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Análises | Stewart 70 anos
Stewart 70 anos: uma homenagem ao Escocês Voador
Sexta-feira, 12 de Junho de 2009, 15:23
Williams F1
Stewart com seu inconfundível capacete escocês e o troféu da 1º vitória, na Itália em 1965
Márcio Madeira da Cunha
Nesta quinta-feira (11) Jackie Stewart completou 70 anos. Dono de um fantástico currículo, com 27 vitórias, um tricampeonato na Formula 1 (1969, 1971, 1973) e uma vitória como dono da equipe Stewart em 1999, o Escocês Voador também foi um gigante fora das pistas ao atuar como o principal nome pela cruzada por corridas mais seguras. E esse momento ocorreu um dia após seu 27º aniversário, um 12 de junho que mudaria para sempre o destino do piloto e da própria F1.
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Dia 12 de junho de 1966, Spa-Francorchamps, Bélgica. Segunda prova do mundial de pilotos.
Nos treinos, John Surtees (Ferrari) consegue uma volta espetacular, e assegura a pole com mais de três segundos de vantagem sobre Jocken Rindt (Cooper-Maserati). Stewart (BRM) alinha em 3º, quatro segundos mais rápido que Graham Hill, em 9º com equipamento idêntico. O tempo de Stewart é fantástico, se lembrarmos que seus pneus Dunlop eram inferiores aos Firestone da Ferrari, e que seu motor ainda era bem menor do que os três litros recentemente permitidos por regulamento.
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Largada de Spa 1966 - minutos depois e Stewart (5º carro) seria um novo homem
Se o atual traçado de Spa ainda impressiona, há quarenta anos era muito mais espetacular. A pista tinha 14 quilômetros de extensão e propiciava, já em 1966, médias superiores a 230 km/h. Em termos de desafio era tão surreal quanto Nürburgring, porém ainda mais veloz e inseguro. Percorrer curvas de altíssima velocidade, no limite da aderência, sem contar com ajuda aerodinâmica, áreas de escape, chassis minimamente resistentes ou um suporte médico razoável não era propriamente uma tarefa para homens corajosos. Era coisa para loucos.
Tudo fazia parte de um certo chauvinismo, uma mentalidade machista herdada da irresponsabilidade dos “pegas” de rua. Aceitava-se a morte como parte da profissão de piloto de corridas, e essa era uma visão geral mesmo entre os corredores. Por isso eram bem pagos, e por isso traziam aquela aura legendária, meio rebelde. Tudo, porém, começaria a mudar naquela tarde de tempo incerto.
No momento da largada não chovia na parte inicial do circuito. Os 18 competidores voam em direção à Eau Rouge, com Surtees à frente. Como não havia volta de apresentação, ninguém podia imaginar que poucos quilômetros à frente, em Burnenville, o céu estaria desabando.
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Bonnier só não despencou 4m de altura porque o motor Maserati era muito pesado
Vencida a subida em direção a Les Combes, o grupo se depara com o dilúvio. Surtees ainda tem alguma visibilidade, e consegue manter-se na pista. Sem este privilégio, Hulme, Jo Siffert, Mike Spence e Jo Bonnier rodam de imediato. O último nem pode reclamar da sorte, uma vez que escapou de cair num penhasco graças ao peso do motor Maserati V12 que equipava seu Cooper.
Stewart consegue superar este primeiro desafio, mas é surpreendido por um rio que atravessava a pista na terrível Masta Kink. Ele sofre com aquaplanagens e sai da pista, no que foi providencialmente seguido por seus companheiros de BRM. O carro verde de Jackie acaba demolindo uma cabana de lenhador (!) enquanto rodopia até cair numa vala, danificando seriamente o monobloco.
O que acontece nos 25 minutos seguintes me remete à história bíblica da conversão de São Paulo, o Apóstolo. Contam os textos sagrados que Saulo de Tarso, então perseguidor ferrenho dos cristãos, seguia em direção à Damasco quando teve uma visão do Cristo e literalmente caiu do cavalo. Passou três dias sem enxergar ou se alimentar, e renasceu para sua época adotando um novo nome.
F1 Grand Prix History
O momento: Stewart roda em direção à casa de um lenhador. Abaixo, Jack Brabham passa
De quanto tempo precisa uma pessoa para mudar? Paulo precisou perder a visão por três dias, só que Paulo não pilotava carros a 300 km/h. Para Stewart, acostumado às alucinantes velocidades dos GPs, a sensação de ficar preso por 25 minutos dentro de um carro batido, encharcado de combustível, foi algo terrível o bastante. Quando Hill e Bob Bondurant – seus companheiros de equipe e aquaplanning – arrancaram o volante usando a serra de um espectador, retiraram do carro um novo homem.
Assim como Paulo, Stewart passou a combater algo que, antes da queda, era-lhe natural. Para sua surpresa, seu discurso em prol da segurança encontrou dura resistência mesmo entre os pilotos. Ainda hoje, Jackie não esconde a mágoa por este tipo de comportamento de seus antigos companheiros.
Por sorte ou capricho do destino, Stewart não era um piloto qualquer. Na verdade, muito longe disso. Afinal, o que dizer de alguém que venceu 27 dos 64 GPs que completou? Com sua habilidade nas pistas e sua consciência e atitude fora delas, o “vesgo” (Jackie era estrábico) dedicou os anos seguintes de sua carreira a mostrar ao mundo a tênue e fundamental diferença entre coragem e irresponsabilidade, entre superação e inconseqüência.
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Surtees, campeão 1964 pela Ferrari, venceu a conturbada corrida
Stewart nunca fechou os olhos ou se calou diante das terríveis condições de segurança de seu tempo, apesar de toda a resistência que encontrou. No entanto, jamais deixou que esta consciência visionária afetasse seu ritmo de prova e sua competência ao volante, não raramente assumindo riscos que “os corajosos” rejeitavam. Eis a verdadeira bravura!
Jackie foi incansável em sua luta contra proprietários de circuitos, organizadores, construtores e pilotos, contaminados pela crença da morte inevitável ou simplesmente indispostos a custear a busca por segurança Chegou a receber ameaças de morte, e continuou atuante mesmo após sua aposentadoria, ao fim de 1973. Já afastado dos cockpits, permaneceu ainda por algum tempo como líder da GPDA. E, conforme ele mesmo não cansa de repetir, tudo aconteceu ali, durante aqueles longos 25 minutos de espera:
- Não me preocupava com a questão da segurança até aquele dia. (...) Eu pensava como todos os outros a esse respeito. Era sempre o outro que ia morrer. Mas desta vez eu estava preso dentro do carro, ensopado de combustível e ali fiquei por um tempo terrivelmente longo. Tive muito tempo para pensar sobre a questão, 25 minutos ou mais. Durante todo este tempo percebi como eu poderia facilmente ter morrido, com que rapidez isto poderia acontecer. E isso me deixou muito enraivecido.
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Rindt, aqui na Eau Rouge, fez bela exibição para chegar em 2º lugar
Na pista, o público foi brindado com uma corrida emblemática de Jocken Rindt. A despeito de seu carro mais pesado e seus pneus Dunlop, o austríaco deu a primeira mostra na Fórmula 1 do enorme talento que já o havia consagrado em outras categorias. Na primeira volta rodou na Masta Straight, mas soube se recuperar a ponto de abrir a seguinte em quarto, colado nos líderes. Na quarta volta assumiu a liderança, e só a perderia 20 voltas mais tarde, a quatro do fim, quando a pista começou a secar e seu diferencial apresentou algum defeito. Terminou em segundo, atrás de Surtees, que também tinha seus problemas com a bomba de combustível. Mas isso tudo acabou ficando em segundo plano, diante da importância do personagem nascido naquele dia.
Corridas com vítimas fatais sempre entram para a história. Esse dia em Spa, porém, é lembrado justamente por seus efeitos positivos sobre a segurança. GP da Bélgica, 1966. A corrida na qual muitos deixaram de morrer.
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