Obrigada, Rubinho!


Lembro daquele 30 de julho de 2000 como se fosse hoje. Tinha acordado bem cedinho para a minha mais nova rotina de domingo. A expectativa para o Grande Prêmio da Alemanha não era das melhores, já que Barrichello largava apenas em 18º. “Que raiva daquele treino! Poxa, lá atrás? Poxa, Rubinho!”, resmunguei o sábado todo. A decepção foi enorme, até porque era a minha primeira temporada de F1 acompanhada desde o primeiro GP. Não entendia quase nada, apenas sabia que a Ferrari era a melhor equipe. E como o piloto da melhor equipe ia largar lá atrás? Não me conformava de jeito nenhum.

Eu tinha descoberto o mundo da Formula 1 no ano anterior por acaso, zapeando o controle remoto. Nunca tinha me interessado em assistir porque me diziam que as corridas eram chatas. “Depois que o Senna morreu perdeu a graça, minha filha”, era o que ouvia do meu pai e do meu tio. Eu nem sabia direito quem era o Senna. Quando ele morreu, eu era uma criança de seis anos. A única imagem que ficou marcada daquele ano para mim é a da Eliana, que apresentava o meu programa infantil favorito no SBT, chorando muito, com a imagem do Senna e aquela musiquinha ao fundo.

Realmente não imaginava a graça de um monte de carrinhos dando voltas numa pista e nem entendia o que Ayrton Senna representava para o Brasil. Até que descobri. Tinha muita graça! Tinha emoção, arrepiava! E Senna fazia muita falta, pelo visto.

As esperanças voltaram quando Rubinho assinou com a Ferrari para a temporada seguinte. Prometeu vitórias. Meus olhos brilharam quando o vi no macacão vermelho. Quando a temporada 2000 começou, eu aguardava ansiosamente por cada GP. Passei a contar o tempo pelo calendário da categoria. Prova a prova, GP a GP, minha expectativa crescia. “Será que hoje eu vou ver o Rubinho vencer?”. Fiz a mesma pergunta até aquele domingo de julho.

Lembro que estava frio. Para variar, meu coração disparou na largada, e eu tremia dos pés a cabeça (sempre fico tensa em largada). Já na primeira curva, Schumacher fora. “De novo? Não acredito...”. Aprendi a admirar o alemão, e fiquei triste por vê-lo mais uma vez fora de uma prova da temporada. “Já vi tudo... Häkkinen vai ganhar”, pensei. Até que a TV começou a mostrar aquela outra Ferrari, que largou lá atrás. “Caramba, pai! O Rubinho tá passando todo mundo, vem ver!”. “Ele tá aonde? Em 10º?”. “Não, tá em quinto”. “O quê!?”. “Nossa, ele tá voando! Vai Rubinho!”. “Mas como em quinto?”.

Estávamos na 6ª volta, e Barrichello aparecia na quinta posição. A essa altura eu já não piscava, mal acreditando no que via pela TV. Oito voltas depois e lá estava o carrinho vermelho em terceiro. “Ele vai ganhar, ele vai ganhar, não acredito!”. Ninguém acreditava, nem o mais fanático torcedor ferrarista. Do jeito que eu ouvia falar de Barrichello, aquele piloto em Hockenheim nem parecia ser ele. Mas era, era o Rubinho. Foram várias ultrapassagens na reta da floresta. Quando a TV mostrava a câmera onboard, era como se eu estivesse junto, ajudando-o a ganhar posições. Nunca senti tanta emoção vendo uma corrida. “Como alguém tem a coragem de dizer que isso é chato, que não tem graça? Ora, não entendem nada! Vai Rubinho!”, dizia bem baixinho, só para mim mesma.

Veio a primeira rodada de pits. Rubinho caiu para sexto. “Ah, poxa...”, expressão típica de quem não entende muito de corrida. Sobe de novo para quinto, e o meu coração volta a bater forte. “Ele vai ganhar, pai, vai ganhar”. “Calma, Lu, não vai ter um treco por causa de corrida, menina!”. Broncas desse tipo já eram comuns. “Ele vai ganhar, pai”, era só o que eu conseguia dizer.

De repente do nada, o que era aquilo no gramado da pista? “Ué, mas os ‘bandeirinhas’ não ficam atrás do muro?”, pensei. “Meu Deus, um maluco invadiu a pista! Ele vai atrapalhar o Rubinho!”. A minha preocupação era só o Rubinho, mais nada. Aos 12 anos de idade, pouco entendia de estratégias, e nem passou pela minha cabeça que um Safety Car poderia colocar Barrichello novamente no páreo.

E foi o que aconteceu. Rubinho subiu para terceiro. Minha garganta já estava seca. A corrida caminhava para a normalidade, quando a natureza encarregou-se de dar o toque final. “Chuva? Agora que o Rubinho tá no pódio? Eita, tá todo mundo rodando. Cuidado, Rubinho, é melhor parar para trocar pneus”.

Mas ele não parou. O antigo circuito de Hockenheim era um dos mais extensos, com 6.825m, e não era anormal chover apenas em alguns pontos da pista. Naquele dia especialmente, chovia na parte conhecida como ‘estádio’, circundado por arquibancadas, trecho de média e baixa velocidade. Na parte de alta, uma reta que cortava a densa ‘floresta negra’, onde os carros chegavam a atingir mais de 350 km/h, não chovia. Se estivesse chovendo ali, seria quase impossível manter o carro alinhado em tanta velocidade. Aprendi com o tempo que até nisso Rubinho se beneficiou.

Exímio piloto em chuva, Barrichello foi o único a permanecer na pista molhada com pneus para pista seca. “Ele é maluco”, disse meu pai. “Não, pai. Se ele parar ele perde. E ele vai ganhar, o senhor vai ver!”. As voltas iam passando e Rubinho permanecia. Cinco, quatro, três voltas para o final. Nada de Häkkinen no retrovisor. Era só controlar até a linha de chegada.

“Não acredito, eu vou ver o Rubinho ganhar. Vem ver, pai!”. Era a última volta. Toda a equipe foi para o muro dos boxes esperá-lo. Acho que o mundo todo torceu para que não desse nada errado naqueles metros finais. Finalmente, depois de tantas corridas, Rubinho ia ganhar. Lembro que ele entrou na parte do estádio e o Galvão disse que íamos ouvir o Tema da Vitória depois de anos. “Como assim? Não é a música do Senna? Vão homenageá-lo?”. Ainda deu tempo de pensar nisso nos segundos que antecederam à bandeirada.

“Eu disse, pai, eu disse! Eu falei que ele ia ganhar, eu sabia que ele ia ganhar! Valeu Rubinho!”. A euforia foi tão grande que, só depois de dizer essa frase e enxugar a lágrima que correu no meu rosto, prestei atenção na música. ‘A música’. Pela primeira vez na vida eu vi um brasileiro vencer na Formula 1. E pela Ferrari, a melhor equipe, como tinham me dito. Pela primeira vez eu senti a voz embargar. Senti a perna tremer. O sorriso congelou no meu rosto. Naquele momento eu compreendi o que Senna significava para o Brasil. “Então era assim que o meu pai se sentia quando o Senna ganhava”. Até minha mãe juntou-se a nós, não acreditando no que ouvia. O desfile após a primeira vitória, com metade do corpo para fora do carro, acenando para todos, fez meu pai lembrar aqueles tempos que ele gostava de ver corrida. Quando Rubinho chegou aos boxes, a demora em tirar o capacete fez meu pai sorrir, como se aquele piloto não fosse o Rubinho. “Filha, é o Senna”. “Não pai, é o Rubinho”.

Barrichello é um piloto que escreveu uma história muito bonita na Formula 1. Bateu este ano o recorde de Riccardo Patrese, tornando-se o piloto que mais vezes disputou corridas na categoria. Merece muito respeito, só que nem todos enxergam nele um nome respeitável. Eu sempre enxerguei. Agradeço sempre por ele ter me dado a maior emoção que eu senti na minha vida. Creio que até aqueles que, como o meu pai, viam as corridas por causa de Senna, sentiram a mesma coisa naquele domingo de julho.

A vitória de Rubinho foi uma das maiores vitórias da história da Formula 1. Mesmo nunca sendo campeão, eu o coloco entre os grandes nomes da história. Lembro de corridas memoráveis. Muitos falam da primeira volta de Ayrton em Donington, 93. Uma pintura, claro, mas naquela mesma corrida descobri que Barrichello largou em 12º, a ao fim da primeira volta já era o quarto colocado. E de Jordan. Seu último ano de Stewart foi um dos melhores. Vira e mexe estava ele lá, classificando-se entre os ponteiros. Já na Ferrari, deu um show em Silverstone, em 2003. E que ninguém tenha dúvidas de que Rubinho foi peça fundamental para a renascença da equipe Ferrari nos anos 2000.

Uma carreira sofrida, mas muito bonita que, ao que tudo indica, está prestes a terminar na F1. Não quero ficar com a imagem de um piloto decadente, que praticamente implora uma vaga para o ano que vem, e que luta para mostrar-se ainda competitivo. Não é esse o Rubinho que me encantou nas pistas. Prefiro levar sempre comigo a lembrança daquela última volta do GP da Alemanha, em 2000, quando levantei do sofá, ajoelhei diante da TV e apertei minhas mãos, agradecendo a Deus no meu inconsciente por aquela vitória. Prefiro ficar com a lembrança de Rubinho sendo erguido no pódio por Hakkinen e Coulthard. Quero lembrar da sambadinha desengonçada, que me fez gargalhar no sofá.

O Tema da Vitória, que me paralisou naquele domingo, começou com Piquet, imortalizou-se com Senna, mas também era dele. Rubinho foi o cara que me emocionou. É esse Rubinho que eu vou levar para sempre na minha memória. A única coisa que eu posso dizer é: “obrigada, Rubinho!”.


Luana Marino