Mercedes confirma Schumacher e faz as pazes com a História
Quinta-feira, 24 de Dezembro de 2009, 18:55
Arquivo Mercedes-Benz
Schumacher levando um Mercedes ao limite. Cenas dos próximos capítulos...
Márcio Madeira da Cunha
E o que era esperado se confirmou. Michael Schumacher marcou o início da nova década automobilística ao retornar de sua aposentadoria trienal para assumir até 2012 o posto de 1º piloto da recém formada equipe Mercedes de Formula 1. Quase vinte anos após ter sido levado à categoria pela mesma montadora, o hoje heptacampeão mundial volta às suas origens e finalmente irá defender as cores da estrela de três pontas no pináculo do esporte a motor.
Trata-se de um momento histórico. Um feliz acerto de contas com o passado em pelo menos dois níveis distintos, envolvendo diretamente um par de nomes que cintilam entre os maiores patrimônios do esporte a motor em todos os tempos: Mercedes-Benz e Michael Schumacher. Por tudo que faz fundo para este verdadeiro encontro de titãs, a próxima temporada, antes mesmo de começar, já se tornou uma das mais importantes em todos os tempos.
Negócios inacabados
Arquivo
Time Sauber-Mercedes 1990: Schlesser, Baldi, Mass, Schumacher, Frentzen e Wendlinger
Para a Mercedes, conforme o ULTIMAVOLTA.com já analisou em seu especial sobre o retorno das Flechas de Prata, trata-se de terminar uma história iniciada em 1954, e que foi brutalmente interrompida pela tragédia em Le Mans no ano seguinte. Sob este aspecto, nada mais coerente do que entregar o primeiro carro da equipe ao maior expoente vivo da pilotagem, tal qual havia sido feito nos anos 50 com a contratação de Juan Manuel Fangio.
Na prática, trata-se de uma inusitada tradução esportiva daquilo que o catolicismo chama de ‘sucessão apostólica’. Desafiando o tempo, Schumacher terá a honra e a responsabilidade de ser o substituto direto do legendário pentacampeão argentino, após um intervalo de 55 anos. Se isso não é fazer história, então não consigo imaginar o que venha a ser.
Para Michael Schumacher, por sua vez, a parceria de três anos com a fábrica de Stuttgart também tem a propriedade de encerrar um importante ciclo pessoal. Afinal, Schumacher defendeu a Mercedes por 2 anos no extino Mundial de Marcas de esporte-protótipos e foi somente através do suporte técnico e financeiro dos prateados que ele teve a chance de estrear pela Jordan, no distante GP da Bélgica de 1991, e já no GP seguinte ser transferido para a Benetton na vaga de Roberto Pupo Moreno.
Fangio e Schumacher se encontraram no pódio do GP Brasil de 1993, vencido por Senna
A parceria entre piloto e montadora, contudo, perdeu-se no tempo e no sucesso obtido por Michael. Mais que isso, acabou ganhando contornos irônicos a partir do momento em que o piloto cuidadosamente formado e patrocinado pela fabricante se tornou justamente o maior obstáculo no caminho das vitórias de McLaren e Mercedes.
"Para mim, essa parceria fecha um ciclo", reconheceu Schumacher nesta quarta (23), através de comunicado. "A Mercedes me apoiou por muitos anos quando eu comecei minha carreira na F1, e eu posso finalmente dar algo em troca à marca com a estrela.”
"Ao longo de todos esses anos, eu nunca pude correr para eles”, completou o heptacampeão. “Agora a combinação entre Ross e a Mercedes faz com isso seja possível, e estou muito feliz em poder dar algo a eles", encerrou.
Sim, Schumacher tinha uma grande dívida com a estrela de três pontas. Agora finalmente chegou a hora de quitá-la.
Motivação
Getty Images
Michael terá a vantagem de pilotar um carro sucessor do BGP001, vencedor com Button
Uma das grandes questões a respeito da volta de Schumacher era a motivação capaz de animá-lo. Afinal, dinheiro e glória não lhe faltam, nem tampouco ele teria algo a provar. O próprio Michael compreendeu que este era um ponto nebuloso, e tratou de dar pistas de suas razões.
"Eu estava cansado e sem energia no final de 2006. Precisava de um tempo fora. Não estava pensando em voltar e nem imaginava que isso aconteceria. Me diverti em outras áreas. (...) Porém, na vida às vezes as coisas mudam muito rapidamente. Quando surgiu a chance de pilotar para a Ferrari durante o verão (no hemisfério norte), eu fiquei surpreso com a velocidade com que consegui recuperar minha forma física e minha vontade de correr”, explicou o piloto. “Porém, a razão que pesou seriamente para a minha volta (fora da Ferrari) é que recebi um pedido de velhos amigos,” revelou Schumacher.
“Havia também essa situação na qual Mercedes-Benz me deu a chance de ingressar na F1, e ao longo dos anos nunca tinha sido possível (correr para eles). Finalmente agora essa combinação de Ross (Brawn) e a Mercedes tornou possível trabalharmos juntos, e eu estou feliz por ter a chance de dar algo à Mercedes depois daqueles dias iniciais,” resumiu Michael.
Sim, não restam dúvidas de que se trata de um acerto de contas com o passado. Conjugado, é claro, com o velho desejo de correr no mais alto nível, reacendido após três anos de merecidas férias. Ah, e é claro, não podemos nos esquecer de que estamos falando também do carro que acabou de vencer o campeonato mundial...
O que esperar
Mercedes GP
Schumacher, Brawn e Mercedes-Benz: encontro de titãs na Formula 1.
“A Mercedes GP (enquanto ainda atendia pelo nome de Brawn GP) é uma equipe que venceu ambos os campeonatos este ano," lembrou Schumacher. "Com a Mercedes-Benz dando todo o suporte, nosso objetivo só pode ser lutar pelo título" - concluiu o alemão, sem rodeios ou qualquer falsa modéstia. E a história dá total respaldo a tal otimismo.
De um lado, estamos falando de uma equipe que parte de uma base vencedora, e que agora conta com todo o respaldo técnico e financeiro de uma das mais tradicionais fabricantes de automóveis em todo o mundo. A dupla passagem histórica da estrela de 3 pontas pelo universo dos Grand Prix foi marcada muito mais por domínios acachapantes do que propriamente por disputas acirradas. Ao contrário da filosofia ‘kaisen’, da Toyota, poderíamos dizer que a Mercedes segue a cartilha da ‘blitzkrieg’, ou guerra-relâmpago.
Que não fiquem dúvidas: os alemães estão entrando para dominar.
E de outro lado temos este incansável Michael Schumacher, correndo apenas por questões de motivação pessoal. Livre de pressões que não sejam as que ele mesmo se impuser, é claro que deve sim ser uma força a ser respeitada. Fisicamente o heptacampeão dá mostras de estar no melhor de sua forma, e mentalmente certamente está melhor do que nunca.
Antes dos carros irem para a pista, e do próprio Michael poder dar uma longa sequência de voltas, é ainda cedo para fazer previsões. Na essência, contudo, é certo que trata-se de uma união com potencial vencedor.
Nico Rosberg
Mercedes GP
Nico está sorrindo. Resta saber até quando...
Em meio a tudo isso, há que se considerar ainda o fator Rosberg nesta equação.
Longe de poder ser considerado genial – ao menos por enquanto –, a verdade é que o filho de Keke há muito firmou-se como um top driver na categoria, dono de um ritmo de prova muito forte e consistente. No auge da forma, Nico, quem diria, será uma ótima referência acerca do nível de desempenho obtido por Schumacher. Falando claramente, se o heptacampeão conseguir ser imediatamente mais rápido que seu jovem companheiro, então estará sendo competitivo desde o início.
Essa disputa interna, inclusive, teria tudo para ser bastante interessante, uma vez que Nico Rosberg acostumou-se a ser líder dentro da Williams, e assinou contrato com a Mercedes certo de que seria também lá o 1º piloto. No entanto, numa equipe chefiada por Ross Brawn, fica muito difícil acreditar que qualquer piloto no mundo tenha liberdade ou condições para desafiar a supremacia de Michael Schumacher.
Dificilmente será desta vez que veremos Schumacher ser desafiado dentro da própria equipe...
Retorno em meio a recordes
Arquivo
Schumacher, que estreou em 1991, vai se tornar o piloto mais longevo da F1
Para não perder o hábito, o alemão já estará quebrando um importante e muito duradouro recorde da categoria no exato momento em que as luzes vermelhas se apagarem em Sakhir. Com exatos 6776 dias separando sua longínqua estréia no GP da Bélgica de 1991 do próximo GP do Bahrein, Michael estará se tornando o piloto mais longevo a passar pela categoria máxima do automobilismo mundial. O recorde atual, que já dura nada menos que 35 anos, é de 6097 dias e pertence a Graham Hill.
Ainda falando em números, o retorno de Schumacher abre a possibilidade de que um único piloto possa atingir a incrível marca de cem vitórias. Para isso, basta que o alemão acrescente mais 9 trofeus à sua rica estante. Além disso, Michael em breve irá superar a marca de 256 largadas de Riccardo Patrese, dando lugar a uma pequena ironia histórica. Essa estatística se confirmando, ele será o 2º piloto com mais participações na categoria. Atrás somente de Rubens Barrichello.
Além desses, Michael Schumacher já possui o recorde de maior intervalo entre a 1ª e a última vitórias (14 anos, 1 mês e 1 dia, entre Bélgica 1992 e China 2006) e voltas mais rápidas (14 anos, 1 mês e 22 dias, desde Bélgica 1992 a Brasil 2006), embora perca nos quesitos pole positions (15 anos, 1 mês e 20 dias entre Bélgica 1994 e Brasil 2009) e pódios (15 anos, 4 meses e 27 dias, entre Pacífico 1994 e Itália 2009), ambos pertencentes a para Rubens Barrichello.
Ainda assim, bastará que o alemão consiga uma pole ou um pódio para também assegurar esses recordes.
Curiosidades:
Arquivo
Michael dividiu a Benetton com Nelson Piquet em 1991 e agora poderá enfrentar o filho dele
Além de todos esses significados, a volta de Schumacher às pistas é ainda cercada de curiosidades interessantes. Dezenove anos nas pistas é muito tempo, principalmente numa época na qual os pilotos chegam ao topo cada vez mais jovens. Vale notar, por exemplo, que Schumacher correu em 1991 contra Nelson Piquet e Satoru Nakajima, e agora estará pilotando numa época em que os jovens filhos destes pilotos já tiveram passagens pela categoria. Além disso, Schumacher estará dividindo curvas com Bruno Senna, sobrinho de seu antigo rival, Ayrton.
Também é curioso que Schumacher esteja retornando num momento em que a Formula 1 recebe seu piloto mais jovem a alinhar numa corrida. Para que se tenha uma idéia, o jovem Jaime Alguersuari contava exatos 521 dias de vida, quando Michael fez sua estreia pela equipe Jordan. Uma criança de 1 ano e 5 meses! Sabe aquele papo de que “quando você nasceu eu já fazia isso”? Pois é, entre Schumacher e Alguersuari a coisa é por aí...
Tudo a ganhar
Mercedes GP
Assim deve ser a Flecha de Prata do século XXI para Schumacher e Rosberg
Tendo já seu lugar cativo entre os gênios do esporte em todos os tempos, Michael Schumacher poderia ser chamado de louco por arriscar a reputação nesta altura de sua vida. No entanto, como comprovou a recente eleição promovida por autosport, a escassez de batalhas mais duras ao longo de sua carreira não permitiu que seus números fantásticos fossem traduzidos numa simbólica liderança entre os maiores de todos os tempos. Para muitos, falta um teste mais duro à carreira do alemão.
E agora, ao aceitar o desafio na Mercedes GP, Michael abraça a chance de elevar seu nome a um nível superior, onde nenhuma vitória na Ferrari poderia levá-lo. Em seu caminho estarão conjuntos duríssimos, como Alonso-Massa-Ferrari, ou Hamilton-Button-McLaren. Duas equipes de ponta, com 4 pilotos fortíssimos, e que estão trabalhando há vários meses em seus projetos para 2010. Há ainda que se considerar os talentos de Sebastian Vettel, Robert Kubica, e toda uma geração de jovens talentosos doidos para tirarem uma casquinha do ídolo de suas infâncias.
Acima de tudo há este rival implacável chamado tempo, embora este seja um velho freguês do alemão. De qualquer forma, a mesma idade que pode vir a derrotá-lo, será também seu maior álibi, de forma que Schummy não tem muito com o que se preocupar. Enfim, caso queira retornar ao topo – e com certeza é tudo que ele quer – Michael Schumacher terá que superar a concorrência mais dura que já teve pela frente.
Melhor para quem curte boas corridas. Antes mesmo de começar, 2010 já promete ser um ano de arrepiar.