Bigas, cavalos e a Ferrari


Pilotos erram, equipes também. É assim desde que existem equipes e pilotos. Talvez até nas corridas de bigas fosse assim, e aí entraria mais uma variável, o cavalo – não a unidade força, mas o cavalo de quatro patas. Vinha o sujeito tocando a biga numa boa, ponteando, as rodas agüentando o tranco, a platéia urrando na arena e vupt, o cavalo pisava de mau jeito com a dianteira direita, a biga saía de traseira e se acabava na barreira de feno, fim de prova. Pilotos, equipes e cavalos, todos sujeito a erros.

Desde quando comecei a acompanhar a Fórmula 1, através das corridas na televisão e do meu autorama com uma Copersucar amarela do Emerson e uma Ferrari do Lauda, que vejo pilotos fazendo boas corridas e perdendo para uma porca que voa longe, para um erro no pit stop, para uma biela ou para a campeã de todas as falhas, a hidráulica. Equipes erram.

Também faz tempo que vejo equipes entregando carros redondinhos para os pilotos estragarem tudo com uma ultrapassagem desnecessária sobre um retardatário, uma distração qualquer na volta final, e olha que esses chapéus até Ayrton veste, Nakajima no Bico de Pato em 1990 e o muro em Mônaco em 1988. Vejam bem, Ayrton. Nem precisei recorrer às lambanças do Mansell para ilustrar. Pilotos erram.

Por isso não gosto quando ouço que determinado piloto perdeu para a própria equipe. Ora, a mesma equipe que errou antes ou durante a corrida é a mesma equipe que forneceu um bom carro durante toda a temporada. Erro é uma coisa chata pra caramba, mas acontece. Shit happens, deviam estampar isso nos aerofólios mundo afora.

Mas, mas. Tudo deve ter um limite. Há uma margem razoável para o erro. Além dessa margem é incompetência. Se um piloto erra demais em uma temporada, pode-se dizer que foi incompetente. Como Kimi Raikkonen em 2008. Assim como se uma equipe erra a ponto de ser o principal obstáculo para um piloto ser campeão, pode-se dizer que esse piloto perdeu para a própria equipe. Como Felipe Massa e a Ferrari em 2008.

É verdade que Felipe não começou bem a temporada. Aliás, nem mesmo começou bem a pré-temporada. Lembro da capa da revista Racing F1, ilustrando o campeonato prestes a começar com a foto de três pilotos acima da inscrição Lewis versus Kimi versus Alonso. Nada de Felipe. E como nada se viu de Felipe nas duas primeiras provas, estava certo e ajustado que seria Lewis versus Kimi e que a referência a Fernando era respeito aos dois títulos mundiais.

Então Felipe voou no Bahrein, na Espanha e na Turquia, duas vitórias e um segundo lugar. Fez uma bela pole em Mônaco e outro pódio. Escapou da encrenca entre Kimi e Lewis no Canadá, fez a mais bela ultrapassagem da temporada no hairpin – dupla, lembram-se? – e saiu dali para vencer na França. Venceu, alcançou a liderança, o primeiro brasileiro a liderar desde Ayrton, e disse que ainda se sentia pequenininho perto dos campeões Fittipaldi, Piquet e Senna.

Some-se a isso a mágica largada na Hungria. Não há dúvida, estamos diante de um grande piloto. Ainda pequeno perto dos campeões citados, é verdade, mas um grande piloto. Capaz de vencer o descrédito da pré-temporada, o mau começo, a má vontade de parte do público brasileiro – se é verdade que o grande público torce e distorce por ele ser brasileiro, uma outra parcela se nega a enxergar qualquer mérito em sua pilotagem – e capaz de voltas sensacionais nas classificações, como essa de Cingapura. Mas ainda que possa vencer tudo isso, ainda que possa ser bem mais do que eu fui capaz de apostar pelos anos Sauber, é certo que Felipe não pode vencer a incompetência retumbante da própria Ferrari. Em uma noite como essa de Cingapura, só tem uma diferença entre estar no cockpit de um F2008 ou no comando de uma biga. Não dá pra botar a culpa no cavalo.


Mauricio Neves de Jesus