Elly Beinhorn Rosemeyer (1907-2007)


Morreu há pouco mais de um ano atrás, no dia 28 de novembro de 2007, a esposa de Bernd Rosemeyer.

Centenários são esperados com ansiedade, pode ser de um pequeno feito, de uma singela construção, ou mesmo o aniversário de um simples morador de nossa vizinhança. Não importa, trata-se de um evento especial, e traz muitas recordações.

O automobilismo começa a colher estas marcas, que o diga o GP da França de 2006, ali, a vitória de Michael Schumacher sobre Fernando Alonso ganhou ares de revanche, remetendo ao primeiro GP da história, na França em 1906, quando o húngaro Ferenc Sziz em seu Renault venceu Felice Nazarro, de Fiat.

O dia 30 de maio de 2007 registrou um século de existência da alemã Elly Beinhorn Rosemeyer, natural de Hannover. Seu nome está ligado ao automobilismo por ter sido esposa de Bernd Rosemeyer, o astro da Auto Union, que num curto espaço de tempo se firmou como um dos principais pilotos da história dos Grandes Prêmios.

Saber que ela estava viva nos dava a sensação que um pouco do ambiente da Era Dourada do Pré-Guerra permanecia pulsando em pleno século XXI. Mas logo após, no dia 28 de novembro, ela veio a falecer de causas naturais. Parece que o fato foi pouco divulgado, e mesmo nos dias atuais não é fácil localizar registros sobre este acontecimento.

A Srª Rosemeyer era, na acepção clássica do termo, um tesouro vivo, título que a UNESCO atribui às pessoas que carregam os testemunhos do passado. Fazendo a ligação com o automobilismo, talvez ela fosse uma das personagens de maior valor para a memória do esporte a motor naquele momento, uma das últimas sobreviventes da Década de Ouro das corridas de Grande Prêmio.

O título de último personagem vivo desta época é do alemão Paul Pietsch, piloto que compartilhou dias de Auto Union com Bernd e brilhou no GP da Alemanha de 1939 a bordo de uma Maserati particular, lutando bravamente contra uma esquadra prateada, sem, no entanto, ser recompensado – a ignição falhou, forçando-o a se contentar com um 3º lugar.

Elly Beinhorn é também considerada uma das pioneiras da aviação. Tirou seu brevet em 1929. No início buscou manter-se financeiramente participando de acrobacias aéreas, e em 1931 fez seu primeiro vôo de longa distância, integrando uma expedição científica.

Já era famosa quando conheceu no dia 29 de setembro de 1935 seu futuro marido, Bernd Rosemeyer, após ter sido convidada pela Auto Union para dar as saudações ao promissor piloto, que acabara de vencer seu primeiro Grande Prêmio da carreira, em Brno, na Tchecoslováquia. Dois anos mais velha que ele, casaram-se no ano seguinte, no dia 13 de julho, formando um dos pares mais badalados da época.

O matrimônio levou a uma estreita ligação entre a aviação e o automobilismo, duas áreas do saber humano que ao longo de suas evoluções se enlaçam mutuamente. Passaram a voar juntos, Bernd tirou seu brevet, e foi um primeiros pilotos a possuir um avião particular.

Elly tornou-se a única mulher a ter pilotado o Auto Union Type C, carro com o qual o marido sagrou-se Campeão Europeu em 1936. Neste ano andou em Monza, e no seguinte, 1937, de carona com o marido, conheceu o lendário Nurburgring, ficou impressionada com a força centrífuga e percebeu as qualidades de quem dirige um monstro daqueles.

Em novembro de 1937 nasceu o filho do casal, Bernd Rosemeyer Junior, meses antes da fatalidade que marcou para sempre a sua vida e também o mundo do automobilismo. No dia 28 de janeiro de 1938 Bernd sofreu um acidente mortal, durante uma tentativa de recorde de velocidade na autobahn Frankfurt / Darmstadt.

Elly não presenciou o desastre. Ela, que sempre o acompanhava, não pode estar junto dele naquele dia.

A tragédia causou uma grande comoção, o povo alemão lhe enviou milhares de cartas. Na hora do funeral ocorreu uma situação indelicada, Elly queria uma despedida simples e recusou os serviços propostos pelo partido nazista, retirando-se do cemitério no meio da cerimônia. O que levou a este triste desfecho foi que durante sua carreira, Bernd recebeu, a contragosto, honrarias militares, chegando ao posto de capitão.

Nos meses seguintes, durante o período que ela considerou terem sido as horas mais escuras de sua vida, escreveu a biografia - Mein Mann, der Rennfahrer (Meu Marido, Piloto de Corridas), foi lançada ainda em 1938, com uma tiragem de 300.000 unidades. Teve grande procura na Alemanha, e mantém-se como a principal publicação sobre a vida do piloto.

Em 1986, ano em que se comemorou as bodas de ouro do casamento e o cinqüentenário do titulo de Campeão Europeu de Bernd, o livro foi reeditado, em inglês, com o título de Rosemeyer!. A obra foi feita em parceria com Chris Nixon, autor especializado na história das Flechas de Prata, possui dois capítulos extras em relação ao original. Em 1998, nos sessenta anos da morte de Bernd, uma nova edição chegou às livrarias.

Mas a Srª Rosemeyer era aviadora, e fez de sua vida uma aventura sobre asas. Retornou aos ares em 1948, antes disso casou-se de novo, teve uma filha, Stéphanie, mas o novo matrimônio durou pouco. O automobilismo voltou a cruzar algumas vezes com ela, um fato interessante ocorreu no início da década de 1960, quando um grupo de mulheres de aviadores americanos buscavam financiamento para o selo comemorativo da heroína dos ares: Amélia Earhart.

Em 1937 Elly Rosemeyer acompanhou o marido até Nova Iorque, na prova que ela considerou ter sido sua maior exibição. A Copa Vanderbilt, realizada no dia 05 de julho, contou com a participação dos pilotos da recém terminada edição das 500 Milhas de Indianápolis, inclusive do vencedor – Wilbur Shaw, e dos rivais das corridas européias, como Tazio Nuvolari e a equipe Mercedes Benz, que levou o chefão Alfred Neubauer e seu principal piloto, Rudolf Caracciola. Bernd ganhou a prova, e uma considerável premiação.

Aquele fim de semana ficou marcado pela tragédia de Amélia Earhart, seu avião desapareceu sobre o Pacifico dias antes, em 02 de julho de 1937, quando buscava um recorde de volta no globo terrestre. O fato abalou profundamente Elly Rosemeyer, que era uma grande admiradora da piloto. Para entender a repercussão do acidente, basta dizer que até hoje equipes de pesquisadores, contando inclusive com arqueólogos em suas fileiras, fazem buscas dos restos da expedição.

Aconteceu que Elly resolveu contribuir para a campanha do selo comemorativo, utilizando parte do dinheiro que Bernd havia angariado na vitória da Copa Vanderbilt de 1937, e que permanecia desde então depositado num banco americano. Críticos do regime nazista, o casal optou por deixar a quantia guardada para o caso de necessitarem mudar de país.

Incentivadora das mulheres aviadoras, Elly cumpriu expedições desde o início da carreira, esteve no Rio de Janeiro e na Bahia, entre 1931 e 1932, durante uma tentativa de volta ao mundo. Naquela época nosso país fazia parte destes roteiros, e além da figura de Alberto Santos Dumont já eram realizadas aventuras aéreas, como a travessia do Atlântico de 1922, feita pelos portugueses Sacadura Cabral e Gago Coutinho.

Contávamos também com duas pioneiras dos ares: Anésia Pinheiro Machado e Tereza de Marzo. Nascidas na mesma década de Elly, tiraram o brevet inclusive antes, em 1922, porém com a mesma faixa de idade da piloto alemã.

Elly Rosemeyer morava em Munique, em endereço não revelado, encerrou sua carreira em 1979, aos 72 anos de idade. Desde o fatídico 28 de janeiro de 1938 passou a cumprir um ritual, que seguiu até o fim de sua vida: todos os anos mandava depositar sobre o túmulo de Bernd, no cemitério de Berlim, treze flores, em referência a memória do ex-marido e ao número de sorte, que coincidentemente acompanhava ambos, mesmo antes de se conhecerem.

O filho do casal, Bernd Rosemeyer Junior deve continuar cumprindo esta missão. Afilhado de batismo de Tazio Nuvolari, chegou a ser amigo de Wolfgang Von Trips - a morte do piloto alemão levou sua mãe a afastá-lo dos ambientes das corridas. E hoje, aos 71 anos, ocupa uma cadeira de professor na Universidade de Munique.

Elly Beinhorn-Rosemeyer atravessou o conturbado século XX, e recebeu durante sua vida diversas homenagens. Em 2007 o Deutsche Post lançou um selo comemorativo pelo seu centenário. Em 1993 a Lufthansa restaurou um dos aviões que ela usou e que sobreviveu à Segunda Guerra Mundial, grafando seu nome na fuselagem, o aparelho é utilizado em apresentações de vôo, onde ela deu seus primeiros passos na carreira.

Atuou como fotógrafa e jornalista, foi biografada e escreveu diversos livros, o primeiro em 1932. Sua autobiografia - Alleinflug. Mein Leben (Vôo Solo, Minha Vida) foi reeditada em 2007. São diversas páginas, que entre escritos próprios e de outros autores, narram suas aventuras por países e continentes, bem como seus recordes de longa distância, dedicando pouco espaço para sua passagem pelo mundo automobilístico.

Mas isto não importa, pois sua contribuição nestes poucos mais de dois anos em que viveu no ambiente do esporte a motor foi significativa. Aviadora, foi também a companheira do único homem que conseguiu dominar com maestria o mais poderoso carro de Grande Prêmio da História.

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*Motores Roncantes

O nome da coluna faz alusão ao titulo do livro de Ludwig Sebastien: Hinter Dröhenden Motoren (Atrás dos Motores Roncantes). O autor foi mecânico de Bernd Rosemeyer, e uma das primeiras pessoas a chegar ao local do acidente no dia 28 de janeiro de 1938. Trabalhou também com Rudolf Caracciola na época em que os mecânicos acompanhavam os pilotos no carro.


Annibal Affonso