500ª corrida da Lotus, Kovalainen decidiu defender a posição. Evidentemente não seria possível conservá-la por muito tempo, afinal Valência é apertada mas não é Mônaco. Webber iria passar mais cedo ou mais tarde, mas ainda assim Kovalainen decidiu se defender.
O problema é que, para isso, ele mudou de trajetória mais de uma vez à frente de Webber.
Não, não houve reclamações. Nada como as mudanças de trajetória escandalosas de Lewis Hamilton à frente de Vitaly Petrov na Malásia. Estamos falando aqui de movimentos rápidos e pequenos, que não fecharam a porta para Webber, mas deixaram-no confuso sobre qual lado escolher. Tal qual duas pessoas que assumem rota de colisão numa rua por não decidirem qual lado tomar, o australiano acabou se posicionando exatamente atrás da Lotus, numa zona aparentemente segura da pista. Afinal, para ele, ainda restavam pelo menos 80 metros até a zona de frenagem.
FOM/Reprodução
...iniciando uma pavorosa decolagem - felizmente ambos saíram ilesos do choque
O que Webber não podia imaginar era que a lotus, muito menos equilibrada, freava justamente naquela altura da reta. O choque havia se tornado inevitável.
Tão logo colheu o carro de Kovalainen, o Red Bull decolou. Ganhou altura, iniciou o looping, e chegou mesmo a tocar numa placa publicitária antes de aterrissar de cabeça para baixo, bem em cima de uma zebra. Muitas pessoas prenderam a respiração diante do impressionismo da cena, que ainda reservou a volta do carro à posição normal, e um forte choque contra a barreira de pneus. Kovalainen, enquanto isso, apenas rodou em direção ao muro esquerdo, sem maiores sustos. Os dois pilotos, felizmente, nada sofreram. Mas a história da corrida estaria mudada para sempre.
Ecos da batida
FOM/Reprodução
Lewis viu o Safety Car entrando na pista e instintivamente acelerou...
Felipe Massa estava acelerando em frente aos boxes quando viu ser mostrada a placa de carro de segurança. Olhou pelos retrovisores, viu nove concorrentes entrando imediatamente, e entendeu que sua promissora corrida tinha acabado de ir para o lixo. Afinal, não apenas ele teria que dar a volta inteira num ritmo mais lento, como ainda teria de esperar pela troca de Alonso, que ia logo à sua frente.
Lewis Hamilton, duas posições à frente do brasileiro, teve visão semelhante. Vettel já havia passado pelos pits quando a placa surgiu, e de repente lá estava ele, sendo limitado por um lance de azar. Foi quando os instintos de Lewis (mais uma vez) falaram mais alto, e ele acelerou fazendo uma ultrapassagem proibida sobre o Safety Car. Alonso, logo atrás, respeitou as regras e passou a aguardar pela punição do desafeto inglês.
O Safety Car poderia ter deixado as duas Ferraris passar, pois este tipo de comportamento é permitido por regulamento. No entanto, houve outros carros que não pararam naquele momento, e a direção de prova optou por proteger o carro médico, dando total prioridade ao atendimento de Mark Webber. Uma atitude correta, e que ninguém questionou.
AP Photo
...enquanto Alonso e Massa alinharam atrás da Mercedes, que comboiava o Medical Car
Ocorre que com isso Hamilton correu para os boxes, onde aproveitou para trocar também a asa dianteira, danificada pelo toque na 1ª curva. Mesmo com o tempo extra da parada, manteve-se em segundo atrás de Vettel. Alonso e Massa, enquanto isso, perderam inúmeras posições, caindo respectivamente para 9º e 15º. Um enorme prejuízo por terem cumprido as regras.
Outro que saiu no prejuízo foi Michael Schumacher. Tendo largado com pneus duros, o alemão pensou em aproveitar a presença do safety car para fazer duas trocas rápidas, cumprindo assim a infeliz regra que obriga pilotos a usarem os dois compostos de pneus durante uma corrida. O que Schumacher não contava era que em sua volta à pista, a saída dos boxes estivesse fechada. O que a princípio era uma estratégia inteligente logo se tornou uma maldição, enquanto o piloto esperava todo o grid cruzar a sua frente antes que pudesse retornar à corrida. Se tivesse seguido o caminho alternativo adotado por Kamui Kobayashi, certamente teria se dado bem melhor.
O japonês da Sauber foi o único que não entrou nos boxes diante da presença do safety car. E, quando todos se engarrafaram diante de um atalho, foi justamente ele quam acabou sendo beneficiado ao permanecer na pista. Na relargada, o até então invisível japonês aparecia numa surpreendente terceira colocação.
Quando o crime compensa
Getty Images
Kobayashi ficou na pista durante o SC e acabou por ajudar Hamilton...
A presença de Kobayashi separando os dois líderes do restante do pelotão logo dividiu o grid em dois, e acabou criando o ambiente ideal para que Lewis Hamilton pudesse se distanciar de seus perseguidores enquanto aguardava pela provável punição.
Imagens disponíveis acerca da manobra de Hamilton não eram conclusivas, até que a gravação aérea chegou às mãos da direção de prova. Uma demora muito grande se deu até que fosse anunciada a posição, de tal forma que o inglês apenas a cumpriu na volta 27. Dezoito voltas, portanto, após ter cometido a infração. Detalhe: Lewis não precisaria fazer uma parada obrigatória. Ele apenas teria de cruzar o pitlane sob velocidade limitada.
Na volta anterior Lewis se encontrava 13,2s à frente de Kobayashi, porém aumentando esta distância numa razão de 8 décimos por volta. De forma razoável, portanto, podemos concluir que o inglês estivesse cerca de 14s à frente ao fim do 27º giro, quando completou a volta dentro do pitlane. E, ainda assim, voltou à prova à frente do japonês. A punição, na prática, foi inferior a este intervalo temporal, como se vê.
Getty Images
...pois o inglês cumpriu sua punição e ainda voltou em 2º lugar, à frente do japonês
Difícil saber se os comissários levaram em consideração alguns fatos importantes a este respeito, específicos para o circuito valenciano. O pitlane, por exemplo é um dos menores, senão o menor, de toda a temporada. A distância total percorrida sob velocidade controlada é muito menor que em pistas como Xangai ou Sepang, por exemplo. Além disso, os boxes se situam logo após um grampo que dá início à reta, de tal forma que, naquele ponto da pista, os carros já não se encontram em altas velocidades mesmo quando em condição de corrida. Um drive through em Monza, certamente causa prejuízos muito maiores...
Portanto estes três fatores - a presença de Kobayashi, a demora na saída do veredicto, e uma punição inadequada quando pensada especificamente para a pista em questão - acabaram atuando todos a favor de Hamilton. Que, no fim das contas, foi punido apenas em teoria. Burlar as regras, ao menos neste dia, compensou.
Fim de prova e punições pós-corrida
Getty Images
Vettel levou a corrida sem sustos - o único que ficou livre do caos do Safety Car
Nas voltas finais nenhum conjunto parecia ter condições de realizar qualquer ultrapassagem, por mais que a presença de Kobayashi continuasse estimulando a formação de um longo pelotão. O japonês, contudo, ainda teria de trocar seus pneus, e sua posição no pódio poderia ser descartada.
O Sauber foi para os boxes ao fim da volta 52, promovendo Button ao terceiro posto, seguido por Rubens Barrichello em sua melhor atuação no ano. A rigor, o veterano - vencedor desta mesma corrida em 2009 -, fez uma corrida perfeita, premiada especialmente por sua ultrapassagem sobre o companheiro de equipe nos instantes iniciais. Não fosse por isso, teria sido Rubens a esperar nos boxes pela troca de Hülkenberg.
Kubica cruzou a linha em quinto, seguido por Adrian Sutil e por Kamui Kobayashi. O japonês, tendo retornado à pista com pneus novos e macios, havia ultrapassado os carros de Buemi e Alonso nos instantes finais. Pedro de la Rosa completava a felicidade da Sauber conquistando 1 ponto pela décima colocação, enquanto Felipe Massa era apenas o 14º.
Sauber Motorsport
Em ritmo de qualificação no fim, Kobayashi passou Alonso e Buemi pelo 5º lugar...
Logo ficou claro, no entanto, que os pilotos que pararam na 9ª volta, tão logo foram avisados sobre a batida de Webber, acabaram descumprindo o percentual mínimo de tempo de volta admitido sob estas circunstâncias - o chamado 'delta' de velocidade. Hamilton, à frente deles, também o havia descumprido. Todos estes 9 pilotos, à exceção de Hamilton que teoricamente já havia sido punido, tiveram 5s acrescentados a seus tempos finais de prova. Uma punição que, pequena e diluída entre quase metade do grid, repercutiu de maneira tímida sobre o resultado final.
Alonso acabou superando Buemi pelo 8º posto, Nico Rosberg ascendeu a 10º e Felipe Massa, ainda fora dos pontos, foi o 11º. Por fim Timo Glock também recebeu uma sanção, essa de 20s a mais, por ignorar bandeiras azuis.
Sauber Motorsport
...enquanto o pobre De la Rosa, 10º, ficou sem seu pontinho com a retificação do GP
Confira o resultado do GP da Europa, 9ª etapa do ano
1) Sebastian Vettel (Red Bull-Renault), 1h40min29s571
2) Lewis Hamilton (McLaren-Mercedes), + 5.042
3) Jenson Button* (McLaren-Mercedes), + 12.658
4) Rubens Barrichello* (Williams-Cosworth), + 25.627
5) Robert Kubica* (Renault), + 27.122
6) Adrian Sutil* (Force India-Mercedes), + 30.168
7) Kamui Kobayashi (Sauber-Ferrari), + 30.965
8) Fernando Alonso (Ferrari), + 32.809
9) Sébastien Buemi* (Toro Rosso-Ferrari), + 36.299
10) Nico Rosberg (Mercedes), + 44.382
11) Felipe Massa (Ferrari), + 46.621
12) Pedro de la Rosa* (Sauber-Ferrari), + 47.414
13) Jaime Alguersuari (Toro Rosso-Ferrari), + 48.239
14) Vitaly Petrov* (Renault), + 48.287
15) Michael Schumacher (Mercedes), + 48.826
16) Tonio Liuzzi* (Force India-Mercedes), + 50.890
17) Lucas di Grassi (Virgin-Cosworth), + 1 volta
18) Karun Chandhok (Hispania-Cosworth), + 2 voltas
19) Timo Glock** (Virgin-Cosworth), + 2 voltas
20) Bruno Senna (Hispania-Cosworth), + 2 voltas
21) Jarno Trulli (Lotus-Cosworth), + 4 voltas
22) Nico Hülkenberg* (Williams-Cosworth), 50 voltas
23) Heikki Kovalainen (Lotus-Cosworth), 9 voltas
24) Mark Webber (Red Bull-Renault), 9 voltas
* Pilotos punidos com 5s no tempo final
** Glock teve 20s adicionados por ignorar bandeiras azuis
Volta mais rápida: Button, 1:38.766 (54ª)
Abrindo a 2ª metade da temporada, o próximo GP será o da Grã-Bretanha, em Silverstone, que passou por reformas de traçado. A prova será em 11 de Julho, dia da final da Copa do Mundo de futebol.
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