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Análises | A mente dos projetistas
O fator humano no desenho e construção dos carros da F1 2010
Quarta-feira, 03 de Março de 2009, 21:24
AP Photo
Renault e Force India se parecem no geral, mas levam o 'feeling' de seus projetistas
Márcio Madeira da Cunha
Na busca pelo carro de F1 perfeito, os projetistas das equipes acabam por achar soluções muito semelhantes entre si e o resultado é o grid com carros tão parecidos. Nesta nova análise do UV, vamos ver que mesmo em um ambiente de altíssima tecnologia e exatidão nanométrica, ainda há espaço para que estes mesmos projetistas encontrem mais desempenho através de decisões pessoais de construção e desenho – o diferencial que os fazem ser gênios da engenharia.
Fechando uma complexa equação
Teoricamente, para cada conjunto de regras proposto, existe um carro que poderia ser considerado ideal. Sendo mais específico, o que quero dizer é que há razões para se acreditar que, dentro das limitações de cada regulamento, deve existir um modelo hipotético de carro que seja tão eficiente, mas tão eficiente, que qualquer alteração que lhe seja feita acabe necessariamente por piorar seu equilíbrio, ou sua relação entre os índices de penetração aerodinâmica e carga produzida.
Dito isso, também é natural assumir que as duas principais ferramentas utilizadas atualmente para o design de um Formula 1 – os programas de ‘Fluodinâmica Computacional’ (CFD), e os túneis de vento – correm natural e inevitavelmente rumo a este utópico carro ideal, da mesma forma como um rio corre para o mar.
Se considerarmos verdadeiras essas duas proposições, então temos nas mãos uma boa justificativa para o fato de os carros serem cada vez mais parecidos em termos visuais. Enquanto 30 anos atrás as diferenças entre os modelos passavam por aparatos extravagantes, atualmente elas residem em detalhes raramente visíveis a olhos leigos.
Reuters Pictures
Os carros atuais possuem muito mais semelhança entre si agora do que décadas atrás
O raciocínio parece perfeito, mas essa nossa equação ainda não fecha. Afinal, se é assim, então como explicar o fato de os carros ainda seguirem caminhos evolutivos paralelos, e seus desempenhos continuarem tão díspares? Por vezes, inclusive, estes desempenhos são ainda mais díspares do que em eras de grandes diferenças visuais.
A resposta para esse aparente contra-senso reside, acima de tudo, no fator humano, sintetizado na figura do projetista. Afinal, é ele quem dita os princípios norteadores de um projeto, e é de sua mente que brotarão os objetivos mais específicos do carro que se pretende construir. Pois se é verdade que uma vez no CFD e no túnel de vento um projeto deverá evoluir de maneira linear, também é verdade que a base inicial de cada projeto seguirá sendo personalizada. Ao menos enquanto a alma humana não for abolida do processo construtivo.
Bom, se nosso entendimento está no caminho certo, então temos de admitir que há muito mais do que simples matemática naquilo que um projetista deve esperar de seu carro. Afinal, se tudo se resumisse a obter a maior carga aerodinâmica com a melhor penetração, então um computador poderia executar a tarefa, e todos os carros seriam iguais. Mas afinal: o que um projetista pode querer, além deste compromisso?
Essa é, de fato, a grande pergunta a ser feita, e é nela que reside a genialidade por trás dos melhores carros.
O exemplo de Newey
Getty Images
Newey, da Red Bull, é o projetista com mais 'grife' da atual F1
Olhos mais treinados irão encontrar na última obra de Adrian Newey, a Red Bull-Renault RB6, um punhado de diretrizes únicas, que tornam este carro algo de muito especial entre seus pares, e que traduzem de forma direta muitas de suas ideias sobre carros de corridas.
Para começar, existe a questão da distribuição do downforce. Enquanto a ordem geral para esta temporada foi a de se iniciar um projeto a partir do badalado difusor duplo, e então construir à sua volta um carro capaz de alimentá-lo com o melhor fluxo de ar possível, Adrian permaneceu fiel à suas crenças de que não se deve colocar todos os ovos numa só cesta. Não basta saber quanto downforce um carro será capaz de gerar, mas também como ele irá fazer isso. Assim, cada ínfimo detalhe na superfície da Red Bull exerce uma específica função aerodinâmica, ajudando a distribuir a geração de carga de maneira muito mais uniforme.
O conceito por trás de tal abordagem é o de que os índices médios de downforce gerados por um carro são muito mais importantes, na prática, do que seus índices máximos. Afinal, detalhes como o ângulo de direção dos pneus dianteiros, variações de altura em curvas ou frenagens, turbulência gerada por outro carro, ou ângulo de ataque do fluxo de ar em meio a uma curva, estão sempre exercendo enorme impacto sobre o downforce produzido por um F1.
Getty Images
A cria de Newey possui detalhes próprios, como a suspensão traseira de braços invertidos
Por isso, para Adrian Newey é mais importante que seu modelo consiga gerar índices constantes de carga aerodinâmica em condições de uso, do que altos picos isolados sob condições ideais. O projetista acredita – e seus resultados comprovam sua razão – que quanto mais uniforme for a carga aerodinâmica gerada por um carro, mais o piloto irá se sentir seguro para andar sempre no limite.
O resultado desta abordagem, por conseguinte, se manifesta muito mais em situações de dirigibilidade geral do que em índices matemáticos máximos. No caso do RB6, por exemplo, Adrian foi capaz de atingir números tão bons quanto os dos melhores concorrentes, com a vantagem de trabalhar com um segundo difusor bastante reduzido em relação àquele projetado pelos outros times.
Mas então, por que ele não ampliou estes já bons números, trabalhando também com um segundo difusor de grandes proporções?
A rigor, trata-se de uma opção autoral, baseada em crenças que um computador não seria capaz de processar. Em vez de se deter no projeto de um segundo difusor de maiores dimensões, Newey preferiu utilizar o espaço economizado para montar sua suspensão traseira com tirante de tração (pull rod), posicionado de maneira invertida, baixando com isso o centro de gravidade do carro. Uma opção que também abre excelentes perspectivas para a equipe em 2011, quando o difusor duplo estará definitivamente banido do regulamento.
Outros palpites importantes
Getty Images
As favoritas Ferrari e McLaren apostam em projetos de carros mais compridos
Esta mesma crença de Newey de que o importante são os resultados médios orientou, ainda, a definição da distância entre os eixos do novo carro da Red Bull.
Enquanto duas das equipes favoritas, Ferrari e McLaren, optaram por um distanciamento maior entre seus eixos, e a estreante Virgin – que dispensou o túnel de vento e projetou o carro exclusivamente em CFD - parece ter construído o carro mais curto do grid, Newey apostou numa distância intermediária, supostamente capaz de se adaptar razoavelmente ao maior número possível de pistas e curvas.
Por conta disso, é provável que seu carro não se destaque em praças mais radicais, como Monza ou Monte Carlo. Ainda assim, na grande maioria de pistas de média velocidade, é de se esperar que o carro sinta-se naturalmente à vontade. Uma opção perfeitamente coerente com as diretrizes gerais do carro, e com as ideias de seu criador.
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Já a estreante Virgin projetou um carro mais curto - só no CFD, sem uso de túnel de vento
Obviamente nada disso significa que a Red Bull irá vencer o mundial, nem tampouco que os demais projetos não tenham boas razões para serem como são. A questão que nos interessa aqui é que graças a cérebros como o de Adrian Newey, a Formula 1 continua a ser essencialmente uma arena de disputa de grandes ideias. Isso, apesar de todas as ferramentas de simulação e experimentação que já não permitem que se amarre cachorro com linguiça.
No fim, não deixa de ser satisfatório notar que aspectos fundamentais do projeto de algo tão complexo quanto um carro de Fórmula 1, mesmo com tantos recursos disponíveis, permaneçam completamente dependentes da criatividade e do brilhantismo humanos. Ao menos por enquanto, sutilezas como a importância e os meios de se transmitir confiança aos pilotos, ou a definição de diretrizes que fujam ao maniqueísmo matemático, seguem humanas demais para que possam ser processadas em código binário.
Por mais corrompida que possa estar, às vésperas de iniciar sua 61ª temporada, a F1 ainda é uma atividade essencialmente humana.
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