|
Análises | Treinos em Jerez
Sob clima instável e muito equilíbrio, F1 encerra testes em Jerez
Quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2009, 14:28
Reuters Pictures
Dizendo-se mais confortável no cockpit da McLaren, Button fez o melhor tempo dos 8 dias
Márcio Madeira da Cunha e Lucas Giavoni
A variação de clima no sul da Espanha ditou o ritmo de preparação das equipes para a temporada 2010 da Formula 1 nos 8 dias de testes coletivos na pista de Jerez de La Frontera, realizados entre 10 e 20 de fevereiro. As chuvas adicionaram mais uma variável ao já complexo jogo de interpretação em relação aos desempenhos individuais. Em meio a muitas ressalvas, no entanto, o cenário que se desenha a partir dos últimos dias de teste é ainda mais animador do que o originalmente previsto.
Ao todo, 11 das 13 equipes inscritas para a temporada 2010 já testaram seus carros, em geral com resultados animadores. A cada dia que passa, as independentes BMW Sauber, Force India e Toro Rosso dão mais mostras de que podem, sim, ter fôlego para ocasionalmente disputar posições com carros das atuais quatro equipes grandes (Ferrari, McLaren, Mercedes e Red Bull). Da mesma forma que Renault e Williams prometem um sólido ritmo de desenvolvimento de seus carros.
Deste modo, a temporada que já prometia ser histórica pelo número de pretendentes ao título e pela qualidade de suas respectivas reputações, pode tornar-se ainda melhor graças a uma feroz disputa também pelas posições intermediárias.
Carros novos e velhas preocupações
Reuters Pictures
Ops! A nova Red Bull RB6 vazou óleo na estreia, mas nos dias seguintes foi muito rápida
Duas equipes aproveitaram as atividades em Jerez para estrear seus novos carros: Red Bull e Lotus. Enquanto o time dos energéticos aproveitou os 8 dias, a ressuscitada equipe fundada por Colin Chapman foi para a pista apenas nos últimos 4 dias de atividades, entre 17 e 20 de fevereiro, perdendo a primeira ‘janela’, entre os dias 10 e 13.
A Red Bull, time mais competitivo do fim do ano passado, apresentou o modelo RB6 - novamente com motor Renault e Sebastian Vettel e Mark Webber como titulares. O novo carro é um refinamento do ótimo antecessor, com as mudanças ‘obrigatórias’ de tanque maior e adaptação aos novos pneus dianteiros mais estreitos. A obra é mais uma vez assinada pelo sempre competente Adrian Newey. Rob Marshall é o desenhista chefe e Peter Prodromou, que veio com Newey da McLaren em 2006, cuida da aerodinâmica.
A Lotus, marca ‘renascida’ para a F1 em apenas seis meses graças a pesados investimentos oriundos da Malásia, acelerou o modelo T127 para a dupla Jarno Trulli / Heikki Kovalainen e o reserva Fairuz Fauzi. Depois de uma cerimônia de lançamento em Londres e um shakedown secreto em Silverstone, o carro, de motor Cosworth e pintado no clássico verde britânico de corrida com detalhes em amarelo, causou ótima impressão ao completar várias voltas sem qualquer problema mecânico. O projeto é assinado por Mike Gascoyne, que volta à F1 depois de ser demitido da Spyker (atual Force India).
Reuters Pictures
A Lotus ressurge após um hiato de 15 anos nas cores usadas nos tempos de Jim Clark
De todos os times que já testaram, poucos apresentaram problemas graves de confiabilidade. Apenas a estreante Virgin aparenta ter problemas mais sérios, tanto sobre pertinentes falhas do sempre complexo sistema hidráulico quanto em relação à restrita reposição de peças. O time novato ficou um tanto limitado em condições de pista escorregadia, sob pena de sofrer algum acidente e não poder mais treinar.
A única preocupação da F1 agora é com as novatas Campos e USF1, que estão com programação muito atrasadas e nenhum carro pronto. Ambas estão com um velho e conhecido problema: falta crônica de dinheiro. A Campos, que tem o carro desenvolvido pela Dallara e Bruno Senna como piloto, acabou de ser vendida ao empresário espanhol Jose Ramon Carabante. Nesta operação, o fundador Adrian Campos deverá ceder para Colin Kolles, ex-Spyker, o cargo de diretor.
A situação da USF1 parece ser ainda mais grave. Apesar de já ter contratado o argentino José Maria ‘Pechito’ Lopez como piloto (que chegou com grande injeção de investimento publicitário), a nova equipe norte-americana já está a ponto de pedir para a FIA permissão especial para ausentar-se das primeiras provas do calendário, algo que, de acordo com o Pacto de Concórdia, acarretaria pesadas multas.
Secos e molhados
Reuters Pictures
Rosberg conseguiu liderar um dia em Jerez pela Mercedes; Schumacher não...
Após as duas semanas de atividades em Jerez, a hierarquia entre as equipes – antes tão clara na simplicidade e no tempo seco da primeira sessão em Valência – dissolveu-se em dúvidas em meio à chuva quase constante que tanto atrapalhou carros e pilotos. A rigor, poucos foram os momentos de pista efetivamente seca, levando estrategistas a focarem os trabalhos muito mais em testes de confiabilidade mecânica do que propriamente em acertos para velocidade. E com isso, vários conjuntos puderam dividir a honra de encabeçar a lista de tempos por um dia.
Primeiro foi Nico Rosberg, embalado pelas atualizações aerodinâmicas da Mercedes, na quarta-feira, dia 10. O alemão fez o tempo mais rápido e logo depois, perto das 11h, começou uma chuva que durou a tarde inteira, com temperatura do dia na casa dos 13ºC. A sessão marcou a estreia da nova Red Bull com Mark Webber. Desta vez o australiano poderá fazer uma preparação de pré-temporada melhor que a do ano anterior, prejudicada por uma perna fraturada em um acidente de bicicleta em dezembro de 2008. Não foi um bom début: um vazamento de óleo causou a interrupção da sessão.
Reuters Pictures
Kobayashi aproveitou bem o sol do dia 11 e foi o mais rápido daquele dia com a Sauber
Já na quinta-feira (11), com pista ‘lavada’, mas sempre seca, foi a vez de Kamui Kobayashi levar a surpreendente Sauber ao topo da tabela em sua última volta rápida, quebrando, pela primeira vez, a barreira de 1min20s nos testes este ano no traçado de Jerez. Ele roubou o topo da tabela da Toro Rosso de Buemi, que esteve à frente por boa parte do tempo. A temperatura ambiente bateu a casa dos 15ºC e a máxima do asfalto foi de notáveis 34ºC. O tempo estava tão bom que Fernando Alonso deu nada menos que 129 com a Ferrari.
Na sexta-feira (12) voltou a chover forte – e justamente perto das 11h. Com os melhores tempos marcados apenas na primeira hora de atividades, em temperatura de 8ºC, quem surpreendeu foi a Toro Rosso de Jaime Alguersuari, confirmando as boas expectativas em torno do primeiro projeto assinado pela equipe, que de acordo com as regras 2010 não pode mais ser ‘cliente’ da Red Bull.
O encerramento do primeiro turno de atividades na pista andaluz teve chuva no início e ‘calor’ máximo de 12ºC. A pista, o entanto, ficou completamente seca no fim da tarde. Lewis Hamilton, com sua habitual vontade de ir até o limite e às vezes além disso, levou a McLaren à liderança, assinalando, no processo, o melhor tempo de toda a semana (1:19.583).
Reuters Pictures
Hamilton ficou com a melhor marca dos primeiros 4 dias, em tempo assinalado dia 13
Segunda rodada prejudicada
Apenas quatro dias mais tarde, e com o levantamento de informações drasticamente prejudicado pela instabilidade meteorológica, carros praticamente idênticos voltaram a acelerar em Jerez. Entre atualizações e estreias, a grande novidade era a primeira participação coletiva da Lotus, devidamente decorada com o tradicional British Racing Green.
Pelas mãos do malaio Fairuz Fauzi, piloto reserva da equipe, o modelo T127 mostrou robustez ao completar 79 voltas sem enfrentar qualquer problema sério. Os tempos em si não foram competitivos, e nem poderiam ser, uma vez que a assistência de direção ainda não havia sido instalada, tornando o volante proibitivamente pesado. Ainda assim, um resultado bastante animador para um grupo que pretende resgatar uma das páginas mais ilustres na história do automobilismo.
Getty Images
A Renault não liderou a tabela, mas foi o time que menos problemas mecânicos enfrentou
Enquanto isso, no outro extremo da tabela de tempos, surgiu pela primeira vez um dos conjuntos mais bem cotados para a conquista do mundial: Sebastian Vettel, ao volante do novo Red Bull. Em meio a grandes variações climáticas (que a McLaren classificou como “bastante horrível” em release para a imprensa), o jovem prodígio alemão quem andou mais rápido durante a quarta-feira (17), confirmando o já esperado potencial do novo bólido.
Na quinta-feira (18) o clima de Jerez foi o teste final de paciência para todos os presentes no autódromo. Se antes equipes e pilotos puderam sempre contar com algum momento do dia em piso seco ou quase isso, desta vez o que ocorreu foi chuva por todo o dia de trabalho – e com vento forte, só pra dificultar ainda mais.
Getty Images
Rubinho mandou bem na chuva do dia 18 com a Williams; ao fundo, Glock e a Virgin
E debaixo d’água, quem deu as cartas foi o veteraníssimo Rubens Barrichello, ao volante do radical Williams FW32. Para o brasileiro, nada melhor do que esta boa marca para dissipar as crescentes dúvidas sobre a velocidade do novo carro, especialmente após alguns dias nos quais pequenos problemas impediram que o time aproveitasse os momentos de pista mais rápida.
Este foi o dia em que ocorreu o único acidente: Heikki Kovalanen, em seu primeiro dia na ativa pela Lotus, bateu na curva 3 após o que ele chamou de ‘pequeno erro’ e obrigou o time a encerrar as atividades até que peças sobressalentes chegasse no dia seguinte. O finlandês não poderia ter começado pior em sua nova casa.
A chuva insuportável duraria até a manhã de sexta-feira (19). Mas o sol finalmente deu as caras antes mesmo do meio-dia e equipes pegaram pista seca na maior parte do tempo, em temperaturas que chegaram a agradáveis 14ºC. Mas como nem tudo é perfeito, ventos fortes desafiavam a estabilidade dos carros – sobretudo os de maiores barbatanas dorsais acima do motor. O melhor tempo acabou nas mãos da Red Bull mais uma vez, agora com Mark Webber.
Getty Images
Kovalainen foi autor do único acidente em Jerez, ao estragar sua nova Lotus no dia 18
O encerramento de atividades no sábado (20) teve novamente uma pista favorável, com alguns chuviscos ocasionais. Ainda assim foi o dia com meteorologia mais consistente. Jenson Button acertou, ainda na parte da manhã em treinos de ‘tiro curto’, uma volta na casa de 1min18s, sendo o único a andar nesta casa durante as duas semanas.
Conclusão
Com apenas 2 dias de pista majoritariamente seca, pilotos lamentaram por tanta água e times dispararam críticas pela escolha da FIA por Jerez para metade dos testes de pré-temporada, uma vez que a meteorologia já previa com muita antecedência chuvas no local. Ao fim, tivemos 8 dias de atividades liderados, respectivamente, por 6 carros e 8 pilotos diferentes.
A pré-temporada mostra um cenário no mínimo curioso, que no fim das contas pode até não significar muita coisa em termos de equilíbrio real entre as equipes. Mas que, ao menos, deixa no ar uma ótima perspectiva.
Reuters Pictures
Massa andou muito com a Ferrari; só não fez mais quilometragem que o colega Alonso
Confira os tempos dos 8 dias de atividades em Jerez
Gráficos UV
Gráficos UV
A F1 terá ainda uma última rodada de testes antes da primeira corrida, em 14 de Março no Bahrein. Serão 4 dias no circuito de Barcelona (Montmelò), entre 25 e 28 de fevereiro. USF1 e Campos deverão novamente ficar de fora.
|