Barcelona 1991: Ser superado doía muito mais em Senna, como nessa batalha com Mansell
Dando continuidade às comemorações do cinquentenário de nascimento de Ayrton Senna, confira a segunda e última parte deste especial do UV que ajuda a desvendar um pouco deste que foi uma das personalidades mais fortes e emblemáticas de toda a secular História do esporte a motor.
Confira aqui a primeira parte deste especial Senna 50 anos
Retomamos nosso texto falando dos pontos fracos de Senna. É claro que ele os tinha também. A questão, no entanto, é que até mesmo neles, Ayrton tinha a propriedade de ser inspirador.
Obsessivo declarado pela vitória, o tricampeão acabava sendo um competidor extremamente previsível – especialmente nos primeiros anos de sua passagem na F1. Quantas vezes, por conta disso, Senna acabou mordendo as iscas jogadas por Alain Prost durante 1988 e 1989, simplesmente por ser incapaz de planejar uma corrida considerando qualquer situação que não passasse por sua liderança de ponta a ponta?
Sutton Photographic
Estoril 1985: 1ª vitória em estilo inconfundível - pole e comando do GP de ponta a ponta
Contudo, como crucificar Senna por este seu calcanhar de Aquiles, quando foi justamente esta sua característica incontrolável que permitiu que tivessem lugar algumas das mais espetaculares e intensas batalhas já vistas no esporte a motor?
Sim, Senna era previsível. Enquanto Prost, Stewart, Emerson, e mesmo Piquet, poderiam ponderar o valor de colocações intermediárias dentro do contexto de um campeonato mundial, Senna era completamente incapaz de fazê-lo. Se ao fim da prova ele estivesse atrás, e houvesse apenas uma chance retórica de lutar pela vitória – ou por uma posição melhor, que seja – todos sabiam que ele iria tentar. Era simplesmente mais forte do que ele.
Ao fim de 1989, no entanto, Senna pagou um alto preço por este tipo de postura, e a partir de então passou a lutar bravamente contra os próprios instintos no sentido de tornar-se um pouco mais racional. Contudo, o salto para este estágio, em seu caso, jamais teve a naturalidade que se viu em casos como Fangio ou Clark, de forma que o domínio maduro de Senna adveio de um doloroso processo de disciplina e autoconstrução.
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Suzuka 1989: perda do título em meio a uma batalha épica contra o grande rival Prost
Espremido entre razão e emoção, Senna era nitroglicerina pura – uma verdadeira força da natureza. Vítima de uma pulsão por acelerar de maneira tão insana e autodestrutiva quanto a de Gilles Villeneuve, apenas parcialmente controlada – a custa de dores visíveis – por uma obsessão vitoriosa ainda maior.
Há ainda quem afirme que Ayrton não era um acertador de carros tão bom assim, dado que seus contratos previam a regalia exclusiva de alguns meses de férias, enquanto nomes do quilate de Prost se matavam em testes na Europa. Sob este aspecto, também, a explicação acaba sendo lógica e inspiradora.
Em termos simples, Senna tirava férias porque precisava. E porque podia.
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Raridade: Ayrton testa a McLaren MP4-4B, híbrida que recebeu o 1º Honda V10 3.5 aspirado
O tricampeão, para início de conversa, sempre foi um personagem muito mais complexo que a média dos grandes pilotos da história. Não se podia dizer que ele tirava prazer das corridas, e sim da pilotagem em si, livre de pressões. Na pista, Senna era um homem se sacrificando, um obcecado se submetendo a inimagináveis pressões internas, cobrando de si mesmo uma perfeição que não existe em nossa natureza. Não surpreende, portanto, o teor de seu famoso slogan "Driven to perfection" (dirigido à perfeição). Ayrton era bem isso mesmo.
Assim, ao fim de uma temporada, Senna era uma pilha de nervos e emoções. Uma pessoa que abria mão da própria vida ao longo do ano, transformando-se numa máquina de correr. Não encontrava compromissos como Mike Hailwood, James Hunt, Niki Lauda ou Nelson Piquet. Era, na verdade, um homem pagando um alto preço por ter as ambições mais altas de todas.
Se ao fim do ano ele não tivesse um momento livre de toda esta pressão, simplesmente não poderia suportar tamanho massacre por muito tempo. E, de novo, de que vale discutir tais pontos, quando bastava que ele entrasse no carro pela primeira vez, para que seus tempos fossem imediatamente melhores do que aqueles assinalados pelos demais pilotos da equipe?
Morte no auge
DPPI
Donington 1993: Palestra especial 'Como humilhar as Williams de outro planeta'
Há quem diga também que Ayrton já não se encontrava em seu auge, quando encontrou seu destino na curva Tamburello, simplesmente porque não havia sido campeão mundial em 1992 ou 1993. No entanto, mais uma vez basta uma rápida avaliação do contexto para compreender que esta se trata apenas de mais uma falácia, ou afirmação de motivação maldosa.
A rigor, a temporada de 1993 havia sido - de longe - a melhor de sua carreira, e ao longo dos dois últimos anos ele havia vencido nada menos que 8 corridas contra as imbatíveis Williams-Renault de 1992 e 1993 – pilotadas por blockbusters como Nigel Mansell e Alain Prost, não custa lembrar.
Além disso, Ayrton marcou a pole-position nas últimas quatro corridas que disputou - uma delas numa McLaren-Ford extremamente inferiorizada – fala-se em até 80 hp de déficit em relação às Williams-Renault. E em condições iguais, colocou uma volta sobre seu companheiro de equipe Damon Hill em Interlagos 1994, antes de rodar na perseguição à Benetton adulterada de Schumacher. Uma volta com equipamento idêntico!
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Interlagos 1994: enquanto batalhava contra Schumacher, Senna virava 1,5s melhor que Hill
E o futuro campeão de 1996 Hill, nunca é demais lembrar, perdeu o título de 1994 por apenas 1 ponto, em uma decisão extremamente polêmica nas ruas de Adelaide...
Muito ao contrário, na verdade, existem razões muito consistentes para se acreditar que o brasileiro morreu às vésperas do momento mais brilhante de sua carreira. Afinal, sendo reconhecidamente o piloto mais veloz do grid, Senna deveria ser o maior beneficiado pela introdução dos reabastecimentos, que tornavam as provas muito mais simples. A partir de 1994, o piloto precisava apenas preocupar-se em guiar o mais rápido que pudesse, e o melhor termômetro do desempenho do tricampeão reside justamente em sua diferença abissal para Hill em Interlagos.
Ademais, se o critério for exclusivamente se aposentar sendo campeão, então teríamos dizer que Prost se aposentou no auge. E este jamais foi o caso.
Legado
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Monza 1990: após vitória espetacular, o reconhecimento dos tiffosi com bandeiras brasileiras
Dimensionar o legado de Ayrton Senna, tantos anos após sua passagem, é algo muito complexo em si mesmo. Afinal, os ecos de sua existência ainda são escutados tanto na inspiração de exemplos de determinação e superação, quanto em questões um pouco mais concretas, através da mastodôntica atuação do Instituto que leva seu nome.
É no mínimo revelador, portanto, que tantos jornalistas ou ‘especialistas’ gastem tanto tempo criticando as motivações do Instituto, afirmando que tudo não passou de uma calculada e bem sucedida empreitada publicitária.
Ora, mais uma vez, contra fatos não há argumentos. Enquanto os abutres especulam sobre hipocrisia, o Instituto age maciçamente e presta auxílio a um número inacreditável de crianças carentes em todo o território nacional.
Para outros, no entanto, este nem é o maior legado do campeão. O mestre em geografia Charles Albert, entusiasta de longa data do esporte a motor e fã assumido de Nelson Piquet e Gilles Villeneuve, sintetizou esta linha de opinião à perfeição.
Pascal Rondeau/Allsport
Monte Carlo 1992: Ayrton segura um leão atrás de si para ser novamente triunfante
“Acho que, encantando o mundo numa equipe pequena, recolocando - pela última vez - a Lotus no caminho da vitória, chegando numa equipe maior, conquistando-a e derrotando simplesmente o maior do mundo à época e um dos maiores da história automobilística, Ayrton Senna da Silva deixou em cada curva, pole, vitória e derrota o maior legado possível para um país como o nosso: a mensagem de lutar para vencer!”, disse.
“Deixando de lado essa maldita síndrome brasileira dos ‘tadinhos’ e dos ‘humildes’, Senna mostrou que somos capazes de vencer sem precisar de bolsa-família. Que se pode trabalhar numa transnacional mesmo tendo nascido numa favela, e que o Brasil não é somente o país do futebol. Senna trouxe dignidade ao Brasil. Muito além do que as vitórias no terreno esportivo, ele estabeleceu claramente o recado dado há pouco por Obama: Nós podemos!”, encerrou Albert.
É verdade. Se alguém, no Brasil, se dedicou a transmitir essa mensagem de maneira convincente, este alguém foi Ayrton Senna da Silva. E este fato, por si só, é muito maior e mais importante do que qualquer especulação a respeito de suas reais motivações de bastidores.
Os frutos e os resultados falam por si mesmos.