Portugal e Espanha 1988: Prost cresce sob clima de mistério
Quinta-feira, 22 de Abril de 2010
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Enquanto Prost rumou para desempenhos perfeitos em Estoril e Jerez...
Por Márcio Madeira da Cunha
De longe, os GPs da Península Ibérica em 1988 foram os mais misteriosos de toda a carreira de Ayrton Senna. Tanto que mesmo vinte anos depois dos fatos, continua sendo difícil explicá-los sem recorrer a boatos, suspeitas ou achismos. E no fim, nem se pode culpar somente a imprensa, uma vez que tudo, absolutamente tudo a respeito dessas corridas, parece mesmo sugerir alguma espécie de manipulação conveniente.
O grande problema, neste caso, é que justamente os GPs nos quais Ayrton Senna apresentou os piores desempenhos de toda sua carreira, acabaram coincidindo com enormes interesses comerciais nesse sentido. Pior: uma das interessadas em questão era a própria fornecedora de motores da McLaren, de tal forma que passou a existir um sintoma misterioso, uma suspeita, e uma motivação forte.
Por fim, para aumentar a importância dessas corridas, foi nelas que pela primeira vez se manifestou o embrião da guerra entre Senna e Prost, que iria explodir definitivamente alguns meses mais tarde.
Vejamos, portanto, os fatos.
WRI
... Senna olhava o painel e não acreditava no que via: 12% a mais de consumo
Para começar, existia a matemática. Restando quatro corridas, Ayrton Senna precisava somar uma vitória e uma quarta colocação para ser o novo campeão mundial. Se fizesse isso, ainda que Prost vencesse três provas e fosse o segundo na restante, o brasileiro venceria a disputa pelo critério de desempate, que era o número de vitórias. Para o francês, portanto, tudo se resumia a vencer três corridas e torcer contra os resultados de Senna, ou vencer as quatro e não depender de ninguém. Simples assim.
Depois, temos essa nova postura assumida por Alain Prost. Muito se fala sobre a explosão da guerra Senna X Prost em Imola 1989, mas a verdade é que os dois pilotos entraram em inevitável rota de colisão a partir da silenciosa reflexão do francês, ocorrida durante as voltas iniciais do GP da Itália. Acuado e sem muito a perder, Alain encontrou-se livre para jogar sem compromissos, e a partir de então ele iria se ocupar apenas de tornar a vida de Senna a mais difícil possível.
Em condições normais seria plausível encerrar a contextualização por aqui, mas desta vez não poderemos. Afinal, o desempenho extremamente atípico de Ayrton Senna durante ambas as corridas acabou servindo de adubo para um punhado de teorias conspiratórias, desde as mais fantasiosas às mais bem fundamentadas.
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Osamu Goto, responsável pelos poderosos motores Honda, não conseguia explicar os fatos
Alguém lembrou, por exemplo, que a Honda já havia assegurado os dois títulos em jogo, e que para ela seria muito mais interessante que a decisão do campeão mundial ocorresse em Suzuka, diante de seu mercado primário e no quintal de sua fábrica. Já outros ponderaram que a Formula 1 vivia a plenitude de sua expansão financeira, impulsionada em grande parte pela excelente geração de pilotos que gerava audiências cada vez maiores. E, sob esse aspecto, duras batalhas sempre geram interesse muito maior do que hegemonias, da mesma forma como uma disputa na reta final do campeonato seria muito mais rentável do que um título conquistado com enorme antecedência, tanto mais ao custo da reputação de um dos maiores mitos da categoria.
Se tais fatores eram concretos o bastante para gerarem influência sobre os resultados, é algo que provavelmente jamais saberemos. O fato, em si, é que havia interesses cada vez maiores em jogo, e para nenhum deles seria vantajoso que Ayrton Senna conquistasse o título em cima de Prost com tamanha antecipação.
E, dito isso, finalmente é hora de voltarmos nossos olhos para o que aconteceu nas pistas.
Resumo FIA sobre o GP da Portugal de 1988 - Prost vence; Senna é o 6º
Independente do fraquíssimo rendimento apresentado por Ayrton Senna, é importante ressaltar as duas belas atuações de Alain Prost, no Estoril e em Jerez. Muito mais perto do piloto altivo que havia vencido em Paul Ricard do que do homem derrotado que havia abdicado da luta em Spa, a verdade é que Prost havia recuperado toda a motivação após seu êxito maquiavélico em Monza, como relatado no texto anterior. E, dentro de seu objetivo de desestabilizar Ayrton, é claro que a pilotagem no fio da navalha desempenhava um papel importante.
Passados tantos anos, parece evidente que Senna demorou a se dar conta dessa nova postura de seu adversário. A mudança, afinal, havia acontecido em Monza. E Senna só iria notar algo de diferente após a segunda largada em Portugal.
Ayrton terminou a sexta-feira na liderança no Estoril, apenas para ser superado no sábado por Prost. O francês demonstrava uma estranha certeza de que Senna não conseguiria bater seu tempo, a tal ponto que se dedicou a uma nova forma de provocação. Restando ainda 15 minutos para o final da sessão, ele saiu do carro, tirou o macacão, e foi para o muro do pitlane observar. E ser observado.
Paul-Henri Cahier/The Cahier Archive
Prost adotou uma postura provocadora, marcando seu tempo e tirando o macacão
Senna, de fato, não conseguiu a pole, e culpou o tráfego por isso. No entanto, o equilíbrio de seu carro também não estava nada bom, e ele sabia que teria dificuldades na corrida. Ainda assim, não deu o braço a torcer, e de forma até soberba afirmou que assumiria a ponta na largada. Se a idéia era devolver a pressão para o outro lado, Ayrton tinha então muito o que aprender com seu rival...
Soberbo ou não, o fato é que quando as luzes se apagaram Senna realmente saltou melhor do que Prost, e ambos foram dividir acirradamente a saudosa e desafiadora curva 1 do antigo traçado português. Senna, por fora, colocou a faca entre os dentes e mergulhou com tudo, assumindo a liderança numa manobra de brilho e coragem. Tudo isso apenas para descobrir que a largada havia sido anulada em virtude de um acidente no pelotão intermediário. Num estalo, Prost estava de volta à pole...
Na primeira largada Senna havia cumprido sua promessa de assumir a ponta, e agora lá estava ele novamente em segundo. A disputa pela primeira curva havia sido acirrada, e é claro que o brasileiro iria tentar novamente, da mesma forma como o francês iria se defender de maneira ainda mais contundente. O cenário para o primeiro round da guerra entre os dois estava desenhado.
Geza Sury
Irremediavelmente atacado, Senna perde a compostura e espreme Prost no muro do box...
Nova largada, e nova vantagem para Senna. As duas McLarens devoram a longa reta emparelhadas, com Prost espremendo Ayrton a ponto das extremidades dos pneus esquerdos do brasileiro ficarem sobre a grama. É a primeira vez que o francês reage dessa maneira a uma tentativa de ultrapassagem. O brasileiro, contudo, não tira o pé do fundo, e novamente mergulha por fora na tomada da curva 1.
Segunda ultrapassagem na segunda largada, e mais uma vez o capacete amarelo na liderança. Para os apressados, aquele era um filme de final já conhecido e muitas vezes visto: Senna outra vez iria se impor ao decadente bicampeão.
Bom, quem apostou nisso, ao menos naquele dia, perdeu dinheiro.
Com um carro visivelmente desequilibrado e sem potência, Ayrton foi presa fácil para um renovado Alain Prost, logo na primeira vez em que os carros voltaram a percorrer o retão. Quando passaram em frente aos pits a mais de 300 km/h, o francês já se encontrava ao lado de Senna, e então foi a vez do brasileiro responder - de maneira completamente desproporcional - ao empurrão da largada. Com gestos brutos Ayrton escancarou um súbito descontrole emocional, levando Prost para o limite da parte interna da pista, a um ponto tal que todas as equipes recolheram suas placas de comunicação do muro dos boxes.
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...mas o francês consegue espaço para tomar a liderança do brasileiro na 1ª curva
Ambos estiveram muito perto de um acidente, e Senna novamente tinha caído na armadilha do francês. Não apenas a ultrapassagem mostrou-se inevitável, como também Ayrton, no afã previsível de responder à intimidação, havia mais uma vez se colocado em posição de ser criticado.
Certamente a atitude de Senna foi decorrente de um acúmulo de tensões. Some à frustração de Monza as duras críticas que teve que escutar de toda a imprensa especializada, e considere que neste mesmo fim de semana chegavam a seus ouvidos muitos comentários extremamente perturbadores a respeito do comportamento de seu então amigo Reginaldo Leme. Além disso, ainda houve a atitude de Prost no dia anterior, seguida por mais uma saraivada de perguntas inconvenientes a respeito. Adicione a adrenalina decorrente da disputa na primeira curva, e tempere com o desconforto que o brasileiro sentia pelo simples fato de estar sendo superado. Pronto, você acabou de gerar uma resposta irracional e desproporcional.
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Capelli em uma exuberante March-Judd também aproveita para passar Ayrton, 6º no final
O restante do dia continuou sendo um verdadeiro inferno para o brasileiro. Enquanto Prost seguia firme na liderança, Senna se via fragilizado a ponto de ser superado, em plena reta, pela anêmica March-Judd de Ivan Capelli, e em seguida pela Ferrari de Gerhard Berger. O austríaco abandonaria a corrida em seguida, mas no fim isso não ajudaria muito a mudar o destino de Ayrton. Mais algumas voltas e a McLaren nº12 iria para os boxes, jogar todas as suas fichas na utilização de um novo jogo de pneus.
Resultado: Senna voltou à pista na sexta colocação, e incrivelmente se viu incapaz de ultrapassar qualquer adversário, apesar dos pneus novos. Nem mesmo a pane seca de Alboreto, na última volta, rendeu-lhe qualquer benefício. Pior: não bastasse o resultado completamente inútil dentro da lógica daquele campeonato, o brasileiro ainda teve de se explicar à direção de prova, que pela margem mínima de um voto não o desclassificou daquele GP. Justamente no mesmo instante em que Alain Prost, ostentando um sorriso mofino que traía toda a sua antecipação, fazia estragos à reputação do brasileiro durante as entrevistas coletivas...
Resumo FIA sobre o GP da Espanha de 1988 - Prost vence de novo; Senna fica em 4º
Mas antes que a crise pudesse se tornar ainda maior, lá estava o mesmo circo armado no sul da Espanha, nas dependências do autódromo de Jerez de La Frontera. E, ao menos dessa vez, apesar dos problemas de potência e equilíbrio continuarem, Ayrton iria começar a corrida na habitual pole-position, graças a um tempo apenas 6 centésimos melhor que o de Prost.
O esforço do brasileiro nos treinos, no entanto, de nada valeu. Tão logo a luz verde se acendeu, tanto Prost quanto um vivo Nigel Mansell, de Williams-Judd, deixaram-no para trás. Para Senna foi o pior dos cenários, uma vez que Alain logo tratou de sumir na liderança, enquanto ele se via limitado pelo ritmo de um carro mais lento.
Sutton Photographic
A foto é só metade do lance: Senna desgarrou na curva e Mansell aplicou-lhe o X
E as coisas não paravam de piorar. Após uma tentativa de ultrapassagem, Ayrton levou um belo “X” do inglês, e a partir de então seu rendimento caiu ainda mais. Não demorou muito para que Capelli, vivendo uma fase esplendorosa na March, repetisse a ultrapassagem que já havia feito sobre o brasileiro no Estoril, relegando Senna à quarta colocação.
Guiando num ritmo irreconhecível, Senna lia em seu computador de bordo um consumo de combustível nada menos que 12% superior ao do carro de Prost, quando até então estes dados haviam sido sempre parecidos nos dois carros da McLaren. Sem poder acelerar ele acaba sendo superado também pela Benetton-Ford de Alessandro Nannini, antes de decidir ir aos boxes fazer uma troca desesperada de pneus.
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Alain com Mansell e Nannini no podium: a decisão contra Ayrton havia sido adiada
O brasileiro retorna à pista na sétima posição, que se transforma em sexta tão logo a March de Capelli deixa o bravo italiano na mão. Mais algumas voltas e Senna consegue ultrapassar Berger, apostando todas as suas fichas numa leitura equivocada do computador de bordo. Na volta 65 Ayrton supera também a Williams de Riccardo Patrese, chegando assim à 4ª posição que tanto o interessava.
No fim do dia foi mais uma vitória de Prost, e agora tudo se resumia ao francês vencer duas corridas e ser campeão, ou Senna vencer uma e levar a taça. O momento, no entanto, era todo de Alain. A menos que voltasse imediatamente a ser competitivo, Senna não teria a menor chance.
Estava pronto o cenário para uma das corridas mais fantásticas de todos os tempos.
O próximo texto lembrará o espetacular desfecho da temporada 1988, que culminou no 1º campeonato mundial de Ayrton Senna