Christian Klien mostra o circuito da Catalunha em volta rápida com a Jaguar em 2004
Márcio Madeira da Cunha
Após uma longa excursão pelo oriente, a Formula 1 volta à sua casa no GP da Espanha este fim de semana, e o que não faltam são novidades. O ULTIMAVOLTA publica agora um resumo daquilo que se pode esperar para a quinta etapa do mundial 2009 da Formula 1.
A pista:
A pista de Barcelona sintetiza tudo o que fazia uma pista ser considerada moderna nos anos 90, tempos pré-Hermann Tilke. Inaugurado em 1989, o autódromo pegou carona na estrutura e na mídia dos Jogos Olímpicos de 1992, e dá continuidade à tradição catalã dos tempos do Montjuich Park no Campeonato Mundial, desde 1991.
Com um traçado visivelmente inspirado na configuração antiga do circuito português do Estoril, a pista espanhola jamais conseguiu ser igualmente seletiva ou empolgante. Pior: uma reforma recente tratou de ceifar um dos trechos mais interessantes do traçado, representado pelas antigas curvas de alta velocidade em descida, que desembocavam na grande reta. Setor agora substituído por uma estéril chicane, idealizada com a única intenção de permitir que dois carros possam entrar mais próximos no melhor ponto de ultrapassagem da pista.
Em sua configuração atual, a pista de Montmelò tem 4.655km de extensão e possui 16 curvas, 9 das quais para a direita. Gira, assim, no sentido horário. Os carros atuais percorrem 57% da volta com aceleração máxima do motor, incluindo aí os 16 segundos consecutivos da grande reta de 1106 metros - a 3ª maior do calendário. A corrida é disputada em 66 voltas, totalizando 307.104km.
Apesar da longa reta, as curvas de média e alta velocidades acabam exigindo um acerto muito mais voltado para a geração de carga aerodinâmica. Em geral os aerofólios trabalham com cerca de 80% de sua angulação máxima, reduzindo as velocidades finais para não mais do que 315 km/h. Para se ter uma ideia deste cenário, apenas em 9 das 16 curvas os pilotos precisam frear durante a fase de aproximação.
Graças à sua baixa latitude em relação à maioria das pistas europeias, Montmeló há muito tornou-se uma das casas da Formula 1, sobretudo durante o inverno no hemisfério norte. Por conta disso, todas as equipes trabalham com enorme quantidade de informações prévias, e é muito comum observar um agrupamento dos carros aos pares, equipe por equipe. Em geral há poucos imprevistos, e na maioria das vezes as corridas caem na previsibilidade que é marca de tudo que é coerente.
A maior variável, sob este aspecto, fica por conta da grande sensibilidade da pista a ventos e alterações climáticas. Jogar com este fator, portanto, muitas vezes encerra o que se pode assumir de riscos na esfera do acerto fino de um carro. A pouca imprevisibilidade que resta reside justamente aí.
A volta começa com a longa reta, que pode ser decisiva para os rumos do GP, sobretudo no momento da largada. Nos últimos 8 anos o pole sempre venceu na Catalunha, e com o advento do KERS deve se tornar bastante interessante a sempre crucial disputa pela primeira curva.
Curva 1, esta, que aliás são duas. A grande reta, na verdade, termina num "S" de média velocidade direita-esquerda, que logo dá lugar a um trecho de aceleração plena e a uma curva extremamente exigente fisicamente, de raio longo à direita, na qual a aceleração lateral chega a tocar a marca de 4G. A partir da metade do GP é comum ver alguns pilotos fazendo este trecho com o capacete já apoiado na carenagem, sem forças para manter a cabeça em posição reta voltada para a frente.
Vencida a difícil curva 3 os pilotos se deparam com nova curva à direita, esta bem mais lenta e simples. Mais um curto trecho reto, e logo chega-se à curva 5, também fechada, mas desta vez à esquerda. Inicia-se então um trecho em subida, com os carros percorrendo a leve curva 6, à esquerda, em aceleração plena. Chega-se então a um "S" de velocidade esquerda-direita, que termina num dos trechos mais interessantes da pista. Saindo forte do "S" os pilotos têm pela frente um curto trecho no qual ganham ainda mais velocidade, e então mergulham na difícil curva 9, à direita, que dá início à reta oposta do circuito. É um trecho crucial para a obtenção de um bom tempo, uma vez que a curva 9 não é feita em aceleração máxima. Quanto mais velocidade o piloto for capaz de 'carregar' para dentro da curva, mais rápido ele irá percorrer toda a reta oposta.
A reta oposta termina numa freada bastante forte, para a curva mais lenta de toda a pista. Na saída do grampo da curva 10, à esquerda, é bastante comum ver os carros tracionando além da conta, e com isso perdendo décimos preciosos no fim da volta. Inicia-se nova subida passando pela aberta curva 11 no processo, até que os carros mergulham na longa curva 12, à direita, feita com velocidade quase constante em terceira marcha. A partir deste ponto os carros começavam a acelerar arriscadamente enquanto mergulhavam em rápidas curvas cegas à direita, mas a partir de 2007 este trecho foi substituído por uma série de curvas pasteurizadas, cujo único objetivo foi permitir que dois ou mais carros pudessem entrar mais próximos na longa reta. E assim se completa uma volta nessa simples, funcional, e exigente pista do calendário mundial.
Em termos de abrasividade, o asfalto da Catalunha pode ser considerado de média para alta rugosidade, sendo bastante exigente com os pneus - notadamente o dianteiro esquerdo. Por isso mesmo, a Bridgestone levou para a Espanha seus compostos macios e duros, ou 2 e 4 na escala de 1 a 4 dos mais macios para os mais duros. Dada a ausência do composto mais macio, é de se esperar um maior conservadorismo nas estratégias de largada - à exceção, talvez de Fernando Alonso, no caso de alguma tática 'eleitoreira' junto à torcida.
Os carros:
Por se tratar do início da temporada europeia, todos os times estarão introduzindo inúmeras atualizações aerodinâmicas em seus carros. A grande questão, portanto, passa a ser quanto cada equipe irá evoluir, sobretudo num momento no qual testes entre corridas estão proibidos. Pode-se dizer que pela quantidade de novidades debutando na Catalunha, o GP da Espanha deve fornecer um termômetro muito mais seguro da hierarquia de forças que deverá ser observada ao longo das próximas etapas.
Entre as principais equipes, a McLaren estreia na Espanha uma nova tampa de motor, um novo assoalho, e ainda uma nova asa dianteira. Mesmo assim, como já havia introduzido muitas atualizações recentemente, espera-se que deva perder algum terreno em relação à maioria das equipes.
Já a BMW leva para a pista catalã um carro praticamente novo, tantas são as alterações aerodinâmicas e visuais. A equipe também optou por abandonar momentaneamente o KERS para seus dois pilotos. O dispositivo só deve voltar a ser utilizado a partir do GP da Turquia, daqui a 4 semanas. A julgar pelos resultados em túnel de vento, a equipe espera ganhar até 5 décimos de segundo por volta com as novas atualizações.
A líder Brawn também debuta em Barcelona seu primeiro grande pacote aerodinâmico, cuja novidade mais visível se encontra nas menores entradas de ar e no perfil mais fino da carenagem, onde a equipe espera ganhar ao menos 3 décimos de segundo a cada volta. Já a Ferrari leva para a pista um carro praticamente novo, finalmente equipado com difusor duplo, e com direito a um chassi especial para Kimi Räikkönen, 6 kg mais leve que o de Massa. Tudo para facilitar a utilização do KERS pelo finlandês. Com tantas modificações, o modelo passou a ser conhecido como F60B.
Toyota e Force India trazem novas asas dianteiras, enquanto a Renault concentrou-se em melhorar a aerodinâmica como um todo, após a introdução do difusor duplo ainda na fase asiática da temporada. Aparentemente, as equipes que menos introduziram novidades no início da temporada europeia foram mesmo os times irmãos da Red Bull. Em virtude da complexidade do sistema de suspensão traseira do carro de Adrian Newey, ainda deve se passar algum tempo até que as equipes Red Bull e Toro Rosso possam estrear seus difusores de dois ou até três andares.
Os pilotos:
Dentre os pilotos em atividade, já venceram em Barcelona Fernando Alonso (2006), Felipe Massa (2007) e Kimi Räikkönen (2005/08). Destre estes, porém, justamente o de melhor retrospecto é aquele que se encontra sob maior pressão. De forma quase inacreditável, Kimi Räikkönen completa neste fim de semana um ano desde sua última vitória, enquanto Felipe Massa, com carro idêntico, venceu 5 vezes desde então. E se é possível fazer algumas ressalvas atenuantes em relação ao nórdico, também não é difícil pensar em corridas que Massa teve problemas quando deveria vencer. Os números, no fim, trazem sim alguma verdade.
Como já dissemos anteriormente, todos os pilotos conhecem cada detalhe do traçado de Barcelona, e é possível afirmar que não há quem se destaque demasiadamente no traçado espanhol. Ainda assim, é fácil recordar de algumas belas atuações de Rubens Barrichello nessa pista, tanto no seco quanto no molhado. Para o veterano, aliás, esta pode ser a corrida mais importante de uma longa carreira. Se Rubens tiver alguma pretensão de se tornar campeão mundial, então é bom que ele trate de terminar essa corrida à frente de Jenson Button.
O clima:
Desde que estreou na Formula 1, em 1991, diversas edições do GP da Espanha foram marcadas pela presença de chuva. A mais famosa delas, provavelmente, em 1996, na prova que marcou a primeira e consagradora vitória de Michael Schumacher pela Ferrari. Para este fim de semana, segundo o site Br.weather.com, são pequenas as possibilidades de chuva nos períodos em que a pista estiver ativa.
No sábado deve chover no fim da tarde, talvez no horário da prova longa da GP2, após o treino classificatório da F1. Durante a sessão que definirá o grid, porém, a chance de precipitação é de apenas 20%. A temperatura deve estar amena, na casa dos 22ºC, com ventos de Sul a Sudeste na casa dos 4,5m/s. No domingo a probabilidade de chuva segue na casa dos 20%, com a temperatura subindo ligeiramente para 23ºC. Os ventos seguem na casa dos 4,5 m/s, na direção Sudeste.
Curiosidades:
Das 18 vezes em que o GP da Espanha foi disputado no autódromo de Barcelona, em 14 delas o pole position foi o vencedor. E desde 2001 quem larga na frente em Montmelò termina por vencer a corrida. Uma estatística que dá a exata dimensão do quão difícil é ultrapassar na pista catalã, e ao mesmo tempo do quanto as equipes possuem acertos definidos para o traçado espanhol.
Se algum brasileiro vencer, estará obtendo a 100ª vitória do Brasil na Formula 1.
Correm com KERS:
Lewis Hamilton, Heikki Kovalainen, Felipe Massa, Kimi Räikkönen, Fernando Alonso e Nelsinho Piquet.
Correm sem KERS:
Jarno Trulli, Timo Glock, Sebastian Vettel, Mark Webber, Jenson Button, Rubens Barrichello, Sébastien Buemi, Sébastien Bourdais, Giancarlo Fisichella, Adrian Sutil, Nick Heidfeld, Robert Kubica, Kazuki Nakajima e Nico Rosberg.