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Especial GP do Japão 1989

Ayrton conquista o título de 1988
com exibição épica em Suzuka

Quarta-feira, 15 de Setembro de 2010

F1-Fatcs

Senna no podium

Quem apostaria que o piloto do carro branco e vermelho lá no fundo venceria este GP?...

Por Márcio Madeira da Cunha

Drama, tensão, risco, ousadia, competência, superação, triunfo. Traduza todos estes conceitos ao universo do automobilismo esportivo, e então os eleve aos limites do possível. Eis aí uma boa representação do que significou aquele GP do Japão de 1988, na maravilhosa pista de Suzuka. Uma corrida que, nas palavras de seu principal protagonista, o próprio Criador fez questão de assistir presencialmente.

Diante da responsabilidade de recordar um momento tão carregado de simbolismos, o ULTIMAVOLTA pediu auxílio a um piloto que estava lá naquele dia, e que viu tudo muito de perto. Fica registrado aqui nosso sincero e profundo agradecimento a Maurício Gugelmin, pela atenção e pela prontidão com que sempre se dispôs a sanar nossas dúvidas.

Ao querido Gugelmin, e aos leitores que compreenderam nossas recentes dificuldades de atualização do site, nosso muito obrigado.

LAT Archive

Senna no podium

...pois ele venceu! Punhos erguidos e sorriso de quem colheu frutos de um trabalho árduo

***

Poucos meses terão sido tão longos na história da F1 quanto aquele que separou os GPs da Espanha e do Japão em 1988. Afinal, um campeonato que em princípios de setembro parecia uma mera formalidade a ser cumprida por Ayrton Senna, de repente havia ganhado contornos de uma inacreditável virada por parte de Alain Prost. Nos dois GPs disputados na península Ibérica a McLaren nº 12 havia se mostrado misteriosamente fora de ritmo, e justo na hora da decisão todos tinham de esperar essa interminável pausa de um mês.

A grande pergunta que pairava no ar, àquela altura, era sobre qual Ayrton Senna seria visto no Japão. O piloto demolidor, da incrível série de vitórias durante o verão europeu, ou o piloto que lutava contra o desequilíbrio do carro e os problemas de informações do computador de bordo, no Estoril e em Jerez?

A resposta a essa pergunta, muito provavelmente, iria definir o novo campeão mundial. E ninguém estava mais ansioso pelo desfecho dessa trama do que os próprios pilotos envolvidos, como poderemos comprovar em breve.

Satoru Nakajima nos apresenta a bela pista Suzuka em sua Lotus-Honda 100T

Dia 27 de outubro, quinta-feira. Na efervescente sala de imprensa de Suzuka, a Honda divulgava uma nota oficial rebatendo as suspeitas de que poderia estar manipulando o desempenho de seus pilotos. Curiosamente, ainda que os resultados pudessem sugerir que Senna havia sido prejudicado nas duas últimas provas, eram os franceses Alain Prost e Jean-Marie Balestre, o presidente da FISA, quem jogavam gasolina no fogo da polêmica. No fim, a questão acabou tomando a atenção de toda a imprensa, e as especulações pareceram tomar proporções muito maiores do que de fato mereciam.

Naquela mesma noite, um fato importante passou quase que despercebido. Em algum quarto de hotel, Alain Prost não conseguia dormir de forma alguma. O francês, geralmente frio e calculista, e que desde a Bélgica vinha assumindo o confortável papel de franco-atirador, sentia agora a pressão de estar de volta ao jogo. E mais: ele sabia que no seu caso seria tudo ou nada. Ou perdia para um companheiro novato, recém-chegado à equipe, ou então seria protagonista de uma das viradas mais impressionantes de todos os tempos.

“Eu deveria ter tomado um comprimido, acho, mas quanto mais tarde ficava, mais tive medo de tomar e de ficar grogue pela manhã” – resumiu. Um relato curto e simples, mas que serve para nos lembrar da humanidade de nossos personagens centrais.

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Capelli em Suzuka

Capelli havia marcado o 4º tempo nos treinos e seria destaque na corrida

O sono, contudo, não pareceu afetar os reflexos de Prost, que o liderou a primeira sessão de treinos livres, com um tempo 0,2s mais rápido que o de Senna. Situação que se inverteu durante a tarde, quando o brasileiro encaixou logo no início da qualificação uma de suas voltas espetaculares. Com o tempo de 1:42.157, Senna já havia garantido a pole-position para o GP, embora ainda não soubesse disso. Berger aparecia em segundo com 1:43.548, enquanto Prost era apenas o terceiro, com 1:43.806. O francês culpou a regulagem do motor, e afirmou que o problema seria resolvido facilmente.

Antes que fosse possível saber se o tal problema havia sido contornado, contudo, o carro de Prost apresentou um grande vazamento de combustível, logo no sábado pela manhã. O macacão ficou ensopado, de tal maneira que o francês saiu rapidamente do carro e começou a jogar água sobre o próprio corpo, pois o combustível o estava queimando. A partir de então Alain passou a usar o carro titular, cujo motor se revelaria excelente.

Novamente otimista, Prost foi para a pista logo no início da última sessão classificatória, e conseguiu superar a marca de Berger. E teve sorte, pois logo em seguida começou a garoar. Ao fim de 10 minutos a pista prometia secar, quando Maurício Gugelmin perdeu o controle de sua March-Judd e chocou-se contra o guard-rail. “Minha culpa”, resumiu Maurício, sincero como sempre.

Abertura do GP do Japão de 1988 feito pela TV Fuji. Uma prova incrível estava por acontecer

Dezesseis minutos se passaram até que a pista fosse novamente liberada, e então todos deixaram os boxes ao mesmo tempo. Em meio ao pesado tráfego Senna encontrou uma volta limpa, e baixou sua marca para 1:41.853. Já era a segunda volta com seu último jogo de pneus, de forma que ele não teria modos de ir além deste tempo. Simultaneamente Prost fazia sua tentativa final, e suas parciais eram bastante parecidas com as do brasileiro. Na saída da chicane, no entanto, Alain assumidamente errou uma marcha, terminando o giro em 1:42.177. A primeira parte da briga estava definida.

No domingo pela manhã, Senna liderou o warm-up, seguido de perto por Nigel Mansell e por Prost. No início da sessão ainda havia sol, mas logo o tempo começou a fechar e pouco antes da largada começou a chover leve. Tanto que, restando 15 minutos para o início da prova, todos os carros estavam equipados com pneus ‘biscoito’. A chuva, todavia, durou pouco, e no fim todos decidiram largar com pneus lisos. A pista, no entanto, estava evidentemente escorregadia.

Para avaliar a situação, tanto Senna quanto Prost partiram como loucos tão logo foi liberada a volta de apresentação. Sentiram a pista, reconheceram o terreno, e então se encaminharam para o grid de largada. O momento pelo qual Ayrton Senna havia esperado durante toda sua vida, finalmente havia chegado. A corrida mais aguardada do ano ia começar.

Após longa espera pela luz verde, Senna fica na largada e cai para 14º...

Tão logo acenderam-se as luzes verdes as duas McLarens pularam, mas logo uma delas perdeu a progressão. Era Senna. Traindo toda a sua tensão o brasileiro havia deixado o motor morrer, e agora sua McLaren era um obstáculo fixo na frente de 24 carros em máxima aceleração atrás dele. De repente, todo um campeonato construído a base de muita superação passava a depender de detalhes e de sorte.

Gerhard Berger, imediatamente atrás, percebe o problema de Ayrton e com muito reflexo consegue desviar. As rodas direitas da Ferrari passam a milímetros – e isso não é uma força de expressão – do pneu traseiro esquerdo de Senna. Piquet, logo a seguir, desvia para a direita, também conseguindo evitar o compatriota. Os demais pilotos entendem a situação e assumem trajetórias seguras. O primeiro risco – o de ser atingido por um dos carros que vinha atrás – havia sido superado, ainda que por muito pouco.

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Berger em Suzuka

Berger, que largou atrás de Senna, passou a milímetros da McLaren nº 12

De nada, no entanto, isso adiantaria, caso Senna ficasse lá, parado no grid. É então que outro detalhe conspira a favor do brasileiro.

A reta dos boxes em Suzuka foi construída em meio a uma ligeira descida, e esse fator acabou sendo decisivo para que Ayrton pudesse fazer seu motor pegar no tranco. O drama, no entanto, ainda não havia terminado, pois também na segunda tentativa o motor apagou após um breve soluço. Ao menos a velocidade agora já era suficiente para fazer o motor funcionar com mais facilidade, e assim Senna finalmente conseguiu acelerar seu Honda V6. Ao tomar a 1ª curva, ele ocupava uma distante 14ª colocação.

Maurício Gugelmin era o 12º a esta altura, e num certo momento da 1ª volta Ayrton e ele estiveram muito perto de um acidente inacreditável, que as câmeras da TV Fuji não registraram. Gugelmin se recordaria do fato, passados mais de 20 anos?

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Gugelmin em Suzuka

Gugelmin, que era da March, lembra-se muito bem dos fatos daquela corrida em Suzuka...

Maurício Gugelmin: Ah! [Risos] Bom, primeiro foi a largada que... O carro dele deu aquele problema e quase morreu, e ele caiu lá pra trás, quando tinha partido da pole, né?

UV: E você viu que era ele que tinha ficado parado?

MG: Vi, vi. Aquele carro de 1988 da McLaren era muito estreito atrás do capacete, então você via bem... E a cor era muito distinta, o amarelo dele, né? Eu vi que ele tinha ficado parado e até pensei: “pô, micou”. Fiquei, assim, super preocupado com o que é que tinha acontecido. E não vi que ele tinha conseguido sair com atraso.

E, no carro da March, pra você entender como é que a gente quase se tocou, era muito apertado o local onde você colocava o líquido que o piloto bebia. Pra você ter uma idéia, embaixo da minha perna ficava o extintor de incêndio, e daí tinha uma parte do cockpit, depois do joelho, pra frente assim, debaixo da batata da perna, tinha um espacinho com um buraco, e ali entrava a garrafa com o líquido pra você tomar durante a corrida. E aquele dia tinha feito calor e a equipe colocou a minha garrafa pra gelar, e colocaram com o líquido congelado ali. E montaram de uma forma que não fixaram bem.

Na primeira volta, quando cheguei no haipin, naquele cotovelo, que eu fui... Eu tava no pelotão de trás e o Ayrton já vinha atrás de mim. E no que eu fui pisar no freio, a minha garrafa de bebida tava entre o freio e o acelerador. Ela tinha saído do local, e na hora que eu freei ela escorregou, bem na hora que eu fui fazer punta-taco. Isso fez com que eu freasse mais, travando então um pouco as rodas traseiras. E eu dei uma atravessada na frente dele, que depois ele falou comigo: “Depois daquela largada, eu já tava com o coração na boca, já vinha desesperado, e quando eu venho, vejo aquela sua atravessada ali na minha frente eu pensei: pronto, agora vai acabar tudo com nós dois abraçados aqui” [risos].

Mas a sorte foi que meu carro atravessou pra direita, como se fosse fazer uma curva de rali, e a curva era pra esquerda. Porque eu atravessei e voltei. Quando eu voltei, ele entrou por dentro, numa boa, eu vi que era ele e não deu em nada. Mas foi um grande risco, né? Depois inclusive tive que parar pra tirar a garrafa, porque eu não tinha espaço nem para os pés ali, imagina com uma garrafa no meio [risos].

F1-Facts

Capacete amarelo

Gugelmin: "Vi que era ele. O carro de 1988 da McLaren era muito estreito atrás do capacete"

Na verdade, o incidente envolvendo os dois amigos foi apenas mais um momento de tensão dentro de uma das voltas mais espetaculares na história do automobilismo. Tendo conseguido colocar o carro em movimento, Ayrton tinha agora diversos problemas para resolver, caso quisesse sair de Suzuka como campeão mundial. O primeiro, lógico, era se manter longe de toques e problemas, sempre tão comuns no pelotão intermediário.

No entanto, por outro lado, Senna não podia se permitir ser cauteloso, uma vez que lá na frente Alain Prost tinha pista livre e um carro igualzinho ao seu, e apenas a vitória interessava a qualquer um dos dois.

Numa opção infeliz as câmeras acompanham Prost e Berger, enquanto um pouco mais atrás Ayrton fazia o impossível para se manter livre de problemas e superar seis carros numa só volta. No mesmo hairpin onde Gugelmin esteve perto de rodar, metros à frente Mansell perdeu o bico ao tentar passar Derek Warwick quando ambos disputavam a 4ª colocação, gerando assim um enorme espaço entre os líderes Prost, Berger e Capelli, e os demais pilotos.

Sutton Photographic

Senna vai passando

Senna passa Alboreto - antes havia superado Boutsen e Nannini, ambos da Benetton

Ao fim daquela volta alucinante, Senna encontrava-se na 8ª colocação, a pouco menos de nove segundos de Prost. Brigar pela vitória continuava sendo quase impossível, mas ao menos a primeira parte de sua tarefa havia sido cumprida com brilhantismo.

Na segunda volta Ayrton segue em seu ritmo frenético, deixando para trás Patrese e Nannini, e – tão importante quanto – nesta volta perde apenas meio segundo em relação a Prost. Mais um giro e é a vez de Boutsen ficar para trás, desta vez ao custo de mais 3 segundos em relação ao líder. Senna já era o quinto, mas tinha ainda três carros por ultrapassar, e mais de 12 segundos para descontar em relação a Prost. Tudo isso, claro, apenas para que pudesse começar a brigar, pois depois de tudo ele ainda teria que encontrar algum meio de superar o rival.

Mesmo com o início fantástico, a missão ainda parecia ser impossível.

Volta 4, e agora é a Ferrari de Alboreto que fica para trás. Senna está a 13 segundos do líder, e momentaneamente tem pista livre, pois se encontra no vácuo entre os dois pelotões definidos na 1ª volta. Ainda assim, Prost consegue livrar mais 3 décimos durante a quinta volta, antes que Senna o superasse pela primeira vez no giro seguinte. Ao menos a esta altura todo mundo nas arquibancadas ou diante da tevê já sabia que o Ayrton Senna que estavam vendo era o piloto imbatível do verão europeu, e não o corredor irreconhecível da península Ibérica.

Na ponta, Prost era fortemente assediado por Capelli, que chegou a liderar por meia reta

A diferença entre os pilotos da McLaren permanece estável até a oitava volta, a partir da qual Senna começa a descontar de maneira mais acentuada. Foram 7 décimos em cada uma das duas passagens seguintes, até que Senna encontrou Berger, e voltou a perder tempo. O austríaco é superado na 11ª volta, e agora a diferença entre as duas McLarens era de 12,6 segundos, com apenas Ivan Capelli entre elas.

O desempenho do italiano, aliás, é digno de nota. Após superar a Ferrari de Berger em plena reta, o March nº 16 fazia o que parecia impossível, e começava a se aproximar do líder Prost. Passados 22 anos, pergunto a Gugelmin se é verdadeira a lenda jamais confirmada de que a equipe March teria mandado Capelli à pista com pneus macios e pouco combustível, apenas para que ele fizesse bonito diante dos investidores japoneses do time. Na súmula oficial, o abandono foi por problemas elétricos...

“Realmente foi uma jogada da equipe para aumentar o investimento no ano seguinte! O Capelli parou com pane seca, mas andou muito” – confidenciou Maurício. Um furo mundial, ainda que com duas décadas de atraso...

F1-Facts

Capelli abandona

Pane elétrica? Não! Foi pane seca! Capelli tinha só 40 litros para fazer bonito no começo...

A verdade sobre o desempenho de Capelli é importante, pois vai de encontro a outro mito acerca desta corrida, segundo o qual Ayrton teria se aproveitado de um grave problema de câmbio no carro de Prost para poder vencer. O próprio Prost levantou esta bandeira, após perder uma marcha ao término da volta 15, quando chegou a ser superado momentaneamente por Capelli diante dos boxes. No entanto, se observarmos os tempos do francês volta a volta, veremos que este problema manifestou-se apenas neste instante, da mesma forma como havia se manifestado durante a classificação.

Que fique muito claro: Ayrton Senna descontou toda a distância no braço, especialmente nas voltas em que a pista esteve ligeiramente molhada. Se alguém quiser diminuir o feito do brasileiro, então que digam que tudo isso teria sido desnecessário caso ele não tivesse cometido um erro bobo na largada. Agora, reduzir a magnitude do que ele fez a partir disso é, sem eufemismos, uma falta com a verdade.

Desde a volta 14, uma fina garoa havia voltado a cair, e com ela toda a vantagem de Prost. Ayrton desconta 2,2s na volta 16, mais 2,6 no giro seguinte, e incríveis 5 segundos na volta 19, após Prost ter sido mais rápido no giro 18. Mundo afora, algumas pessoas começavam a se lembrar de Mônaco 1984, e de como Ayrton guiava numa classe à parte sob tais circunstâncias.

F1-Facts

Capelli abandona

Prost pega tráfego na saída da chicane - era a hora H para Senna

Ao término da 20ª volta, Senna já havia alcançado os dois líderes, e como se tudo tivesse sido combinado, é justamente neste instante que se acaba a pouca gasolina do March. A partir de agora – e com a pista já novamente seca – os dois postulantes ao título iriam discutir o campeonato na pista, num duelo direto.

Durante sete voltas os dois andam muito próximos, sem que Ayrton tivesse alguma chance real de ultrapassar. Ao abrirem a 28ª volta, no entanto, Prost se depara com a Rial de Andrea de Cesaris, fica encaixotado na freada para a chicane, e Senna sente que chegou a hora.

Tentando se livrar o quanto antes do problema, Alain acelera cedo demais ou forte demais, e perde momentaneamente a traseira. O carro fica sem tração por um átimo de segundo, dando a Ayrton a chance de mergulhar. Os dois carros rasgam a reta emparelhados, com o francês espremendo o brasileiro junto ao muro dos boxes, mas de forma muito menos intensa que a efetuada por Ayrton no Estoril em cima de Alain.

A ultrapassagem: dali em diante, Senna jamais perderia o comando da prova

Senna não alivia, corre pelo trecho sujo, atrasa a freada ao limite e assume a liderança. Antes de tomarem a curva 1 ambos ainda superam o carro do retardatário italiano, e Ayrton, por muito pouco, não segue reto pela caixa de brita após uma tremenda escapada de traseira que deu toda a dimensão do quão longe ambos tinham ido na disputa.

A partir de então o jogo se inverte, e é Prost quem persegue o brasileiro, sem encontrar chances reais de ultrapassagem. Os dois andam razoavelmente próximos até que volta a chover quando restavam 5 voltas para o fim. A esta altura Senna volta a livrar enorme vantagem, mas mesmo assim insiste em gesticular para a direção de prova pedindo o encerramento da corrida. Uma situação irônica para quem, como ele, já havia sido prejudicado por este tipo de situação.

No fim, a prova não foi interrompida, e nem precisaria. Senna seguiu firme na liderança, até cruzar a linha de chegada com os dois punhos cerrados para fora do cockpit. Uma das maiores lendas do esporte em todos os tempos acabava de conquistar o título mundial de maneira absolutamente dramática.

WRI

Senna no podium

Ayrton ganha um banho de champagne oferecido pelo amigo Boutsen, o 3º colocado

Pouco tempo depois deste dia, Ayrton iria declarar ter experimentado uma visão divina durante a última volta da corrida, e sobre isso muito já se escreveu e se especulou. No fim, o fato é que a natureza e a verdade do que de fato viu, se é que viu, é algo que Senna levou consigo no dia em que faleceu. Qualquer especulação externa a este respeito será no mínimo leviana, e nem de longe poderá ser considerada de ordem jornalística.

Ainda assim, por toda a intensidade da viagem mística à qual Senna se entregou ao longo da dura batalha de 1988, e muito acima disso, por guiar carros de corrida da forma como guiava, uma coisa era e continua a ser certa: Ayrton jamais precisaria se dedicar a inventar este tipo de coisa para angariar fãs. Parece-me coerente e respeitoso, portanto, conceder-lhe ao menos o benefício da dúvida.

Felizmente, o GP do Japão de 1988 jamais precisou desta confirmação para se tornar uma corrida divina.


O próximo texto vai trazer o desfecho do calendário, na festiva Austrália, e falará sobre o início da temporada 1989, ano que seria muito mais turbulento dentro e fora das pistas.