Análises | Nelsinho no Spingate

Tudo ou Nada: o papel de Nelsinho Piquet no escândalo de Cingapura

Segunda-feira, 12 de Outubro de 2009, 19:47

Renault F1

Nelsinho antes a largada

Nelsinho ficou em posição extremamente difícil antes de largar em Cingapura 2008

Manuel Blanco, de Valencia, Espanha

Muito tem sido dito e escrito a respeito do GP da Cingapura do ano passado e daquele acidente de Nelson Piquet Jr., que resultou não ser realmente um acidente. Desde então, o caso tem sido descrito com toda classe de adjetivos pejorativos: que foi uma vergonha, uma trapaça ou algo indigno feito só para favorecer outro piloto, neste caso o companheiro Fernando Alonso.

Porem isso não é novo e, como exemplo, basta recordar os casos de Barrichello na Áustria em 2002 (que tirou o pé para Michael Schumacher) ou Lorenzo Bandini no México 1964 (que bateu em Graham Hill para Surtees ser campeão), dentre outros. Muitos dirão que se trata de casos diferentes, mas em todos se buscava provocar um resultado determinado, alterando a natural sucessão de eventos com o fim de perverter a competição. Desde esse ponto de vista, nada lhes diferencia.

No entanto, neste caso, Nelson Piquet tem sido duramente criticado, e todo tipo de impropérios lhe vem sendo dedicados por ter aceitado cumprir com o seu papel na trama. A Nelsinho lhe acusam de delator e traidor, de alguém sem moral nem princípios, mas sabido é que ninguém nasce com tudo isso. Muito ao contrário, essas características se adquirem depois, segundo as circunstâncias e o entorno em que nos desenvolvemos, e me parece que a Formula 1 não é o entorno mais propicio para tão altos valores.

F1-info.cz

Barrichello e Schumacher

A F1 não esqueceu a marmelada na Áustria 2002; tampouco deverá esquecer Cingapura 2008

Dizem que devia ter se negado, e isto me leva a tentar imaginar como teria sido aquela reunião prévia ao GP em questão, e quais as possíveis opções à disposição de Piquet perante tal petição. Deixem-me imaginar tal reunião:

Cingapura, 28 de setembro de 2008.

Pouco antes do GP começar, Nelsinho está se preparando para a corrida que terá lugar dentro d'um par de horas. Ele tenta concentrar-se na corrida, mas sabe que a sua situação na equipe não é boa. Briatore, seu patrão e manager, impiamente lhe pressiona constantemente exigindo-lhe os resultados que não chegam e dos quais sua continuidade na equipe dependem. Cada vez restam menos corridas por disputar e a pressão é tremenda.

Então, alguém avisa Piquet que Briatore quer vê-lo em seu escritório. Nelsinho vai e ali encontra também a Pat Symonds, o engenheiro chefe técnico da equipe, e ambos se sentam em presença do chefão, que observa tudo desde o outro lado da mesa. Então Symonds, provavelmente de maneira condescendente e talvez até paternal, lhe recorda a Piquet que tinham depositado nele grandes esperanças, assim como a enorme importância de pertencer a uma equipe e que está acima do individuo. Pat insiste na importância de formar parte da equipe e que, de fato, a única maneira de consegui-lo é, ocasionalmente, renunciando a objetivos pessoais em prol da equipe e do bem comum.

Renault F1

Pat Symonds e Flavio Briatore

Symonds e Briatore puxaram Nelsinho para uma reunião que mudaria seus destinos

Briatore, lá desde a sua poltrona do outro lado da mesa, assente com a cabeça e reitera a confiança depositada no garoto. Nesse momento, Symonds, lhe diz a Piquet que, para o bem da equipe, seria bom que houvesse um Safety Car num momento determinado e conveniente para os interesses de todos. Briatore assente novamente e lhe diz que, se ele estivesse disposto a provocar a saída do SC, isso compensaria os seus pobres resultados obtidos até então, e que, dado que isto significaria uma boa prova de sua plena integração na equipe, inclusive seu contrato seria renovado, etc.etc., e na continuação lhe pergunta se podem "confiar" nele para tão importante missão.

Imaginem a situação: do outro lado da mesa, Briatore, seu patrão e manager, o homem em cujas mãos está o seu futuro. Ao seu lado, Pat Symonds, respeitado chefe técnico da equipe e responsável do bom desempenho dos carros. Perante os dois tubarões, o peixinho Piquet, surpreso, constrangido e atônito, deve dar uma resposta da qual depende toda sua carreira. Trata-se de tudo ou nada em um instante. Desesperadamente, tenta ponderar as possíveis implicações que sua resposta acarretaria, mas termina sucumbindo vitima de sua juventude, do temor a uma carreira truncada, de um sobrenome que talvez resultasse uma carga demasiado pesada para ele e das falsas promessas de um futuro melhor.

Assim é como imagino a tal reunião, e creio que o pobre Nelsinho tomou a única decisão que podia tomar. Possivelmente ou certamente, não a que devia, mas... só a que podia. Não o culpo por isso! Como disse Sirius: “O medo é o obstáculo de toda virtude”.

Renault F1

Briatore e Nelsinho

Nelsinho jamais imaginou o quão difícil seria trabalhar para um canalha como Briatore

Muitos dizem que ele devia ter se negado a participar da trama, mas... podia? A sua negativa teria permitido o normal desenvolvimento da corrida, mas também teria significado o imediato fim de sua carreira na Formula 1. É obvio que isto teria contrariado muito a Briatore, quem, em sua condição de chefe e manager, certamente, lhe teria fechado todas as portas da F1, pois não é conveniente ter alguém tão honesto por perto. A Nelson Piquet Jr. não lhe restaria nem a possibilidade de denunciar a indecente proposição, pois sem provas que confirmassem tal denuncia, certamente ninguém iria acreditar nele. Todos diriam que tudo se tratava apenas de fruto do despeito e uma vingança por ter sido despedido. Caramba! Mas isso mesmo é o que já acontece agora, apesar de que tudo está demonstrado e provado!

A meu modo de ver, a única alternativa "honesta" à que podia recorrer Nelsinho, teria sido aceitar o plano proposto, mas provocar um acidente logo no inicio da prova da maneira mais plausível possível. Isto teria desbaratado a falcatrua, deixando a sua consciência limpa. O inconveniente é que isto não lhe teria salvado a carreira pois, decepcionado e furioso, Briatore lhe teria despedido sem remissão e, perante o público, este "acidente" seria outro motivo para justificar tal despido e sua saída da formula 1.

Portanto, porque sacrificar a própria carreira para salvar um par de sem-vergonhas?

É louvável e bom ser honesto, mas não é necessário ser estupidamente honesto!