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Análises | Fim da Guerra FIA x FOTA
Fim da Guerra FIA x FOTA
Quinta-feira, 25 de Junho de 2009, 07:33
AP Photo / Luca Bruno
Max Mosley. Um nome de triste memória para o automobilismo.
Márcio Madeira da Cunha
E no fim prevaleceu o bom senso. Ódios e vaidades à parte, valeu a praticidade inflexível da calculadora: simplesmente o fim da guerra seria a saída (muito) mais barata para a crise. Assinado o armistício, pode-se dizer que ambas as partes cederam, e que os grandes vencedores foram, nessa ordem, Bernie Ecclestone; os fãs do esporte e homens de pista; e as novas equipes independentes.
Dezoito horas de reunião
Apesar do final um tanto previsível, antes de tudo é importante deixar claro que a crise de fato foi séria, e a chance de um cisma na história do Campeonato Mundial jamais foi tão grande quanto nos últimos dias. Se no fim as melhores apostas sempre foram no sentido de um entendimento, a verdade é que havia razões sim para temer pelo fim da categoria que tem sido referência no esporte a motor nos últimos 60 anos. Acredite, muitos nomes de peso estavam ansiosos por chutar o balde.
Acontece que os argumentos práticos eram mais fortes, e por conta disso um a um os pontos de conflito foram sendo costurados. Superado o pior momento, não custa relembrar os principais deles.
Getty Images
Com a saída de Max, o clima deve melhorar.
Max Mosley
Sim, após tantos mandos e desmandos, o próprio presidente da FIA já havia se tornado, ele próprio, um ponto de conflito. Simplesmente não haveria mais a menor condição de convivência entre o infame ditador e os donos das equipes dissidentes. A saída de Mosley, ao fim de seu mandato em outubro, já era portanto uma das principais pautas de negociação.
Desde que assumiu a extinta FISA em 1991, e depois a FIA em 1993, Mosley vem dinamitando alguns dos pilares áureos do esporte a motor. No entanto, foi a partir de 2008, quando veio à tona o escâdalo sexual protagonizado por ele, que suas atitudes tornaram-se cada vez mais e mais perigosas.
Mantido no cargo contra todas as indicações, Max se sentiu com carta branca para fazer o que quisesse. Sem nada a perder ou temer, e disposto a desviar as atenções e se vingar de todos que supostamente puxaram seu tapete ou o abandonaram, o presidente sádico dava início a um período especialmente negro dentro da obscuridade geral de sua administração. Criou por decreto a natimorta Formula 2. Impôs o KERS a toque de caixa, conjugado com um complexo conjunto de mudanças que basicamente tentava desfazer de uma vez todos os erros de sua administração (como os pneus frisados). E ainda tentou implantar o campeonato decidido pelo número de vitórias, o teto orçamentário e a categoria de dois regulamentos, sem mencionar as mudanças drásticas e flutuantes que aplicou aos mundiais de Rally e Turismo.
AP Photo
Luca di Montezemolo é um dos que está de olho no lugar de Max...
Tudo isso sem ponderações ou consultas aos principais interessados na disputa, claro. Em resumo: Mosley passou de todos os limites. Ainda assim, nos últimos dias o ditador já falava abertamente em se candidatar a um 5º mandato, usando como desculpa a guerra que ele mesmo iniciou e fomentou. Se agora 'concordou' em se aposentar, que ninguém se engane. Certamente o fez porque viu que não teria apoio no seio da própria FIA para se manter no cargo. E, sendo assim, é muito melhor dizer que abdicou do trono por razões nobres, do que esperar pela guilhotina.
Limite orçamentário e dois regulamentos
Como já dissemos aqui mesmo recentemente, cortar gastos no automobilismo é algo que vai contra a natureza do esporte, e que por isso mesmo exige planejamento e estratégia. Não é o tipo de coisa que se possa fazer na base da canetada, como Mosley tentou até o fim. Muito menos dentro das condições numéricas e de fiscalização que ele indicou. E sobre isso, também cabem algumas palavras.
A bem da verdade, todas as equipes adorariam cortar custos. As grandes montadoras, porque dependem de balancetes para que seus diretores considerem a categoria um bom negócio. E as independentes para que simplesmente possam sobreviver. No entanto, nenhuma delas poderia admitir suas contas sendo fiscalizadas por terceiros - muito menos por Mosley. Esse foi, certamente, o principal ponto de conflito.
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...enquanto Briatore não esconde sua alegria pelo fim da era Mosley.
Essa parece ser uma situação incontornável, e por isso mesmo caiu qualquer limitação numérica para os orçamentos, ao menos num primeiro momento. Falou-se genericamente em reduzir gastos aos níveis dos anos 90 dentro de duas temporadas, mas isso indica apenas uma disposição conjunta de busca por soluções. A tendência é que sejam diminuídas as áreas de pesquisa, e aumentem os equipamentos padronizados, até que se pense em algo melhor para reduzir gastos.
E caindo o teto orçamentário, obviamente cai também a possibilidade do exdrúxulo regulamento duplo. A base técnica se mantém para 2010, com exceção do fim das mantas térmicas e do reabastecimento. Ainda assim, com as reduções de custos já obtidas e previstas, ficam mantidas as inscrições das 3 novas equipes independentes, trazendo o grid novamente à quantidade considerada ideal de 26 carros.
A grande ironia
Agora, prestem atenção na imensa ironia disso tudo. Mosley agora ensaia o discurso de que cumpriu sua missão ao reduzir os custos, trazer de volta as ultrapassagens, acabar com o reabastecimento e colocar novamente 26 carros no grid. Mas ora! Afinal não foi ele mesmo quem, nos últimos 18 anos, tratou de criar todos estes problemas?
The Cahier Archieve
Bernie e Mosley, em algum lugar dos anos 70.
Senão vejamos, em 1991 havia mais de 26 carros nos boxes, os pneus eram slicks, os custos infinitamente menores, e as ultrapassagens mais fartas. Foi o próprio Mosley quem esteve por trás de tantas e tão mal conjugadas mudanças regulamentares, que obrigaram tantas vezes equipes inteiras a recomeçarem seus projetos do zero, aumentando exponencialmente os custos.
Foi ele quem teve a 'brilhante' sacada de que pneus frisados aumentariam o espetáculo (logo se viu...), da mesma forma que estabeleceu o monopólio no fornecimento dos compostos, e diminuiu suas larguras, bem como as larguras dos carros. Foi Mosley quem aboliu a aderência mecânica, e tornou os carros totalmente dependentes de 'ar limpo' para gerarem aderência. Também foi ele quem igualou as condições de treino e corrida, eliminando a única porta legítima para que houvesse a condição básica de qualquer ultrapassagem: um conjunto mais veloz atrás de um conjunto mais lento. Por fim, também foi ele quem introduziu o reabastecimento obrigatório como forma de 'animar o espetáculo'.
Também é fácil reclamar da presença e da proliferação das montadoras, como se a invasão delas no lugar das antigas equipes particulares nada tivesse a ver com a indecente quantia cobrada pela organização do próprio mundial a cada nova equipe que pretenda alinhar seus carros no grid. Ora, se simplesmente para se inscrever uma equipe é obrigada a depositar um caminhão de dinheiro, como ele pode dizer que sempre sonhou com a presença da Campos ou da USF1, e não da BMW ou da Toyota?
A verdade aqui é bem diferente. Equipes particulares sempre quiseram participar da Formula 1. Se as montadoras tomaram conta do circo, foi porque os empecilhos burocráticos e as mudanças de regras tornaram os custos proibitivos, quando deveriam tê-los mantido em patamares sustentáveis.
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Bernie e Mosley, esta semana.
Foi no mandato Mosley que os custos fugiram ao controle, e a participação do presidente da FIA neste quadro é bastante ativa. Tivesse o regulamento sido modificado menos vezes, e com um mínimo de planejamento e consultoria, com certeza quantias obcenas teriam sido poupadas, e muitas equipes tradicionais poderiam ter sobrevivido. Pense: Brabham, Lotus, Tyrrell... todas enterradas durante o governo Mosley.
Bernie Ecclestone
Ninguém jamais duvidou que se havia alguém capaz de resolver a crise, e ainda se beneficiar dela, esse alguém se chama Charles Bernard Ecclestone. No entanto, havia que se considerar algumas diferenças em relação a crises passadas, que foram suficientes para deixar muita gente com a pulga atrás da orelha.
Para começar, o Sr. Ecclestone conta com 78 anos de idade, e já ganhou nessa vida muito mais dinheiro do que sua siliconada e lipoaspirada filha seria capaz de gastar. Seus interesses no jogo poderiam já não ser mais os mesmos, especialmente nas questões direcionadas a longo prazo. No entanto, só quem não conhece bem a velha raposa poderia imaginá-lo desistindo de uma briga, ou de um bom negócio. Entre mortos e feridos, Bernie sai dessa crise com sua (enorme) fatia do bolo preservada, e ainda fortalecido politicamente.
No fim, se algo nessa guerra terminou em pizza - na concepção clássica do "fica tudo como está", então Bernie saboreou ela sozinha.
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Bernie: a velha raposa ainda tem ótimo faro.
Uma nova esperança
Com certeza ainda é cedo demais para traçar prognósticos para o futuro. Ainda não sabemos quem assumirá o cargo deixado vago por Mosley ao fim deste ano, bem como não podemos imaginar de que maneira as equipes irão contornar os grandes desafios que se apresentam, sobretudo na esfera financeira. A entrada de 3 equipes particulares e teoricamente mais frágeis, forçosamente racha a união dos times, na medida em que gera dois grupos muito distintos de interesses.
São crescentes os simpatizantes de que haja comércio de carros entre as equipes, ignorando que todo o sucesso da Formula 1 descende diretamente do fato diferencial de que nela todos os participantes são construtores. É aí, na mais acirrada concorrência, que reside a própria identidade da categoria. E é também esta a razão maior de seus altos custos.
Enfim... Estabelecida a paz, restam enormes desafios. Contudo, a aposentadoria de um déspota incompetente como Max Mosley, por si só, representa de antemão a melhor notícia que o esporte a motor poderia receber na atualidade.
Já vai tarde, Max.
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