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Formula 1 | GP da Austrália

Button usa a cabeça e os pneus
para vencer intenso GP da Austrália

Domingo, 28 de Março de 2010, 07:22

Getty Images

Podium na Austrália

Jenson comemora 1ª vitória pela McLaren na companhia dos heróicos Kubica e Massa

Márcio Madeira da Cunha

Assumindo altas doses de risco e contando com novos problemas na Red Bull de Sebastian Vettel, Jenson Button obteve com a McLaren uma improvável e muito bem-vinda vitória em um GP australiano impossível de se adjetivar. Robert Kubica, em atuação perfeita, levou a Renault à 2ª colocação, logo à frente do indestrutível Felipe Massa - único a visitar o podium das duas etapas do ano. O ainda líder da tabela Fernando Alonso, também em dia inspiradíssimo, terminou em 4º, seguido da Mercedes de Nico Rosberg. Lewis Hamilton foi o 6º após frequentar os dois extremos do grid, logo à frente dos sempre seguros Vitantonio Liuzzi e Rubens Barrichello. Mark Webber e Michael Schumacher enfrentaram muitos problemas para conseguirem completar a lista dos pontuadores, enquanto Lucas di Grassi e Bruno Senna mais uma vez não completaram.

Novas regras mostram seu valor

E no fim, bastaram 15 dias, e um pouco de chuva. A temporada mais promissora e aguardada dos últimos anos explodiu em toda sua magnitude durante a fantástica corrida em Melbourne, dando um sonoro tapa com luva de pelica em todos os apressados que se levantaram pedindo 'emoções' a custa de artificialismos. Que engulam, agora, as bobagens que disseram.

A corrida no Albert Park foi eletrizante até o fim, unicamente porque os diferentes conjuntos puderam optar por estratégias personalizadas em relação ao uso dos pneus. Se tivesse sido implementada a tão defendida segunda troca obrigatória, então toda a emoção vivida nos últimos giros teria deixado de existir. Muito ao contrário, portanto, a Formula 1 deveria se aproveitar da resistência atual dos compostos mais duros, para justamente revogar a obrigatoriedade do uso de todos os compostos em corrida. Essa simples medida, de custo zero, iria dividir o pelotão entre carros equipados com pneus duros tentando não parar, e outros fazendo a prova com dois jogos de pneus macios.

Getty Images

Grid da Austrália

O grid molhado de Melbourne: start para 58 voltas absolutamente eletrizantes

Haveria, assim, uma sensível diferença de velocidade entre as diferentes apostas, e também a grande possibilidade de que conjuntos mais lentos pudessem se posicionar à frente de outros mais rápidos em algum ponto da corrida. E o que é melhor: sem que se pague o alto custo dos artificialismos imediatistas.

É preciso que a direção da categoria - bem como grande parte da imprensa dita ‘especializada’ - entenda que simplesmente não existem meios de se garantir que todas as corridas serão agitadas, a menos que se apele para expedientes antidesportivos como grids invertidos ou distribuição de lastros. E nem é isso que o fã do esporte quer. Mesmo as melhores temporadas da história geraram, quando muito, 3 ou 4 corridas espetaculares, permeadas entre diversas provas mais ou menos interessantes.

O que o fã de verdade espera é que a cada largada ele esteja diante de um espetáculo legítimo, que possa, a depender das circunstâncias, gerar momentos de intenso brilho, como na corrida deste domingo.

Clima embaralha as cartas

AP Photo

Largada da Austrália

No apagar das luzes vermelhas, todos mudam de posição atrás do pole Vettel

Previsão de chuva, em se tratando de Formula 1, geralmente significa expectativa de corrida interessante, e neste domingo em Melbourne não foi diferente. O clima, todavia, desta vez se contentou em dar apenas um empurrão inicial à prova, abrindo mão de ser um protagonista em tempo integral.

Instantes antes da largada, começou a chover. Uma chuva fina, para pneus intermediários, e que logo iria cessar, obrigando todos a retornarem aos slicks. Uma interferência calculada, importante apenas para acrescentar uma variável a mais na largada, e para deixar a estratégia de uso dos pneus inteiramente a cargo das equipes.

O resultado foi um início de prova extremamente agitado, passando por uma janela decisiva aberta à estratégia, e terminando com uma batalha duríssima nos momentos finais. Uma corrida completa do início ao fim, portanto. Com as bênçãos do céu.

Personagens fugazes

Reuters Pictures

Kobayashi, Sauber e Buemi, Toro Rosso

Um descontrolado Kobayashi acha pelo caminho a Toro Rosso de Buemi na 1ª volta...

Antes de mergulharmos na história da corrida propriamente dita, vale a pena ajustarmos o foco nos personagens principais. E para isso, nada melhor do que contar rapidamente como foram algumas das participações mais breves do GP da Austrália.

Para começar, já houve uma desistência antes mesmo da largada. Com problemas hidráulicos, a Lotus de Jarno Trulli jamais chegou a alinhar, deixando a corrida com apenas 23 participantes. E destes, apenas vinte chegaram a completar a primeira volta.

Após o que parece ter sido um leve toque contra outro carro ainda não identificado, a Sauber de Kamui Kobayashi voltou a demonstrar a fragilidade do suporte de sua asa dianteira - que na sexta- feira já havia se soltado por conta própria. Na forte freada para a curva 6 o japonês se descobriu em vias de alçar vôo, e com isso acabou colhendo em cheio tanto a Toro Rosso de Sébastien Buemi quanto a Williams de Nico Hülkenberg .

Diante da violência do choque lateral, com tantos litros de gasolina nos tanques, o abandono dos três pilotos sem maiores consequências físicas até que acabou sendo um prejuízo bastante pequeno.

Reuters Pictures

Kobayashi, Sauber e Külkenberg, Williams

... e também acerta a Sauber com força a Williams de Hülkenberg - os três ficaram de fora

Contabilidade da largada

Olhando agora para os personagens principais, raramente na história da Formula 1 uma corrida terá proporcionado tantas mudanças de posição numa volta inicial. Basta dizer, por exemplo, que dentre os 20 pilotos que completaram a primeira volta, apenas o líder Sebastian Vettel não havia trocado de posição em relação ao grid de largada.

De imediato, apagadas as luzes vermelhas, chamou a atenção a largada perfeita de Felipe Massa, no melhor estilo Gilles Villeneuve. Partindo da 5ª colocação o brasileiro conseguiu tracionar de maneira suave e constante, superando sem disputa a Mclaren de Jenson Button, a Ferrari de Alonso, e até mesmo a Red Bull de Webber. E o que foi melhor: ao partir tão bem, Felipe conseguiu posicionar-se à frente da primeira carambola do dia, envolvendo nada menos que três campeões e 10 títulos mundiais.

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Aperto na chicane

Massa, 2º, fez largada à Gilles; Button e Schumacher fizeram sanduíche de Alonso

Na freada para a curva 1, Alonso foi assediado duplamente. Por dentro, pela McLaren de Button, e por fora, pela Mercedes de Michael Schumacher. O heptacampeão vinha num bom início, já tendo deixado Rosberg para trás, e tinha boas chances de conquistar na manobra também a posição de Fernando Alonso. O espanhol, no entanto, acabou tocando a McLaren de Button no apex da curva, iniciando assim uma perigosa rodada. No processo a traseira de seu carro acabou tocando violentamente a asa dianteira da Mercedes de Schumacher, obrigando o alemão a entrar nos boxes para trocar o bico. Alonso não teve problemas em seu carro, mas acabou, com isso, caindo para o final do grid. À frente apenas do próprio Schumacher...

Já para Jenson Button, o prejuízo foi bastante menor. O atual campeão do mundo perdeu posições apenas para Robert Kubica - cuja largada foi tão espetacular quanto à de Felipe Massa -, e para Nico Rosberg. O problema, para ele, era que Lewis Hamilton já aparecia grande em seus retrovisores.

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Alonso em apuros

Fernando e uma visão infernal: um mundo de carros 'na contramão' da Ferrari

Safety Car

Tudo isso se passou durante a primeira volta, e antes mesmo que ela terminasse ainda haveria a entrada do carro de segurança, em virtude do grave acidente envolvendo Kamui Kobayashi, Sébastien Buemi e Nico Hülkenberg.

A intervenção durou três voltas, durante as quais foi possível notar também os excelentes inícios de Vitaly Petrov e Bruno Senna. O primeiro aparecia nada menos que oito posições à frente de onde havia largado; o segundo, sete. As corridas de ambos, no entanto, teriam vidas curtas. Bruno iria abandonar já na quinta volta, também com problemas hidráulicos. Já Petrov rodou após a 10ª passagem, quando ainda lutava para aquecer os pneus slicks na pista úmida, e acabou atolado na caixa de brita.

Disputas e posicionamento

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Schumacher no box

Schumacher foi substituir o bico entortado na largada e 'sumiu' da prova

Reiniciada a prova, já não chovia. A pista, no entanto, ainda tinha bastante água, e a previsão indicava mais chuva dentro de 10 minutos. Além disso, a presença de conjuntos fortes no fim do pelotão, como Fernando Alonso e Michael Schumacher, era promessa de muitas ultrapassagens. No entanto, apenas o espanhol se confirmou capaz de realizá-las.

Escalando o grid com fúria incontrolável, Alonso logo deixou para trás os cinco carros estreantes, enquanto Schumacher teve que passar por constrangimentos como levar um insólito "X" por parte de Lucas di Grassi e sua raquítica Virgin. Mais algumas voltas e ambos passaram também a Force India de Adrian Sutil, que tinha problemas e funcionava apenas em 4 cilindros, sendo mais uma vez forçada a abandonar quando tinha ótimas perspectivas de pontuar.

Momento decisivo

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Button e Hamilton, McLaren-Mercedes

A grande vantagem de posição de largada sumiu e Hamilton já pressionava Button

Enquanto lá trás a agitação estava garantida, na frente boas brigas também tinham lugar. Ao abrirem a sexta volta, tanto Mark Webber tomou a posição de Felipe Massa, quanto Lewis Hamilton também forçou uma ultrapassagem sobre seu companheiro Jenson Button, na freada para a curva 3. E este acabou sendo o insuspeito momento decisivo da prova.

Dentro do cockpit, Jenson teve seu primeiro encontro com a dura realidade que buscou, ao abraçar o desafio da McLaren: a de estar se medindo contra um companheiro mais talentoso, brilhante e monopolizador. Afinal, haviam se passado apenas 5 voltas, e toda aquela vantagem de 7 posições no grid acabava de se transformar numa ultrapassagem quase displicente. À sua volta, jornalistas e fãs não se surpreendiam, pois apostavam justamente neste tipo de cenário. Mas... E ele?

Correndo em sétimo, Button tinha toda a corrida pela frente para tentar recuperar esta posição. Mas, afinal, era pra isso que ele tinha se transferido para a McLaren? Para arriscar o pescoço em troca de migalhas? Não, não. Durante o minuto que se passou entre a curva 3 e a entrada dos boxes, alguns dentes trincaram debaixo do capacete branco, vermelho e azul, e um campeão do mundo respondeu para si mesmo a grande pergunta contra a qual todos nos defrontamos mais certo ou mais tarde: - que diabos queremos ser na vida?

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Hamilton e Button, McLaren-Mercedes

Ao ultrapassar, Lewis acendeu em Jenson o estopim para uma reviravolta espetacular

Button sabia que estaria lutando contra um rival teoricamente mais forte, quando assinou com a McLaren. Aliás, mais do que isso, esse foi exatamente o motivo que levou a fazê-lo. Afinal, nos livros seu nome irá contar eternamente entre os campeõs mundiais, mas, será que ele mereceria mesmo essa honra?

Jenson buscou Hamilton justamente para por à prova seu título e sua competência, e foi apenas esta motivação que o levou a tomar conscientemente uma atitude muitíssimo arriscada: ainda com a pista bastante molhada, e diante de uma repetida previsão de chuva iminente, o campeão foi o primeiro a colocar pneus slicks em seu carro. No fim daquela mesmíssima volta.

Mais que uma decisão, sua atitude foi um murro na mesa. Entre seguir a lógica covarde e garantir alguns pontos ao fim do dia, ou arriscar-se a fazer papel de ridículo para manter viva uma chance apenas miserável de lutar pela vitória, Jenson Button ficou com a segunda opção. Deixou claro que preferia terminar em último, realmente tentando vencer, do que guiar conformadamente atrás de seu companheiro de equipe.

Digam o que quiserem sobre Jenson Button. Menos que ele não tem coração de campeão.

Faca nos dentes

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Button, McLaren-Mercedes

O campeão correu para o pit atrás de slicks: antecipação tática vital para a vitória

Ao elevar o jogo a um novo nível através de sua aposta, Jenson atraiu para si todos os olhares no pitlane. Um competidor havia rompido com o sistema, e se seus tempos se tornassem meramente próximos aos dos demais, então todos os carros seriam imediatamente chamados aos boxes, sob pena de avistarem o inglês apenas com o uso de uma luneta.

Muitos riram aliviados, portanto, quando já na curva 3 o campeão perdeu o ponto de frenagem e fez uma breve incursão pela caixa de brita. "Foi precipitado" - todos pensaram. E talvez tenha sido mesmo, afinal se a estratégia fosse boa ele não poderia estar sozinho nela. Mas também é fato que logo a seguir os pneus começaram a aquecer, e de repente Button começava a voar pela pista.

Duas voltas depois da atitude de Button, mais da metade do grid entrou junta nos boxes.

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Massa, Ferrari

Massa parou para os slicks junto de meio grid e perdeu duas posições

Foi um momento perigoso, com diversos carros próximos de tocarem-se entre si, e de atropelarem diversos mecânicos. Felizmente nenhuma ocorrência foi registrada, ainda que para alguns pilotos tenha havido algum prejuízo estratégico. Felipe Massa, por exemplo, perdeu posições para Robert Kubica e para Nico Rosberg. Além do surpreendente Jenson Button, que já aparecia em terceiro a esta altura e voava pela pista. Na volta nº 9, por exemplo, ele foi 5 segundos mais rápido que os melhores concorrentes.

A corrida de verdade estava sendo jogada, e com muita decisão Button partiu para cima de Kubica. A ultrapassagem que acabaria por definir o posicionamento de 1º e 2º colocados na corrida ocorreria na saída da curva 12. À frente do inglês restava apenas a inabalável Red Bull de Sebastian Vettel.

No pelotão intermediário a corrida seguia agitada, com Alonso já aparecendo na 9ª posição e ainda subindo. Hamilton, por sua vez, vinha em sétimo, em perseguição a Mark Webber - que havia se atrasado por ter sido o último a parar - e a Felipe Massa, ainda sem conseguir imprimir um ritmo de corrida veloz.

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Vettel, Red Bull e Button, McLaren-Mercedes

Button rapidamente alcançou Vettel, obrigado a forçar o ritmo para se distanciar

Volta a chover fraco.

Na 15ª volta, um momento de brilho e afobação. Mark Webber supera a Ferrari de Massa, obrigando o brasileiro a pisar fora do trilho seco. Hamilton rapidamente mergulha por dentro, e na mesma manobra já se posiciona ao lado de fora do australiano na freada para a curva 3. Teria sido uma manobra de primeira grandeza, não fosse Lewis Hamilton tão incapaz de controlar os próprios impulsos.

Em vez de frear antes para aplicar o "X" na zona de aceleração, Hamilton decide disputar a curva na força bruta. Fica sem espaço, toca a asa dianteira levemente contra a Red Bull, e acaba perdendo segundos preciosos. Felipe Massa recupera as duas posições, enquanto Hamilton e Webber deixam em aberto um novo encontro para antes do fim da corrida.

Diferentemente do que se viu no Bahrein, todos os pilotos guiavam nos limites, confiando na resistência dos compostos. E com isso Fernando Alonso já aparecia logo atrás de Hamilton, tendo recuperado uma quantidade inacreditável de posições na pista.

Getty Images

Webber, Red Bull e Hamilton, McLaren-Mercedes

Webber e Hamilton começaram a se pegar nas curvas, observados por Massa

Na volta 21 Lewis volta a superar Felipe, numa manobra tão forçada que acabou incluindo um novo toque da asa dianteira da McLaren, desta vez contra o pneu traseiro direito da Ferrari. Felipe reage, e vai dividir a curva 3 com o inglês, sem sucesso. Alonso, logo atrás, tenta se aproveitar da confusão, e acaba sendo superado por Webber ao pisar fora do trilho seco.

Pequeno parêtese: a Sauber deveria aprender com a McLaren sobre as melhores maneiras de fixar seus spoilers.

Lewis parte à caça da Mercedes de Rosberg, conseguindo uma ultrapassagem maravilhosa na 25ª volta, por fora, na rapidíssima curva 11. O alemão tenta o troco na perna seguinte, sem sucesso, no mesmo instante em que as câmeras mostram a Red Bull de Sebastian Vettel parada na caixa de brita.

FOM/Reprodução

Vettel, Red Bull

Red Bull rápida e vulnerável: porca frouxa obrigou Vettel a abandonar

Após ser traído por um infame cabo de vela no Bahrein, Vettel perdia mais uma vitória certa em 15 dias, desta vez por culpa de uma maldita porca de roda que se soltou, fazendo a roda dianteira esquerda rodar em falso na freada. Um azar injusto demais com seu talento, e ao mesmo tempo um golpe do destino que deixava a McLaren, de repente, com um carro em 1º e outro em 3º. Apenas a bravura de Robert Kubica separava a equipe de uma dobradinha que faria lembrar o legendário GP de Long Beach de 1983.

A empolgação e o otimismo tomaram conta da McLaren. E foi justamente quando deixou de agir objetivamente que a equipe cometeu seu único erro do dia. Após oito voltas tentando sem sucesso superar o polonês, Lewis foi chamado aos boxes. A equipe imaginou que, antecipando sua parada, pudesse dar-lhe uma vantagem decisiva quando Robert se encaminhasse para a segunda troca.

Perfeito. Mas quem disse que Kubica pretendia parar novamente?

De volta aos velhos tempos

Getty Images

Kubica, Renault

Numa Renault bem inferior, Kubica foi brilhante e não deu chance à dupla da Ferrari

As últimas 30 voltas da corrida em Melbourne trouxeram a Formula 1 de volta aos seus áureos tempos pré-reabastecimento. Ao todo, 9 dos 17 pilotos que continuavam na pista arriscaram uma segunda troca, certos de que os demais seriam obrigados a fazer o mesmo. E tiveram uma grande surpresa.

Na liderança, e correndo de cara para o vento, Button jamais cogitou a possibilidade de uma segunda troca. Robert Kubica, por sua vez, sentia-se capaz de segurar o ímpeto das duas Ferraris, e com isso contava com dois zagueiros de luxo protegendo-o dos ataques de Hamilton e companhia. A situação de Massa era basicamente a mesma, com a diferença de que, em seu caso, a proteção devia-se unicamente à presença de Alonso.

Para o espanhol, no entanto, a situação era qualquer coisa como infernal.

Preso atrás de dois carros mais lentos, sem poder atacar seu próprio companheiro de equipe e sem uma vantagem que o permitisse trocar por pneus novos, a Fernando só restava esperar pela chegada de Lewis Hamilton e seus pneus novos em seus retrovisores. O tão aguardado encontro entre os velhos rivais era uma questão de minutos.

Duelo de titãs

Getty Images

Massa e Alonso, Ferrari

Sem conseguir passar o companheiro Massa, Alonso 'pegou um ar'...

A partir de então, a corrida alcança novos patamares de tensão. De um lado, Alonso opta por afastar-se propositalmente da Ferrari de Massa, buscando poupar ao máximo seus pneus para a batalha duríssima que tinha pela frente. Lewis, enquanto isso, devora a desvantagem em relação ao espanhol numa razão de 1,5s por volta, trazendo Mark Webber e Nico Rosberg a reboque.

Imagens mostram as Ferraris derrapando de maneiras assustadoras pela pista, até que o encontro entre os dois pelotões se dá na volta nº 49, quando restavam nada menos que 9 para o fim.

Durante sete voltas Alonso deu uma verdadeira aula sobre como defender a posição, lembrando à Formula 1 o quanto é importante que um talento como o seu tenha sempre um carro competitivo em mãos. Ainda assim, todos no circuito sabiam que, cedo ou tarde, Lewis tentaria algo kamikaze. Afinal ele sempre tenta, e por muito que negue a diplomacia, a rivalidade entre ele e Alonso continua tão forte quanto sempre foi.

Getty Images

Alonso, Ferrari com Hamilton, McLaren-Mercedes e Webber, Red Bull

...mas logo voltaria ao inferno, tendo que segurar Hamilton e Webber em pneus novos

Volta 56, duas para o fim do GP. Saindo da curva 9 a Ferrari de Alonso perde tração, permitindo que Hamilton se coloque em posição de ultrapassagem. Fernando toma a linha de dentro na aproximação das rápidas curvas 11 e 12, e as toma forte o bastante para evitar que Hamilton mergulhe por fora, como havia feito com Rosberg. O espanhol, no entanto, perde velocidade de saída, justamente no melhor ponto de ultrapassagem do circuito.

A adrenalina vai a mil, e é possível ver a cabeça de Alonso olhando freneticamente para os dois retrovisores, tentando antecipar a trajetória de Hamilton. Por fim, o espanhol adota a linha de dentro, enquanto Hamilton mergulha com tudo por fora. Os dois irão dividir a curva, e, metros atrás, Mark Webber fareja a possibilidade de uma dupla ultrapassagem.

Reuters Pictures

Barrichello, Williams

Barrichello chegou novamente nos pontos, ligeiramente beneficiado pelas brigas finais

O lado pessoal da disputa vem à tona. Alonso deixa para frear no limite do possível, travando vigorosamente seus quatro pneus. Hamilton, mais uma vez incapaz de antecipar os fatos, aceita a queda de braço. Os pneus mais novos, no entanto, o permitem frear melhor, quase a ponto de cortar a trajetória e aplicar o "X" consagrador.

E é quando Mark Webber o atinge por trás, numa manobra de pura afobação. Alonso, sabe Deus como, consegue contornar a curva, sendo imediatamente assediado por Rosberg, a quem consegue controlar. Hamilton e Webber, enquanto isso, retornam à pista. O inglês segue na sexta colocação até o fim, enquanto o australiano precisa trocar o bico e termina a prova numa frustrante 9ª colocação.

Ultrapassagens realizadas por Barrichello e Schumacher na última volta encerram a fatura, e dão cores finais a uma corrida fantástica.

Disputas territoriais

Getty Images

Button com champagne

Button, aqui em excelente foto da agência Getty, fortaleceu-se dentro da McLaren

Baixada a poeira, Melbourne acaba também por desenhar um novo panorama na disputa interna entre vários companheiros de equipe. Na Ferrari, equilíbrio absoluto com Massa e Alonso tendo vencido um treino e uma corrida cada. Na Mclaren, Button sai fortalecido, após uma vitória de muita cabeça e muito coração, enquanto Red Bull e Mercedes continuam pertencendo a Sebastian Vettel e Nico Rosberg, respectivamente.

Destaque ainda para as atuações seguras de Vitantonio Liuzzi e Rubens Barrichello, ambos tendo pontuado nas duas provas até aqui disputadas. E, é claro, para mais uma atuação esplendorosa deste brilhante Robert Kubica.

Feliz da categoria que, por excesso de bons pilotos, tenha de ver um gênio como ele guiando para um carro menos competitivo...

Getty Images

John Travolta

O ator John Travolta deu a bandeirada da corrida e também esteve na cerimônia do podium

Confira o resultado do GP da Austrália, segunda etapa do ano

1) Jenson Button (McLaren-Mercedes), 58 voltas em 1h33min36s531
2) Robert Kubica (Renault), + 12.034
3) Felipe Massa (Ferrari), + 14.488
4) Fernando Alonso (Ferrari), + 16.304
5) Nico Rosberg (Mercedes), + 16.683
6) Lewis Hamilton (McLaren-Mercedes), + 29.898
7) Tonio Liuzzi (Force India-Mercedes), + 59.847
8) Rubens Barrichello (Williams-Cosworth), + 1:00.536
9) Mark Webber (Red Bull-Renault), + 1:07.319
10) Michael Schumacher (Mercedes), + 1:09.391
11) Jaime Alguersuari (Toro Rosso-Ferrari), + 1:11.301
12) Pedro de la Rosa (Sauber-Ferrari), + 1:14.084
13) Heikki Kovalainen (Lotus-Cosworth), + 2 voltas
14) Karun Chandhok (Hispania-Cosworth), + 4 voltas

15) Timo Glock (Virgin-Cosworth), 41 voltas
16) Sebastian Vettel (Red Bull-Renault), 26 voltas
17) Lucas di Grassi (Virgin-Cosworth), 25 voltas
18) Adrian Sutil (Force India-Mercedes), 12 voltas
19) Vitaly Petrov (Renault), 10 voltas
20) Bruno Senna (Hispania-Cosworth), 5 voltas
21) Sébastien Buemi (Toro Rosso-Ferrari), 1 volta
22) Nico Hülkenberg (Williams-Cosworth), 1 volta
23) Kamui Kobayashi (Sauber-Ferrari), 1 volta
24) Jarno Trulli (Lotus-Cosworth), não largou

O próximo GP da F1 será na Malásia, já no próximo domingo, em 4 de abril.