Meninos, eu vi


Agora são quase oito horas da noite deste domingo histórico. Chove, e de tanto que se pediu a chuva, tenho a sensação de que chove no Brasil inteiro. É preciso registrar e dizer a hora, é preciso dizer que chove e é preciso sobrepor a emoção à razão, porque o tempo vai passar e eu vou duvidar de que vivi esta corrida que acabou há pouco, neste dia de finados, em Interlagos.

Disse acabou, e me corrijo. O Grande Prêmio do Brasil do dia 2 de novembro de 2008 não terá fim. Para sempre, bastará fechar os olhos para voltar ao momento em que Sebastian Vettel sobrepujou a Lewis Hamilton e então viver de novo os instantes em que todo o autódromo, todo o Brasil, toda a Itália e talvez toda a Espanha escoltaram Felipe Massa até a bandeirada e à ilusão do título mundial de pilotos.

É difícil lembrar o que senti há dezessete anos, no último título de Ayrton. É certo que me emocionei, e que todos os que estavam no bar onde assisti a corrida comemoraram. Bebemos, rimos e celebramos o tricampeonato de Ayrton Senna. Mas ele era o melhor, e era o terceiro de seus títulos, não sei exatamente o que sentimos meus amigos e eu, mas era um sentimento com algo de superioridade.

Hoje foi diferente. Quando Lewis caiu para a sexta posição e Felipe tocava firme e forte para a vitória, Interlagos explodiu como nunca havia acontecido. Um piloto brasileiro estava a poucos quilômetros de conquistar um título mundial no Brasil e a vitória de Felipe passou a ter um significado que nem a seleção brasileira de futebol tem mais. Porque é difícil torcer para uma seleção com jogadores europeizados e que têm uma vaga lembrança do Maracanã ou do Morumbi, mas é natural apoiar um piloto que se sente em casa na curva do Laranjinha, que venceu o descrédito, que reagiu quando foi dado por morto com apenas duas provas disputadas, que recusou ser comparado aos nossos três campeões mundiais e dá às vitórias e derrotas seus reais tamanho e valor.

E quando o choro preso ainda lhe embargava a fala, quando os olhos marejados o impediam de reconhecer os rostos de sempre na entrevista coletiva, Felipe admitiu que o título de Lewis Hamilton foi justo, agradeceu à equipe e à família e disse que estava orgulhoso de tudo o que tinha feito.

É isso. Lewis é um justo campeão, Felipe foi um gigante e a Fórmula 1 viveu a maior de todas as suas decisões. Já eu não lembro direito o que senti quando o Brasil ganhou pela última vez o mundial de pilotos, e ainda não consegui organizar todas as emoções deste domingo chuvoso de Grande Prêmio Brasil. E desculpem se me volto a mim mesmo, mas escrevo esse texto para não duvidar de que fui testemunha da história, e que para quando chegar o dia em que meus netos me perguntarem sobre a decisão do Mundial de Fórmula 1 da temporada de 2008, eu possa dizer entre a saudade e o orgulho: “- Meninos, eu vi.”


Mauricio Neves de Jesus