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Formula 1 | Renault R30 e Sauber C29

Renault e Sauber ‘voltam às raízes’
e apresentam carros em Valencia

Terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010, 20:40

A Renault lançou um video com imagens de estudio do novo carro, o R30

Lucas Giavoni

As equipes Renault e Sauber escolheram mesmo dia e local para revelarem seus modelos para a temporada 2010 da Formula 1 – o domingo (31) no circuito Ricardo Tormo, em Valência, Espanha. Ambas dividem, cada uma a seu modo, outra coincidência, a ‘volta às raízes’. A Renault apresentou o modelo R30 para Robert Kubica e o novato russo Vitaly Petrov com as cores originais da equipe na F1, amarelo e preto. E a Sauber volta a ser uma equipe independente com a aparição do modelo C29 de motor Ferrari, para os pilotos Kamui Kobayashi e Pedro de la Rosa.

Renault R30

A Renault mostrou em Valencia um carro que tem como maior atrativo seu visual. Com a saída do banco ING, que colocou suas cores laranja e branco na equipe entre 2007 e 2009, o R30 está em amarelo e preto. Estas são as mesmas cores com que a equipe estreou na F1 em 1977, no GP da Grã-Bretanha, trazendo em seu modelo RS01 o 1º motor turbo da história da categoria.

A pintura do novo modelo é muito semelhante à usada pelo time em uma ação publicitária realizada em 2007 por razão dos 30 anos do time na F1, mas com apliques de vermelho nos espelhos e nas derivas das asas dianteira e traseira - exigência de um dos investidores publicitários, a petroleira francesa Total, do grupo Elf.

Reuters Pictures

Kubica, Petrov e o R30

Novo carro, novas cores, novos pilotos. É a Renault tentando reencontrar um lugar ao sol

“É muito diferente e até minha mãe poderia descrever as diferenças exteriores!”, brinca James Allison, o diretor técnico da Renault, sobre o R30 em relação ao modelo anterior. “Temos como objetivo começar a temporada 2010 em forma consideravelmente melhor do que nós terminamos 2009”, afirma o engenheiro, que assina o projeto. A Renault fez na temporada passada apenas uma pole, uma volta mais rápida e escassos 26 pontos – tudo pelas mãos de Fernando Alonso. Terminou em um constrangedor 8º lugar entre os construtores.

“O tempo dirá o quanto de sucesso nós teremos nesta proposta”, ponderou Allison. “Qualquer que seja nosso nível inicial de competitividade, nós temos um programa de desenvolvimento muito agressivo planejado para o carro e estamos confiantes de que retornaremos a lutar por pódios e ganhar corridas em breve”, conclui o projetista, que classificou o R30 como mais esbelto e atraente do que o anterior.

O novo carro não foi a única novidade trazida pela Renault. Com a confirmação de Kubica como primeiro piloto há meses, faltava decidir quem seria seu companheiro de equipe. O escolhido foi o russo Vitaly Petrov, vice-campeão da GP2. Ele será o primeiro de seu país a correr na F1 em 60 anos. O piloto de 25 anos nega, mas é comentado nos bastidores que teria levado consigo uma apreciável quantia em dinheiro para o time. A dupla de pilotos usará os números 11 e 12.

Glenn Dunbar/LAT Photographic

Kubica, Petrov e o R30

O R30 carrega as cores originais usadas entre 1977-1985, 1ª fase do time na F1

O R30 visto em Valencia ainda não é a versão definitiva – nos dando muito pouca margem para fazer comparações e avaliações técnicas. Tanto o bico quanto a asa traseira apresentados ainda são do ano passado e o novo difusor duplex estava tampado por uma enorme placa na traseira do carro, abaixo do aerofólio traseiro, entre as rodas.

Como novo, é possível destacar a suspensão dianteira, com braços mais finos e simplificados, semelhante aos modelos em aço e usados até metade dos anos 90 – atualmente elas são de fibra de carbono. O desenho dos espelhos retrovisores também é diferente, mas as aletas nas extremidades das laterais e as entradas de ar estão com o mesmo desenho das versões finais do R29.

A nova Renault, assim como nos demais modelos apresentados, está mais comprida, com cockpit mais adiantado devido ao tanque de combustível maior. E a principal mudança notada está no perfil das laterais, mais esguias e com saídas de escapamentos posicionadas mais perto da suspensão traseira. Foi mantida a ‘barbatana’ na carenagem do motor, mas de um tamanho pequeno se comparado ao gigantesco modelo usado na nova McLaren.

Juntando os cacos

Renault F1

Kubica, Petrov, Boullier e o R30

Kubica, Petrov e o novo chefe Eric Boullier - novatos para reerguer a Renault

A Renault ainda junta os cacos após uma traumática temporada 2009. Como se não bastasse o mau desempenho do modelo R29, a equipe enfrentou o furacão do ‘Crashgate’, episódio em que Nelsinho Piquet confessou ter batido de propósito no GP de Cingapura de 2008 a mando do diretor-chefe Flavio Briatore e do diretor-técnico Pat Symonds. Nelsinho foi buscar refúgio nas categorias de acesso da Nascar, nos EUA, e tanto Briatore quanto Symonds foram demitidos. E para fechar o pior ano da recente história da equipe, Fernando Alonso foi embora, viver seus sonhos de vitória na Ferrari.

A retomada da Renault começou já no fim da temporada passada, com o anúncio da contratação de Kubica, que estava ‘livre’ no mercado desde julho com a saída da BMW da F1. O polonês é ‘prata da casa’, já que fez parte do programa de desenvolvimento de pilotos da Renault em 2002 e chegou a testar pela equipe em 2005. Mudou-se para a BMW Sauber em 2006, primeiro como reserva e depois como titular (com a saída de Jacques Villeneuve) e fez boas apresentações, sobretudo em 2008, quando ganhou no Canadá e chegou a disputar o título.

O cargo da direção geral ocupado por Briatore – que foi excluído pela FIA, resolução que mais tarde foi anulada pela justiça – ficou vago. O então engenheiro-chefe Bob Bell, desenhista dos modelos R25 e R26, campeões com Alonso, ocupou o posto interinamente no fim de 2009. Mesmo com a contratação de Kubica, o futuro da equipe na categoria não estava garantido e o presidente da marca, o brasileiro Carlos Ghosn, pensava em uma possível retirada estratégica.

Renault F1

Petrov

Petrov nega, mas pode ter chegado na Renault com uma mala cheia de dinheiro...

A situação só se resolveu a favor da continuidade da equipe na F1 na metade de dezembro, com a venda de 75% das ações da equipe para Genii Capital, firma de investimento sediada em Luxemburgo. A holding possui ações de marcas como Polaroid e Skype e que recentemente quase comprou a montadora sueca Saab. O negócio com a Renault envolveu a base inglesa do time em Enstone, responsável pela engenharia de chassi. A base francesa, em Viry-Châtillon, responsável pelo desenvolvimento e produção dos motores, continua com a Renault.

O francês Eric Boullier foi designado no começo de janeiro para assumir a direção geral da Renault F1 e Bob Bell tornou-se diretor da equipe e responsável pela base de Enstone. Boullier anteriormente comandava a Gravity Sport Management, que cuida da carreira de jovens pilotos como o chinês Ho-Pin Tung e o belga Jerome D’Ambrisio, ambos pilotos da GP2 e que foram confirmados como reservas da Renault. A Gravity também assessora Adrien Tambay, piloto da F3 francesa filho de Patrick Tambay, ex-piloto da Renault F1 nas temporadas 1984-1985. A empresa também é da Genii Capital.

Mesmo sem ter como confirmar oficialmente, a possível injeção de dinheiro pela chegada de Petrov também ajuda a estabilizar o time, que parece buscar nas cores do passado um recomeço na busca pela competitividade perdida.

Sauber C29

BMW Sauber F1

De la Rosa, Sauber, Kobayashi e o C29

Sauber reassumiu o time, agora com De la Rosa, Kobayashi e um carro de motor Ferrari

De volta às mãos do fundador Peter Sauber, a Sauber apresentou em Valencia seu modelo C29 – especificação que retoma aquela usada pelo time antes da aliança com a BMW. Apesar de ser impulsionado agora por um motor da Ferrari – que é parceira de longa data e forneceu motores para a Sauber entre 1997 e 2005 – o nome do time não foi mudado: oficialmente ainda é BMW Sauber F1 Team – pelo menos até a temporada realmente começar.

Junto ao novo carro e do Sr. Sauber estavam os titulares Kamui Kobayashi e Pedro de la Rosa. Ambos formam uma dupla bastante eclética. Enquanto o jovem japonês de 23 anos foi sensação nas últimas duas corridas de 2009 pela retirada Toyota, o espanhol é um veterano de 38 anos que tem 11 anos de F1 – a maioria do tempo como test-driver da McLaren.

O novo carro ainda está limpo, sem logotipos publicitários e um layout provisório, baseado naquele usado em 2009. Mesmo limpo, duas empresas já foram confirmadas como investidoras: a Certina, uma fabricante de relógios suíços, que apareceu discretamente nos espelhos retrovisores e a D-Scalp, uma empresa japonesa de xampu – atraída por Kobayashi – e que terá em breve logotipos nas derivas do aerofólio traseiro.

Reuters Pictures

De la Rosa, Kobayashi e o C29

O modelo C29 é uma evolução natural (e mais barata) do antecessor F1.09

O projeto é assinado pelo diretor-técnico Willy Rampf, responsável por todos os modelos Sauber desde 2001 e do período do casamento com a BMW. Essa é uma importante pista para entender o porquê o novo carro é tão parecido com o anterior. Tirando as diferenças obrigatórias, como o aumento do comprimento (juntamente com o entre-eixos) e adiantamento do cockpit por conta do tanque de combustível maior, as linhas gerais não mudam.

Como novidades, é possível apontar o novo bico, mais elevado e afilado – uma tendência entre os novos carros. A asa dianteira também está diferente, com três elementos de cada lado e flaps nas pontas internas das derivas. O suporte de ligação da asa com o bico é bastante inclinado quando visto de perfil. A posição dos espelhos e as aletas verticais nas entradas de ar são idênticas aquelas do antecessor F1.09, mas as laterais apresentam um desenho mais trabalhado, bem como o desenho do entorno do cockpit.

A tampa do motor, que tem tomada central de ar triangular, apresenta uma extensa barbatana baseada naquela usada pelo time nos últimas corridas. Apesar de extensa, a peça não possui conexão com a parte traseira, tal como a da McLaren. No entanto, a ‘bigorna’ empurra o fluxo de ar para um pequeno apêndice acima da lâmina principal do aerofólio traseiro – quase como um ‘mini-aerofólio dentro do aerofólio’. O carro também teve seu difusor redesenhado – e obviamente escondido nas fotos oficiais.

Caminho tortuoso

BMW Sauber F1

Peter Sauber

Peter Sauber só colocou sua equipe no grid porque a Toyota retirou-se, deixando uma vaga

Assim como a Renault, a Sauber também atravessou a tempestade para se manter na F1. O chocante anúncio da retirada da BMW da categoria deixou incerto o futuro do time e de todos os seus membros – inclusive os pilotos Kubica e Nick Heidfeld. O diretor da equipe, Mario Theissen, decidiu se manter como diretor esportivo da BMW em outros projetos da marca e foi um dos primeiros a se ‘salvar’.

Após o fracasso da tentativa de venda da equipe para a Qadbak, um grupo de investidores suíços, a BMW não teve outra escolha senão repassar toda a estrutura para Peter Sauber, que era sócio minoritário e consultor desde 2006, quando ‘casou’ com os bávaros. E tudo só foi concretizado porque a Toyota retirou-se na F1, deixando aberta uma provincial vaga de inscrição na FIA.

A transação de devolução de toda a estrutura sediada na cidade suíça de Hinwill aparentemente envolveu apenas quantias simbólicas de dinheiro, pois para a BMW seria uma dor de cabeça muito maior se a fábrica fechasse e centenas de funcionários ficassem desempregados, numa interminável fila de dívidas trabalhistas. Esta medida em muito se assemelha com o acerto entre Honda e Ross Brawn no começo de 2009, que possibilitou o nascimento da campeã e já extinta Brawn GP.

BMW Sauber F1

De la Rosa e Kobayashi

De la Rosa e Kobayashi formam uma das duplas mais exóticas do grid

Peter Sauber está com orçamento apertado, mas é um homem de negócios experiente e que espera juntar dinheiro suficiente para cobrir a temporada. “A preparação técnica do carro para 2010 continuou sem interrupções e de acordo como o planejado desde a primavera [do hemisfério norte] de 2009, apesar de todo o tumulto”, disse Peter.

Segundo informações do site inglês Autosport, cortes de funcionários já foram feitos, para voltar ao ‘padrão’ de seus dias como time independente. De cerca de 400 funcionários originais dos tempos de BMW, apenas 260 ficaram para o trabalho durante a virada do ano e o gasto com o novo chassi foi de 40% em relação ao ano passado.

“Não tivemos muito tempo para procurar patrocinadores. Começamos [a procurar] perto do Natal. Era um tempo muito difícil para achá-los, especialmente os grandes”, avaliou o dirigente suíço, que se mostrou otimista. “Estou seguro que nós veremos mais [patrocinadores] quando nós começamos a correr, ou talvez quando nós começarmos a temporada europeia”, disse.