Tudo começou em Pedralbes, em 1951, numa incrível decisão de título entre Fangio e Ascari
Lucas Giavoni
Europa finalmente. A F1 inaugura a temporada de provas no Velho Continente com o GP da Espanha, quinto deste ano. É hora de olharmos um pouco dos principais acontecimentos da categoria na terra das paellas e castañuelas em nosso flashback.
A F1 surgiu em 1950, mas apenas a partir do surgimento de Fernando Alonso a Espanha passou a contar com um piloto realmente de ponta. Mas em termos de corridas, o país já se destaca no cenário da categoria desde tempos pioneiros, recebendo a F1 em cinco circuitos diferentes. E logo na primeira edição no país, em 1951, uma fantástica decisão de título na última corrida do ano.
A prova em questão foi disputada em Pedralbes, longo circuito de rua no subúrbio em Barcelona, com 6.3 km de extensão. Na disputa, o argentino Juan Manuel Fangio, da Alfa Romeo, e o italiano Alberto Ascari, da ascendente Ferrari, que desde a metade da temporada tinha o carro mais competitivo, pois a Alfa parou de investir em sua Alfetta 159 e se retiraria das pistas ao fim do ano. Na tabela de pontos, apertados 27 a 25 para Fangio.
A Alfa era um pouco mais potente (400 conta 380 cv), mas por outro lado a Ferrari tinha um motor mais econômico, que completava as corridas sem a necessidade de reabastecer, processo um tanto arcaico naqueles tempos pioneiros. Ascari fez a pole, deixando Fangio em segundo. Era um jogo truncado, mas não haveria como a escuderia do cavalo rampante perder, a não ser que a escuderia do trevo de quatro folhas fosse mais inteligente fora da pista. E foi exatamente o que aconteceu.
No dia da corrida, a Alfa fez a Ferrari acreditar que Fangio faria toda a corrida de 442 km sem reabastecer por usar um “tanque extra”, provocando desespero no rival. A Ferrari quis revidar aumentando a velocidade de seus carros e colocou rodas de 16 polegadas, contra as de 18 usuais, que a Alfa adotou para a prova.
O tal “tanque extra” não passava de um gigantesco blefe e as rodas menores foram fatais para a Ferrari, que foi rápida no começo, mas sofreu desgaste excessivo nos pneus, obrigando Ascari a fazer diversas paradas para colocar borracha nova. Fangio teve tempo de sobra para reabastecer e venceu brilhantemente, enquanto Ascari chegou em um longínquo quinto, duas voltas atrás. Uma corrida vencida não pelo melhor conjunto, mas pelo mais astuto.
Pedralbes ainda abrigaria mais uma corrida, em 1954, vencida pelo campeão de 1958 Mike Hawthorn com uma Ferrari. Esse circuito, agradável tanto para pilotos quanto para o público, sumiria com a tragédia ocorrida no ano seguinte em Le Mans, que curiosamente teve em Hawthorn um dos participantes.
Rodízio
As coisas ficaram quentes em Jarama 1970 para Jacky Ickx (Ferrari) e Jackie Oliver (BRM)
Demoraria 13 anos para que os espanhois voltassem a ter uma corrida em casa. E para isso, um palco novo: Jarama. O autódromo foi desenhado pelo genial holandês John Hugenholtz, o mesmo que projetou Zandvoort e Suzuka, e construído nas cercanias de Madrid. Um GP extra-campeonato foi disputado em 1967 para homologar a pista e no ano seguinte passou a fazer parte do calendário do Mundial, com vitória para Graham Hill, pela Lotus.
A eterna rivalidade entre Madrid e Barcelona, no entanto, fez com que houvesse a partir de 1969 um rodízio entre Jarama e o novo circuito de rua de Montjuick, montado em um belo parque arborizado da cidade catalã. Na primeira prova disputada por lá, Jackie Stewart venceu com sua Matra-Ford com duas voltas de vantagem para o segundo colocado, Bruce McLaren em sua McLaren-Ford. O escocês repetirias as vitórias em 1970 e 1971.
E durante esse rodízio, os espanhois viram uma estrela brasileira brilhar em ambas as pistas. Emerson Fittipaldi, a bordo da mítica Lotus 72, venceu Jarama 1972 e Montjuich 1973, tornando-se sinônimo de piloto veloz naquelas terras.
Essa alternância acabaria em 1975, quando Montjuich foi cenário de uma corrida trágica. Logo nos treinos de sexta-feira, pilotos perceberam que alguns dos guard-rails de proteção estavam mal fixados e que a pista estava muito perigosa. Emerson, que era o campeão da época e ídolo dentro da Espanha, exigiu que uma atitude fosse tomada, ou os pilotos não participariam da prova.
O último GP no belo parque de Montjuich, em 1975, acabou em tragédia
Mecânicos das equipes foram chamados para ajudar a reforçar os rails, mas no dia da corrida, Emerson, seu irmão Wilsinho (Copersucar-Ford) e o Arturo Merzario (Iso-Marlboro-Ford) se retiraram da prova na primeira volta. Até parecia que eles estavam prevendo que algo de ruim aconteceria. Na volta 26, o líder Rolf Stommelen (Hill-Ford) perdeu o aerofólio traseiro em um trecho de forte declive. O piloto alemão rodou, ricocheteou em um dos rails e passou por cima da barreira do outro lado, sofrendo várias fraturas e matando quatro pessoas – um bombeiro, um fotógrafo e dois espectadores.
Os organizadores perceberam a gravidade do acidente e interromperam a prova, surpreendendo o líder do momento, Jochen Mass, companheiro de Emerson na McLaren, que foi declarado vencedor – sua única conquista na F1. Esta foi também a única vez que uma mulher pontuou: Lella Lombardi corria em sexto lugar com uma March. Como a corrida foi encerrada ainda na porção inicial, Mass ganhou 4,5 pontos e Lella 0,5.
Jarama ficou com o GP espanhol até 1981 – uma corrida muito lembrada pelo excelente desempenho de Gilles Villeneuve em sua sexta e última vitória na F1. Ele pilotava a Ferrari 126 CK, que tinha um potente motor turbo, mas um chassi desastrosamente pesado – uns 35 kg a mais do que os carros mais leves, como Williams e Brabham.
Gilles fez uma de suas largadas monstruosas e pulou do sétimo para o terceiro lugar, demorando apenas uma volta para ganhar de Carlos Reutemann (Williams-Ford) a segunda posição. O canadense não tinha fôlego para perseguir Alan Jones, que ia à frente com a outra Williams, mas o australiano cometeu um erro na volta 14, quando seguia 10 segundo à frente. Caiu para 16º.
Gilles tomou a ponta e ficou claro que com aquele carro pesado, seus pneus estariam em frangalhos no fim. Mesmo assim, o canadense manteve bravamente a ponta e cruzou com quatro carros em sua cola: Jacques Laffite (Ligier-Matra), a 0.22s; John Watson (McLaren-Ford), a 0.58s; Reutemann, a 1.01s e Elio de Angelis (Lotus-Ford), a 1,24s. Em menos de um segundo e meio, os cinco primeiros receberam a bandeirada...
Catorze milésimos de segundo
O GP inaugural de Jerez, em 1986, foi um verdadeiro 'thriller' de ação
Um novo hiato separou os espanhois da F1 até 1986, quando houve o primeiro GP disputado em Jerez de la Frontera, um apertado e exigente circuito no sul do país, na Andaluzia. E que corrida... Não foi apenas uma das muitas vitórias de Ayrton Senna, mas um dos GPs mais emocionantes de toda a História.
Senna, na época com a belíssima Lotus negra, tinha feito uma de suas incríveis poles, extraindo toda a potência do motor Renault EF15 V6 Turbo, que chegava a 1200 cv nos treinos. No começo da prova, segurou com propriedade um “trenzinho” atrás de si. Nigel Mansell, que chegou andar em quinto e estava em forte recuperação com a dominante Williams-Honda, o ultrapassou na volta 40. O inglês, porém, gastou demais seus pneus e perdeu rendimento, sendo agora ele o caçado por Senna.
E Ayrton, em linda manobra (na marra), retomou a liderança na volta 62, com um esperto Alain Prost (McLaren-TAG-Porsche) se aproveitando do momento para também passar. Nigel então tentou uma jogada, se encaminhando para os boxes e colocando os pneus de prova mais macios possíveis e com pouca calibragem, para oferecer uma aderência obscena para as últimas nove voltas. Em um ritmo cerca de quatro segundos mais rápido por volta, o Leão engole Prost a quatro voltas do fim e começa a caçada final atrás de Senna.
Foi uma perseguição inesquecível. Ayrton tinha que cuidar de seus pneus, do crítico consumo de combustível e de um carro absurdamente mais rápido que o seu preenchendo todo o seu espelho retrovisor. Foram duas últimas voltas eletrizantes, com Ayrton tentando deixar seu carro “o mais largo possível”, enquanto o Leão tentava abrir um corredor e passar. Os dois entraram na reta de chegada emparelhados e... deu Senna, por inacreditáveis 14 milésimos à frente. Nada menos que fantástico, já que um piscar de olhos dura 60 milésimos...
Depois de um blockbuster de ação desses, não é espanto que as outras provas em Jerez tenham sido mais “mornas”, com uma vitória de consolo para Mansell em 1987, outra para Senna em 1989 e duas para Prost em 1988 e 1990, ano que houve um sério acidente que tirou a pista do calendário para os anos seguintes. O jovem Martin Donnelly teve um gravíssimo acidente que decretou o fim de sua carreira na F1. O inglês bateu forte em uma barreira de proteção e sua Lotus-Lamborghini partiu-se ao meio, lançando o piloto no asfalto e provocando-lhe múltiplas fraturas e escoriações.
Palco atual
Lindo: Mansell (Williams) e Senna (McLaren) emparelham na longa reta de Montmelò
A quinta e última casa do GP da Espanha é o Circuito da Catalunha, construído em 1989 em Montmelò, cidade vizinha à Barcelona. Com uma enorme reta e uma grande variedade de curvas de alta, média e baixa velocidade, a pista foi eleita pelos times como ótimo local para testes, também por conta de sua posição privilegiada na Europa, em latitude que ameniza o rigoroso inverno europeu, que coincide com o período inter-temporadas.
Mesmo apresentando um circuito tão seletivo, as provas na Catalunha não costumam ser muito empolgantes. A imagem que talvez seja a plasticamente mais bela ocorrida no circuito foi justamente na prova inaugural em 1991, em batalha pela liderança entre Senna e Mansell (eles de novo...). Os dois percorreram quase toda a grande reta emparelhados e separados por não mais que 20 centímetros, com a deriva de suas asas dianteiras se acabando em faíscas no asfalto. Naquela cena, pouco importava quem ficaria à frente. Poderiam ficar roda a roda para sempre.
Outro lance maravilhoso também teve participação brasileira. Em 2000, enquanto a McLaren fazia uma dobradinha com Mika Häkkinen e David Coulthard, Rubens Barrichello fazia nos instantes finais uma incrível manobra para passar os irmãos Schumacher, que se pegavam à sua frente. Um drible lindo que lhe valeu o terceiro e último lugar ao podium.
As quatro primeiras corridas as Catalunha tiveram vitórias da Williams. Em 1991 e 1992 com Mansell, 1993 com Prost e 1994 com Hill, no primeiro triunfo da equipe após a morte de Senna. Apenas em 1995 Michael Schumacher quebraria a série ao vencer com a Benetton-Renault. Mas a grande corrida de Michael na Espanha seria no ano seguinte, em 1996, quando venceu pela primeira vez pela Ferrari.
O alemão caiu de terceiro para sexto na largada, mas foi superando os adversários com incômoda facilidade até alcançar a liderança na volta 11. Michael venceu o GP com 45 segundos de vantagem para o segundo colocado, Jean Alesi (Benetton-Renault). E com um detalhe importante – desde a metade da prova, enfrentou graves problemas de motor, com o V10 funcionando em apenas 9 cilindros.
Após uma breve volta ao topo da Williams com vitória de Jacques Villeneuve em 1997, Montmelò foi de apenas um piloto nos últimos quatro anos: Häkkinen. O finlandês triunfou em 1998, 1999, 2000 e... ficou a pé na última volta em 2001, entregando de bandeja a vitória para Michael Schumacher quando a embreagem da McLaren-Mercedes explodiu a metros da bandeirada. O alemão estava visivelmente sem-graça no podium com esse “presente”.
Michael voltaria a vencer (por méritos próprios) até 2004, anos que foram o seu auge com a Ferrari. O ano seguinte teve domínio de Kimi Räikkönen, que venceu de ponta a ponta com a McLaren, e Fernando Alonso marcou sua única vitória em casa pela Renault em 2006. Felipe Massa deu um chega pra lá no próprio Alonso para vencer com propriedade em 2007 e Kimi venceria mais uma vez em 2008 – o que aliás foi sua última vitória em corridas até agora. O Iceman está cada vez mais pressionado.
Campeão é acima de dois
Um número muitíssimo interessante. Todos os pilotos que venceram o GP da Espanha mais de uma vez são campeões mundiais. Compõem essa lista Michael Schumacher (6 vitórias), Mika Häkkinen (3), Alain Prost (3), Nigel Mansell (3), Jackie Stewart (3), Kimi Räikkönen (2), Ayrton Senna (2), Mario Andretti (2) e Emerson Fittipaldi (2). Para quem não teve a curiosidade de somar os títulos dessa turma, eis o número: 24 campeonatos.
Outros “GPs da Espanha”
Nem apenas de “GP da Espanha” vive as pistas espanholas. O GP final do calendário de 1997 seria disputado no Estoril, em Portugal. Mas a prova foi transferida para Jerez, ganhando o nome de GP da Europa (que já havia sido disputado em outras pistas como Brands Hatch, na Inglaterra, e em Nürburgring, na Alemanha). E acabou abrigando uma incrível disputa de título entre Michael Schumacher e Jacques Villeneuve, que ficaria com o título. Também houve em 2008 o novíssimo circuito de rua de Valência, também como GP da Europa e vencido por Felipe Massa.
Mas, mais detalhes sobre essas provas, só no flashback para o GP da Europa, no fim de agosto.