Análises | Senna 50 anos

Ayrton Senna:
50 anos de um Mito – Parte 1

Segunda-feira, 22 de Março de 2009, 23:32

DPPI

Senna no kart

Europa, fim dos anos 70: um capacete amarelo que mudaria o mundo da Formula 1

Márcio Madeira da Cunha

Nas comemorações do cinquentenário de nascimento de Ayrton Senna, o ULTIMAVOLTA.com preparou um especial, em duas partes, que ajudam a refletir sobre o homem e o piloto. Igualmente ajuda a desvendar um pouco deste que foi uma das personalidades mais fortes e emblemáticas de toda a secular História do esporte a motor.

Confira aqui a segunda parte deste especial Senna 50 anos


Um inconfundível capacete amarelo; um punho cerrado no ar; uma bandeira levada desde a pista ao alto do pódio. Lotus preta e dourada; Mônaco; chuva; McLaren vermelha e branca. Gritos embargados no rádio; tema da vitória; experiências na fronteira da humanidade e – quiçá –, da espiritualidade; e um talento impossível de se controlar. Uma obsessão patológica; uma simplicidade complexa de quem já não conseguia tirar prazer daquilo que dava sentido à sua própria existência - quase como se estivesse amaldiçoado a vencer. Um olhar triste no vazio, a despeito de ter conquistado tudo que poderia almejar. Um mito de carne e osso, destinado a ampliar e deslumbrar todo um universo esportivo. E, por fim, um personagem escolhido pelo show da vida, marco de toda uma geração, tombado numa morte brutal e cinematográfica transmitida ao vivo para o mundo inteiro.

Ayrton Senna da Silva foi tudo isso. E muito mais.

A data

Allsport UK

Aniversário 1986

Jacarepaguá 1986: Aniversário de 26 anos no treino de 6ª feira com a Lotus-Renault 98T

Dia 21 de março de 2010, domingo. Se estivesse vivo, Ayrton Senna estaria soprando 50 velhinhas, sabe Deus com quantos títulos, quantas vitórias e – Jesus! – quantas pole-positions no currículo.

Talvez tivesse rugas no rosto, quem sabe o cabelo estaria mais ralo. Certamente seria um empresário de sucesso, e também com toda a certeza nosso automobilismo viveria dias completamente diferentes, contando com sua influência. Pergunto-me ainda quantas atuações fantásticas deixamos de ver, quantas disputas. Que capítulos surreais teria ele escrito na história do automobilismo, ou de que forma iria lidar com o fim de sua carreira.

A verdade é que Senna se foi cedo demais, como se vão algumas pessoas cujas histórias se revelam demasiadamente intensas para este mundo.

Mais que uma simples homenagem à sua memória, portanto, este texto é também um ato de solidariedade a todos os que sim, se permitiram curtir suas vitórias e seu exemplo. Todos os que admiraram sua condução espetacular, ou todos os que sentiram satisfação ao ver a bandeira nacional ostentada com tanto orgulho. E, acima de tudo, todos os que sentiram profundamente a sua morte prematura, e tudo o que ele foi impedido de fazer pelo esporte que amamos.

A questão da isenção

Ian Kenins/AFP/Getty Images

Senna, Adelaide '93

Adelaide 1993: na 41ª e última vitória, a bandeira brasileira a bordo da McLaren-Ford MP4-8

Existe um problema fundamental quando se fala de Ayrton Senna, especialmente aqui no Brasil, que é a questão da isenção. Afinal, Ayrton foi de fato um excelente personagem midiático, evidentemente explorado pela ‘mídia oficial’. Isso, juntamente com a exuberância de suas atuações, e mesmo sua morte traumática transmitida ao vivo, acabou por gerar sim um determinado perfil de fã mais radical – e eventualmente menos informado.

Contudo, seria extremamente injusto e parcial parar a análise aqui, quando a paixão nas análises permeia também – e em proporções idênticas – grande parte da mídia especializada e dos doutores de plantão. Pessoas que rotulam os fãs pejorativamente como ‘viúvas’, e que não se inibem em afirmar que Senna foi apenas mais um bom piloto, cuja imagem mítica foi construída simplesmente sobre doses maciças de marketing e hipocrisia.

A verdade certamente se situa entre um e outro extremo, na forma de um piloto excepcional, absolutamente brilhante, que adotou posturas de forte teor popular, fossem elas legítimas ou ensaiadas. Acima de tudo, é importante ter em vista que estamos falando de um ser humano como outro qualquer, dotado de defeitos e virtudes, e capaz de errar e acertar. E se é verdade que contra fatos não há argumentos, então pouco importa saber se ele pegava a bandeira com orgulho verdadeiro ou uma frieza calculada. O fato é que ela estava lá, no alto, e ele não precisava fazer nada daquilo, guiando como guiava.

DPPI

Senna, Suzuka 1988

Suzuka 1988: título mundial com a MP4-4 e a visão do Todo-Poderoso em plena corrida

Da mesma forma como não precisaria inventar que teve uma visão mística em Suzuka, ou não precisaria criar um Instituto que apoiasse de 12 milhões (!) de crianças em 15 anos. Por fim, não cabe qualquer hipótese séria a respeito da influência definitiva da mídia nacional na formação de sua imagem, quando repetidas pesquisas mundiais destacam o caráter internacional de sua condição de ídolo.

Ainda hoje, sempre que um jornalista brasileiro defende os feitos de Senna, logo alguma voz nacional se levanta para afirmar que se trata de um fanático mal informado, ou então que somos todos suspeitos, e, por isso mesmo, tendenciosos. No entanto, talvez seja justo afirmar que em nenhum lugar do mundo Ayrton foi tão questionado quanto em sua própria terra. Uma característica de todas as personalidades de destaque, aliás, desde os tempos bíblicos.

O fato é que durante toda a sua carreira – de modo muito especial no Brasil – Ayrton foi julgado segundo parâmetros muito mais altos do que qualquer outro piloto. E geralmente também com muito mais má vontade. Algumas de suas atuações, inclusive, são criticadas por razões absurdas, simplesmente por terem sido dele.

DPPI

Senna, Monza 1985

Monza 1985: Pole 'foguete' com a Lotus-Renault 97T e uma Vespa de presente pelo feito

Grande exemplo disso é a forma parcial como são avaliadas suas 41 vitórias, diante de suas 65 pole-positions. Para os críticos mais apaixonados, estes números representariam a prova cabal de como o brasileiro teria sido bom em treinos, e não tão bom ao longo da duração dos GPS. Ignoram, para tanto, fatores decisivos como as baixas margens de confiabilidade mecânica da época, bem como o prejuízo representado pelos beberrões motores Renault, em tempos nos quais era proibido reabastecer.

Outro exemplo, igualmente famoso, é o legendário GP de Mônaco de 1984. Para os perseguidores – que seguindo a analogia das ‘viúvas’ poderiam muito bem ser chamados de ‘abutres’ – Ayrton fez naquele dia uma prova medíocre, se comparada à do alemão Stefan Bellof, da Tyrrell. Para tanto, no entanto, estes mesmos defensores da imparcialidade ignoram maldosamente que Bellof guiava o único carro aspirado daquele grid (muitíssimo mais dócil naquelas condições), e, mais importante ainda, seu bólido estava totalmente fora do regulamento, muito abaixo do peso mínimo regulamentar.

XPB

Senna, Monte Carlo 1984

Monte Carlo 1984: no 1º GP sob chuva, 'quase-vitória' com a bruta Toleman-Hart TG184

Por mais que o piloto germânico fosse brilhante e igualmente tenha privado o automobilismo de atuações fantásticas ao falecer precocemente, parece muito claro que a condução de Ayrton à frente de um Toleman equipado com o temperamental motor Hart turbo terá sido ainda mais impressionante.

O ponto importante, no entanto, é que se fosse o carro de Senna a estar fora do regulamento, então este fato certamente seria lembrado com a mesma freqüência com que os críticos desmerecem o título de 1988, obtido por Ayrton através da regra dos melhores resultados, ou ‘descartes’. Como se a tal regra fosse válida apenas para o brasileiro, ou como se sua conquista tivesse sido obtida por vias irregulares...

E, no fim, qualquer piloto que tivesse tirado daquela Toleman tanto quanto Senna tirou naquela corrida, seria exaltado pela mesma mídia que tanto o persegue tendenciosamente.

Rapidez

Arquivo

Senna, Monte Carlo 1987

Monte Carlo 1987: 1ª vitória no circuito do Principado, que demanda rapidez acima da média

Tecnicamente, a maior virtude de Ayrton Senna certamente residia em sua rapidez. Se as condições de pista fossem instáveis, ou os pneus de qualificação permitissem apenas uma volta para que se pudesse buscar os limites, então seu desempenho só poderia ser comparado a Jim Clark e Juan Manuel Fangio, em toda a História da Formula 1. Milhares de cálculos que publiquei no site parceiro GP Total em 2006 numa série de artigos intitulados As 65 poles de uma vida, demonstram de forma nítida a vantagem do tricampeão brasileiro neste quesito, mesmo sobre um grande campeão como Michael Schumacher.

Confira aqui o especial "As 65 poles de uma vida" - Parte 1

Confira aqui o especial "As 65 poles de uma vida" - Parte 2

Torna-se, assim, infrutífero discutir se teria sido ele o melhor piloto de todos os tempos, ou se teria sido qualquer outro. Afinal, esta em última análise acaba sendo uma questão de foro pessoal, na medida em que a escolha sobre quais serão os quesitos avaliativos baseia-se em critérios subjetivos. Falando concretamente, Ayrton foi o piloto mais rápido que a Formula 1 viu desde a morte de Jim Clark, e a introdução dos aerofólios. Além de ter sido um dos melhores de todos os tempos em condições de pista molhada, e o melhor de todos em traçados citadinos.

Definitivamente são predicados maiúsculos, comprováveis cientificamente, que por si só dispensam exageros ou ufanismos. Da mesma forma como deveriam dispensar críticas tão passionais e injustas.

E é claro que Senna tinha, também, seus pontos fracos. A questão, no entanto, é que até mesmo neles, Ayrton tinha a propriedade de ser inspirador. Este será o assunto de abertura da segunda e última parte deste especial. Não perca!