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Especial GP do Japão 1989

Arranque do título: Senna vence 4 GPs seguidos e joga a pressão para Prost

Quarta-feira, 03 de Fevereiro de 2010

Arquivo

Eau Rouge, Spa, 1988

Sempre na frente, a dupla da McLaren agora já se conhecia muito bem dentro da pista

Por Márcio Madeira da Cunha

A grande vitória de Alain Prost em Paul Ricard, embora consistente e respaldada em méritos, havia sido também obtida sob circunstâncias excepcionais. Afinal, Ayrton Senna tinha flagrantes problemas em seu carro, e isso pareceu um fator importante aos olhos de todos – exceto Prost, e talvez a ala mais fanática da torcida gaulesa. Ao contrário, diminuindo tal fato e se abrigando sob uma teoria conspiratória, o francês preferiu sugerir que poderia ter sido mais rápido que Senna em várias outras oportunidades, caso tivesse recebido da Honda a mesma atenção que era dedicada a seu rival.

Essas palavras, claro, chegaram aos ouvidos do brasileiro. Como Ayrton iria reagir a elas, era, em essência, a grande pergunta a ser respondida em Silverstone.

Tendo sido disputadas 7 das 16 corridas, o período em que os competidores medem forças e se estudam já havia ficado para trás. Truques, táticas surpresas, sustos ou pressões iniciais já não seriam fatores tão presentes, e a temporada entrava naquela fase de pistas neutras, íntimas de todos, onde de fato a disputa iria se decidir. Com ambos os pilotos cada vez mais ‘vacinados’ e familiarizados com as próprias diferenças de estilo, cedo ou tarde quesitos técnicos como rapidez, velocidade, consistência, e consumo de combustível iriam terminar por indicar o novo campeão mundial.

Resumo oficial da extinta FOCA sobre o chuvoso GP da Grã-Bretanha de 1988

Era a hora do combate franco, em pista, pelo qual todos haviam ansiado. E quem conseguisse se sair melhor na temporada européia estaria dando um grande passo rumo ao título.

O GP da Grã-Bretanha, etapa seguinte daquele mundial, não poderia ser mais próximo do GP francês em termos cronológicos: apenas uma semana depois. Já em relação à meteorologia, as duas provas não poderiam ser mais distantes. Afinal, depois de uma corrida sob sol escaldante em território francês, um verdadeiro dilúvio aguardava os pilotos na ilha da rainha.

Nos treinos, ainda com pista seca, uma grande surpresa: a primeira fila seria composta pelas duas Ferraris, com Gerhard Berger à frente de Michele Alboreto, seguidos por Senna e Prost. Acredite: ao longo de todos os 32 GPs disputados entre 1988 e 89, esta foi a única vez em que Ayrton não alinhou na 1ª fila.

Pascal Rondeau/Allsport

Senna da Silvastone

Ayrton venceu a prova em 'Silvastone' e já era o piloto-barbada em pista molhada

Silverstone a esta altura era uma pista rapidíssima, cheia de curvas de alta velocidade e com uma drenagem nada espetacular. O tipo de lugar onde você certamente não gostaria de pilotar um Fórmula 1 num dia de muita chuva. E como choveu naquele dia! De uma hora para a outra, as cartas voltavam a ser embaralhadas, e toda a vantagem da McLaren havia desaparecido. Aquela seria um prova de pilotos, e é o desempenho de Prost que serve de referência em relação aos méritos de Senna. Afinal, seria preciso um rendimento fabuloso para que o trabalho do piloto pudesse ganhar destaque mesmo ao volante de um carro tão fantástico. Senna definitivamente atingiu tal patamar naquele dia.

Dada a largada Prost partiu muito mal, perdendo diversas posições. Senna, ao contrário, começou arrasador como sempre, e logo roubou a segunda colocação de Alboreto. Berger, porém, andava num ritmo muito forte, e Ayrton mostrou amadurecimento para apenas comboiá-lo no início da prova. As cicatrizes de Mônaco aos poucos iam revelando um novo piloto.

Apenas a partir da 10ª volta Senna começa verdadeiramente a apertar Gerhard, muito mais porque o austríaco já se encontrava em déficit com o consumo de combustível do sedento Ferrari, do que por um aumento significativo no ritmo do brasileiro. Ainda assim, fato é que ao abrirem a 14ª volta o McLaren nº 12 já se encontrava em condições de assumir a liderança, enquanto uma fila de retardatários surgia à frente de Berger. Entre eles, por incrível que pareça, estava Alain Prost.

Sutton Photographic

Senna e Mansell

Mansell, 2º, fez linda prova e dividiu uma eufórica guerra de champagne com Senna

O francês vinha fazendo uma corrida miserável. Completou a primeira volta em 11º, e na sexta já era o 15º. Marcou apenas a 22ª melhor volta do dia, 4s mais lenta que a melhor passagem de Nigel Mansell (que fazia bela exibição com a raquítica Williams-Judd), até que deliberadamente decidiu encostar o carro e abandonar. A rigor, num campeonato como aquele, no qual apenas os 11 melhores resultados seriam computados, qualquer resultado que não fosse 1º ou 2º de nada valeria para ele ou Ayrton. Ainda assim, sua atitude não deixa de revelar muito de sua objetiva personalidade.

Antes de abandonar, porém, Prost teve que passar pelo constrangimento de dar passagem a Berger e Senna. Para piorar a situação, Senna escolheu justamente este momento para dar o bote e assumir a liderança. Na manobra, aliás, o brasileiro retardou a freada a um ponto tal, que por muito pouco que não houve um choque contra a McLaren de Prost. Felizmente o francês estava atento, e fez de tudo para evitar essa situação insólita - que para ele seria até bastante interessante. A rivalidade entre ambos, porém, ainda não havia chegado a este tipo de extremo...

A partir de então a corrida foi uma verdadeira aula de consistência por parte de Ayrton Senna, sempre virando tempos muito fortes, mas sem jamais forçar além de limites desnecessários. Prova maior disso foi que o brasileiro chegou a abrir uma enorme vantagem em relação aos adversários, sendo que sua melhor volta foi apenas a quarta mais veloz daquele dia, atrás de Mansell, Nelson Piquet e Derek Warwick.

Resumo oficial da FOCA sobre o igualmente chuvoso GP da Alemanha de 1988

Importante notar também que o GP em Silverstone foi o primeiro a ser disputado sob chuva, desde a emblemática vitória do mesmo Senna no Estoril, três anos antes. Psicologicamente, mesmo diante de um intervalo tão grande entre GPs úmidos, o brasileiro ganhava mais um importante território. Após atuações tão fantásticas, cada vez que nuvens escuras surgiam no horizonte, todos sabiam quem era o homem a ser batido.

E, para sorte de Ayrton – e azar de Prost –, também iria chover em Hockenheim.

Ok, não estamos falando de tanta água quanto em Silverstone, nem tampouco a pista alemã poderia ser considerada tão seletiva quanto sua vizinha britânica. Mas, ainda assim, tratava-se de uma vantagem teórica importante para o piloto brasileiro.

De volta à pole, Senna mais uma vez partiu bem, enquanto Prost perdeu posições para Berger e Alessandro Nannini. Quando o francês finalmente reassumiu o segundo posto, na altura da volta 12, já estava mais de 11 segundos atrasado. Para piorar, Prost ainda deu uma rodada quando tentava se aproximar de Ayrton, já perto do fim da prova. Resultado: mais uma vitória tranquila para o brasileiro, que pela primeira vez superava o rival em número de triunfos (5 a 4). Na tabela de pontos, no entanto, Prost ainda liderava pela pequena margem de três pontos.

Arquivo

Senna em Hockenheim

Outra tarde chuvosa, outra vitória de Ayrton - agora em Hockenheim

Na Hungria, os dois iriam para o desempate.

Após duas provas com chuva, o circo chegava à única pista do ano na qual a expectativa era a de que os carros aspirados devessem andar na frente dos turbinados - ou, mais especificamente, das McLaren. Um cenário inusitado, que acabou servindo para que os diferentes perfis de Senna e Prost pudessem se manifestar como em nenhum outro lugar, resultando numa das melhores corridas daquela década.

Nos treinos, um resultado significativo: Senna obtém uma pole incrível, na raça, colocando cinco carros aspirados entre ele e Prost. Ficava claro que o fator de desequilíbrio havia sido a velocidade do brasileiro, e não a vantagem de equipamento que existia no restante do calendário. Sabendo disso, Prost focou-se totalmente no acerto para a corrida, ciente de que se as McLarens não eram os carros mais rápidos em pista, ao menos continuavam sendo os mais velozes ao fim da reta. Em condições normais, ele não deveria ter problemas para superar os carros à sua frente.

Eis a história daquele GP, até a volta 47: Ayrton na frente, segurando o pelotão, enquanto Prost, com um ritmo mais forte do que o do brasileiro, usava a potência do Honda para superar um a um seus adversários. Na volta 47, então, aconteceu o inevitável encontro entre ascendentes e descendentes. Prost finalmente havia alcançado Senna.

Sutton Photographic

Largada em Hungaroring

Na largada em Hungaroring, Senna manteve a ponta; Prost caiu de 7º para 10º...

Era muito grande o número de retardatários a esta altura, acrescentando altas doses de tensão ao momento. Ao final da 48ª volta Senna se viu preso no miolo atrás do Coloni de Gabriele Tarquini e da Lola de Yannick Dalmas. Prost viu no pesado tráfego a oportunidade de fazer a ultrapassagem, da mesma forma que havia feito em Paul Ricard. Havia chegado o grande clímax da corrida.

Senna, desesperado, tenta ultrapassar Tarquini antes de entrar na reta, mas é empurrado em direção à entrada dos boxes e é obrigado a recolher, prejudicando toda a sua entrada de reta. Prost, logo atrás, dá uma verdadeira aula de como se deve preparar uma grande ultrapassagem. Os quatro carros entram colados na reta, com o francês nitidamente tracionando melhor do que todos os outros. Para Senna e Prost é pressão máxima no turbo, mas o francês conta ainda com a preciosa ajuda do vácuo do brasileiro. Senna sai do vácuo de Tarquini, no mesmo instante em que o italiano ultrapassa Dalmas. Por um instante os três carros ficam lado a lado, com Prost seguindo a mesma linha de Ayrton, pouco mais de um metro atrás. Senna então deixa o espaço exato para que o francês mergulhe por dentro, talvez por se lembrar do que Piquet havia feito por fora dois anos antes naquela mesma curva.

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Chegada em Hungaroring

... mas ambos estariam colados na chegada, separados por alguns metros

Prost aceita a oferta e atrasa a freada, assumindo a liderança por alguns instantes. Todavia, o traçado que Ayrton havia permitido era extremamente fechado, e o francês acaba alargando um pouco a trajetória. Não foi uma espalhada crítica, como na primeira tentativa de Piquet em 86, e sim apenas uma curva 'embarrigada'. Senna, porém, não quer nem saber e mergulha com o McLaren por dentro, seu bico passando a milímetros do pneu traseiro direito do francês. Um momento de puro brilho, assinado por dois gênios do esporte.

A partir de então Senna tocou para a vitória, enquanto Prost cruzou a linha de chegada a menos de 1 segundo de distância. A melhor volta, claro, foi do francês. Tratou-se, portanto, de uma corrida completa. Duas estratégias diferentes, dois andamentos distintos. O encontro, o choque, a batalha e o desfecho. O descendente havia batido o ascendente num momento de decisão, e Ayrton conseguia assim sua terceira vitória consecutiva no ano. A quinta nas últimas seis corridas.

De Hungaroring para Spa, onde Senna mais uma vez marcou a pole, com 4 décimos de vantagem em relação ao seu companheiro de equipe. E para aumentar o desconforto do francês, o brasileiro falou sem inibição aos jornalistas que poderia ter sido ainda bem mais rápido, caso a sessão não tivesse sido interrompida com o acidente sofrido por Tarquini. Prost, de repente, tinha que passar por este tipo de constrangimento.

Resumo FOCA do GP da Bélgica de 1988 - quarta conquista seguida de Senna

A cabeça do francês andava a mil, buscando de todas as formas encontrar um modo de bater o rival. Em sua carreira aquela era uma situação totalmente nova, à qual ele não estava nem um pouco habituado. Talvez por isso, Prost tenha decidido alterar radicalmente o acerto aerodinâmico de seu carro instantes antes da largada, diminuindo o ângulo dos aerofólios. Muito mais do que uma decisão técnica, aquela era uma atitude um tanto desesperada. Alain havia entendido que precisaria aumentar o risco de suas apostas, e já não lhe interessava mais correr com as mesmas configurações do brasileiro. O jogo ficava cada vez mais complexo.

Dada a luz verde, Alain joga todas as suas fichas numa largada arriscada, e contorna a Source na liderança. Um pacto entre os dois pilotos estipulava que não houvesse disputa direta na primeira curva, e assim foi feito. Contornado o grampo inicial, contudo, os dois Mclaren mergulham cegamente em direção ao trecho mais espetacular de todo o calendário, com Senna poucos metros atrás de Prost. O traçado de ambos é nitidamente diferente, com o brasileiro lançando mão de toda sua insana velocidade para sair da curva já emparelhado com o rival. Foi uma verdadeira aula de pilotagem, percorrer a curva mais desafiadora do circuito, em meio à turbulência, com toda aquela agressividade. Os carros sobem lado a lado em direção à Les Combes, mas a curva é de Ayrton.

Pascal Rondeau/Allsport

Ayrton em Spa

Ayrton se mandou em Spa, vencendo com margem de 30s para Prost

A partir de então, Senna dá uma impressionante demonstração de força e regularidade. Sua melhor volta na corrida foi na casa de 2min01s0, na 18ª passagem. Teria sido a melhor volta da prova, caso Gerhard Berger não tivesse enfrentado problemas com a Ferrari e retornado à pista apenas para fazer uma volta descompromissadamente rápida. Talvez, quem sabe, uma homenagem a Enzo, falecido dias antes da corrida. Mas o fato é que Ayrton gira em 11 das 20 primeiras voltas na casa de 2min01s, apesar da largada e do ritmo lento das voltas iniciais, construindo aí sua quarta vitória consecutiva. Nitidamente o acerto aerodinâmico de Prost não havia vingado, de forma que o francês limita-se a fazer uma corrida burocrática para terminar em segundo. Ao sair do carro é taxativo: "Ayrton será campeão mundial este ano. Ele está melhor do que eu e merece. Prefiro assim, de forma direta, do que ter que ganhar corridas contando com a sorte, como em Mônaco".

E então, Prost estava realmente jogando a toalha, ou apenas avisando que a partir de agora já não tinha mais nada a perder? Ou, quem sabe, não estaria ainda testando a força dos ombros de Ayrton Senna, colocando sobre eles toda a pressão de lutar pelo campeonato? Impossível saber ao certo, mas o fato é que após a Bélgica o campeonato irá virar novamente a favor do francês, elevando a tensão a níveis estratosféricos até o desfecho dramático no Japão.

Senna, ao menos, havia aproveitado de maneira soberba a fase central da temporada, emendando quatro vitórias seguidas justamente nas corridas em que condições externas haviam posto por terra grande parte da vantagem do MP4/4 sobre a concorrência. Diante dos obstáculos que teria pela frente, a vantagem acumulada nesta fase acabou sendo decisiva para o desfecho daquele campeonato.


Nossa próxima parada é relembrar o GP da Itália, segunda grande aula do professor Prost no ano.