|
|
 |
Análises | Escândalo Spingate
Renault, Briatore e Nelsinho no
olho do furacão Spingate – Parte 2
Terça-feira, 15 de Setembro de 2009, 18:19
Renault F1
Antes só haviam especulações; agora, um manto obscuro de evidências cai sobre a Renault
Lucas Giavoni / Márcio Madeira da Cunha
Uma série de novas e gravíssimas novidades aumenta ainda mais a tensão em torno do caso e reforça que algo muito errado aconteceu naquele fatídico GP de Cingapura de 2008. Além da FIA confirmar a investigação sobre a corrida, a mídia traz a informação que Nelson Piquet teria contado à entidade toda a trama e que o filho Nelsinho confessou em depoimento que bateu de propósito sua Renault, a pedido do chefe Flavio Briatore e do diretor-técnico Pat Symonds. O furacão Spingate está aumentando, fazendo desta análise especial que previa dois textos, aumentar para três.
O que era especulação virou factual
Em nossa análise contextual do Spingate, a atualização factual agrava ainda mais a trama em relação ao que se sabia por ocasião do fechamento da parte 1 desta análise. E torna verossímil muito daquilo que até agora era considerado meramente especulação.
No dia 04 de setembro, a FIA emitiu comunicado oficial confirmando a convocação de representantes da equipe Renault para uma reunião extraordinária do Conselho Mundial do Esporte a Motor, a ser realizada no dia 21 de setembro, em Paris, sede da federação. Na pauta, respostas a respeito do que aconteceu em Cingapura.
Renault F1
Piquet pai teria procurado a FIA para relatar a farsa e Nelsinho então confessou tudo
Portanto, após esta confirmação acerca do objeto de investigação – que é exatamente aquele levantado por Reginaldo Leme –, toda a história ganhou uma materialidade muito maior. Agora já é possível lidar com um acontecimento concreto e pontual, com definições espaço-temporais. Mas outros fatos vieram a se juntar com o inquérito da FIA, que conta com aporte da Quest, empresa especializada em investigações e que foi especialmente contratada pela entidade.
A imprensa noticiou que, antes do GP da Bélgica, o tricampeão Nelson Piquet teria procurado o polêmico presidente da FIA, Max Mosley, para lhe contar os detalhes da trama ocorrida na fatídica noite de Cingapura. A atitude seria uma retaliação à Renault e principalmente ao carrasco de seu filho, Briatore.
Esta também é a chave para Mosley finalmente pedir a cabeça de Briatore, em uma vingança que já conseguiu fazer com que o antigo desafeto Ron Dennis se afastasse das funções de direção da equipe McLaren, cargo este atualmente exercido por Martin Whitmarsh. O uso político dessa marmelada vai ser um grande presente de despedida para Mosley, que entrega seu cargo ano fim do ano, após 15 anos de desastrosa gestão esportiva frente a FIA.
Max já começou a arquitetar seu plano para dinamitar Briatore. Para isso, convocou Nelsinho e lhe garantiu imunidade caso entregasse todo o plano. Com isso, conseguiu uma confissão bombástica, realizada em 30 de junho.
A auto-incriminação
Renault F1
Além de Briatore, Nelsinho acusou Symonds, nome que não havia sido mencionado até agora
O vazamento na mídia (intencional ou não) pelo site F1 SA do documento de confissão de Nelsinho à FIA no último dia 10 consolida ainda mais a gravidade dos fatos. O piloto afirma que, para “influenciar de forma positiva o desempenho da equipe”, bateu deliberadamente seu carro entre a 13ª e 14ª volta do GP de Cingapura, a pedido de Briatore e de Pat Symonds, nome que até agora não havia surgido como suspeito.
“Fui chamado por Briatore e Symonds ao escritório de Briatore”, depôs Nelsinho. “Symonds, na presença de Briatore, me perguntou se eu estaria disposto a sacrificar minha corrida pela equipe ‘causando um Safety Car’”, relatou o ex-piloto da Renault, que não identifica quem, dos dois, foi o autor intelectual do plano, mas deixa claro que Symonds, logo após a reunião, foi quem lhe passou todas as coordenadas para que tudo tivesse êxito.
“Symonds (...) usando um mapa, me indicou exatamente a curva em que eu deveria bater. Esta curva foi escolhida por causa do local específico da pista, que não tinha guindastes para suspender e levar rapidamente um carro danificado para fora, nem qualquer abertura na pista, o que permitiria a um fiscal retirar rapidamente o carro”, falou Nelsinho, que deveria chocar seu carro na curva 17 entre a 13ª e 14ª volta, logo após Alonso ter feito seu pit stop.
Veja o fac-símile do documento assinado por Nelsinho Piquet
Divulgação
Depois de fazer o 'serviço', Nelsinho sai apressadamente do carro destruído na curva 17
Leia a transcrição do depoimento de Nelsinho à FIA
Nelsinho dá mais detalhes sobre a participação do diretor-técnico. “Symonds também me disse exatamente em qual volta eu deveria causar o incidente, de modo que uma estratégia pudesse ser implantada para que o meu companheiro, Fernando Alonso, pudesse reabastecer nos boxes pouco antes da entrada do Safety Car, o que ele de fato fez na volta 12. A chave para essa tática residia na quase certeza de que o Safety Car entraria na pista nas voltas 13 ou 14. (...) Isso permitiria a Alonso ultrapassar tantos carros (mais pesados) fosse possível, sabendo que, depois, aqueles carros teriam dificuldades de alcançá-lo pela posterior entrada do Safety Car. Esta estratégia foi bem-sucedida, e Alonso venceu o GP de Cingapura de F1 em 2008”, disse.
Estas palavras de Nelsinho acabam por explicar muitos fatos estranhos, que agora, todos sabem, fazem parte de uma marmelada sem precedentes. Agora se sabe o porquê da estranha rodada que o piloto havia sofrido na volta de apresentação da corrida enquanto aquecia os pneus. Torna-se impossível não associar estes dois eventos – a rodada ‘ensaiada’ e a batida em si.
A descrição de Nelsinho sobre como provocou o acidente confere com os dados da telemetria, que também vazaram para a imprensa: “Eu fiz isto pressionando precoce e fortemente o acelerador. Assim que eu senti a traseira do carro escorregando, continuei pressionando forte, com o conhecimento de que isso levaria meu carro a ter um forte contato com a parede de concreto”, disse.
Divulgação
Não demorou muito e o Safety Car foi acionado, beneficiando a estratégia de Alonso
Veja a imagem da telemetria do momento da batia
A história ainda continua. Uma vez que as palavras de Nelsinho atingiram o ventilador, a Renault faz o jogo da neutralização: Briatore e Symonds colocaram a palavra deles contra a do piloto. Não apenas um processo por parte da Renault está a caminho, acusando Piquet pai e filho de calúnia, injúria, difamação e tentativa de extorsão.
Briatore, inclusive, fez inconcebíveis insinuações de que Nelsinho teria um relacionamento com um homem mais velho, sendo o italiano responsável por forçar o piloto a mudar-se para Oxford, perto do quartel-general da Renault, a título de vigilância.
Um fato já é certo: Nelsinho não deverá ser banido do esporte por ter feito a confissão e ter, com isso, o benefício da ‘delação premiada’ por parte da FIA. Igualmente exato é classificar como mal calculada a vendetta dos Piquet contra a Renault, já que, mesmo que Nelsinho esteja apresentando estes fatos por estar ‘arrependido’, isto acaba com a credibilidade do piloto, colocando-o como pivô de mais um escândalo que abala a F1.
Diante da quantidade de informações, palavras e contra-palavras, o restante desta análise ficará para uma terceira parte, na próxima semana. E com ainda mais novidades: mostraremos o interrogatório dado por Symonds na Bélgica, que complicou a situação do engenheiro, e a ampliação do plano de Mosley para degolar Briatore: o dirigente ofereceu imunidade a Pat, caso ele confesse.
|
 |
|
 |