A FIA conseguiu se superar...


A decisão da FIA de alterar o sistema de pontos, consagrando campeão o piloto que mais alcançar vitórias na temporada, é a maior mudança que a categoria já sofreu desde 1950. O motivo, segundo o todo-poderoso Bernie Ecclestone, é tão somente valorizar a vitória. O manda-chuva já está cansado das trocas de gentilezas que imperam na F-1 atualmente (a velha história de falta de emoção e pouco caso na luta por posições). Ao que me consta, também, Bernie não ficou nada satisfeito com o desfecho do campeonato do ano passado – sem dúvida uma das mais emocionantes disputas de título de todos os tempos –, em que Lewis Hamilton venceu Felipe Massa mesmo tendo uma vitória a menos no ano. Tamanha injustiça tinha que ser evitada daqui em diante. Agora, quem quiser ser campeão que vença corridas!

Dessa vez a trupe conseguiu se superar.

Antes de mais nada, é necessário separar duas coisinhas. Já faz tempo que os amantes do esporte a motor clamam por emoção na F-1. Vivem reclamando que as corridas são chatas, que ninguém passa ninguém, que o cara prefere ficar quietinho em segundo a arriscar uma vitória, etc, etc, etc. Para mudar esse cenário, mudam-se as regras. De uns tempos para cá, então, é uma mudança por ano. E as disputas – ironia – não mudam nada.

Na verdade, o buraco é mais embaixo.

Existe uma diferença entre luta por posições e luta por vitórias. Se a F-1 atual carece de ultrapassagens é por causa da configuração dos carros somada ao traçado das pistas. As restrições à aerodinâmica na década de 90 foram muitas, fora a substituição dos slicks pelos pneus sulcados. Isso sem falar nas pistas reformadas, tendo seus traçados originais alterados em nome da segurança (vide a mutilação que fizeram em Hockenheim). Alguns circuitos nem integram mais o calendário. Pensar em carros andando bem próximos em curvas de alta velocidade com o retrato descrito acima é praticamente impossível. O piloto não ultrapassa não é por falta de atitude, é porque tem pista que não dá. Pode ser que com as mudanças técnicas nos carros desse ano a coisa melhore, mas acreditar que vai voltar a ser como era antes é, no mínimo, ingenuidade.

Agora vamos falar da luta por vitórias.

Quando mudaram o sistema de pontuação, em 2003, dando 8 pontos ao segundo colocado, o objetivo era muito claro: arrumar um jeito de frear a hegemonia de Michael Schumacher. No ano anterior, o alemão havia conquistado o título com seis etapas de antecedência, não dando chance a mais ninguém. Para tentar conter o domínio ferrarista, diminuíram para dois pontos a diferença entre o primeiro e o segundo colocado.

Foi a desvalorização da vitória. Vencer já não era essencial. A prova disso foi a temporada 2005. Para quem não lembra, Alonso conquistou o título no Brasil faltando ainda duas etapas para o fim do campeonato. Ele e Räikkönen chegaram aqui com o mesmo número de vitórias, seis. A diferença era que o espanhol já tinha na conta cinco segundos lugares e um terceiro, contra um segundo lugar e dois terceiros do finlandês (fora as quebras do louro). Resultado: caneco para Alonso e mais um vice para Kimi.

Outro perfeito exemplo foi o início da temporada 2007. Lembram das quatro primeiras corridas? O estreante-sensação Lewis Hamilton assumiu a liderança isolada do campeonato logo na quarta prova, na Espanha, sem vencer um GP sequer até ali. Foram quatro pódios, sendo três segundos lugares. 30 pontos na conta, contra 28 de Alonso e 27 de Massa. Detalhe: ambos já tinham vitórias até aquele momento.

Querem mais um? Ótimo, 2003, o primeiro ano do novo sistema de pontos. Raikkonen conseguiu levar a decisão do título até a última prova mesmo tendo vencido apenas uma das 16 corridas da temporada, contra seis triunfos de Schumi. E por dois pontos quase foi campeão. A compensação foi nas medalhas de prata: sete para o finlandês, nenhuma para o alemão.

Diante disso fica a pergunta: para quê forçar uma ultrapassagem numa pista travada e correr o risco de perder pontos preciosos numa possível batida? Essas temporadas mostram que vencer sem manter a regularidade não valeria de nada. Hoje não dá para vencer? Vamos ao menos tentar o pódio e somar pontos. Se os pilotos não lutam tanto por vitórias (como argumenta Bernie) é porque eles sabem fazer contas...

O fato é que o sistema não tinha que ter sido alterado antes. Que culpa tinha a Ferrari de ter o melhor carro e a melhor dupla de pilotos na primeira metade dos anos 2000? Tanto era a melhor equipe que resistiu bravamente ao novo sistema de pontos até 2004 (e se Schumacher perdeu nos dois anos seguintes para Alonso nem de longe foi por causa da nova pontuação).

Dar o título àquele com mais vitórias é a desvalorização de todo o resto. É picar em mil pedaços o trabalho de uma pré-temporada inteira que visou desde o início a confiabilidade dos carros. As outras novas regras, as técnicas, provocaram mudanças radicais. Os slicks estão de volta, os aerofólios foram redesenhados, motores precisam durar três corridas, os penduricalhos aerodinâmicos foram banidos. Foi muita quebração de cabeça até chegar aos resultados vistos nos testes. Quem tem o poder de mandar nas regras não deve nem imaginar a luta que é depois para se adaptar a elas.

Se a ideia é valorizar a vitória, por que não premiar o vencedor com mais pontos como era até 2002? Não digo nem do sistema antigo voltar, mas então que fosse aprovada a sugestão da Fota. Mais coerente impossível. Mas não, o negócio é polemizar.

Cada ano que passa, eles se enrolam mais na própria corda.


Luana Marino (luana.marino@ig.com.br)