Resta um


Tenho certeza de que todos aqueles que estavam presentes no autódromo de Xangai neste fim de semana esperavam por um flashback de 2007. A Ferrari, então, nem se fala. Também pudera: depois de tantas mancadas, com direito a cenas de filme pastelão em Cingapura, só mesmo uma repetição do que se viu na temporada passada para trazer Felipe Massa de volta ao páreo. E o cenário foi meticulosamente preparado.

De uma hora para outra, Lewis Hamilton virou o mais novo “Dick Vigarista” da categoria (apelido ostentado por Michael Schumacher, acusado por atos desleais em sua carreira). O motivo de tanta revolta foram três das últimas cinco corridas, nas quais o inglês teve uma atuação considerada “agressiva” demais (chegou a ser punido em duas delas). Por conta disso, não faltaram farpas endereçadas a ele: Glock, Heidfeld, Trulli, Webber, Raikkonen e claro, Alonso, foram alguns dos que giraram a metralhadora no rapaz. O clima ficou tão tenso que Hamilton declarou em alto e bom som que não está na F1 para fazer amigos (já desafetos...).

Ficou claro que o alvo era o emocional dele. Até que ponto o jovem inglês suportaria o fato de estar lutando não só contra seu rival direto, mas contra praticamente o circo inteiro da Fórmula-1 pelo título? Muitos alegaram que Lewis perdeu o campeonato mais ganho da história graças à imaturidade (porque inexperiência são outros quinhentos. Eu duvido que ninguém tenha ensinado a ele que, para fazer quatro pontos em duas corridas, não é preciso vencê-las). Após ser colocado no olho do furacão, um erro não seria anormal. Se acontecesse, diriam que era o preço da afobação. De fato ele mostrou-se assim em algumas provas, sobretudo na penúltima, no Japão. Hamilton, pelo visto, é o tipo de piloto que não aceita perder nem cara ou coroa (mas não é o único. Essa parece ser a característica principal dos grandes pilotos). Quando larga na pole e mantém a ponta, controla a corrida com maestria, mas quando se vê atrás, não quer perder um milésimo de segundo sequer. É um talento, um campeão em potencial, mas está apenas em sua segunda temporada. A tendência é amadurecer com o tempo.

Ron Dennis, ao que tudo indica, está cuidando disso. O que se viu na China foi resumido em uma única palavra: disciplina. Em um final de semana onde a Ferrari não ameaçou em momento algum, manter-se disciplinado foi o bastante para que Hamilton saísse de Xangai com uma confortável vantagem de sete pontos.

A mesma quantidade de pontos que tinha para Raikkonen no ano passado, é verdade, e que ele não soube administrar no Brasil. Mas diz o ditado que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Hamilton jogou o título de 2007 no lixo em erros infantis, e apesar dos ataques de que não aprendeu a lição, parece que a história não se repetirá.

China e Brasil. O primeiro já foi, monótono como de costume (talvez a chuva desse alguma emoção, mas Lewis largava na pole, sem contar que é muito habilidoso em pista molhada. O bicho pegaria do segundo para trás). Deu Hamilton. Deve ter respirado aliviado ao cruzar a linha de chegada. Mas resta um ainda, e na casa de Felipe Massa. Torcida pelo brasileiro não vai faltar, e este será o teste de fogo do inglês. Se confirmar este campeonato, não terá que provar mais nada a ninguém, sobretudo a ele mesmo.

Não gosto de arriscar palpites, até porque não sou nada feliz neles, mas acho que Hamilton leva. Massa pagou caro pelos erros de sua equipe, e a essa altura eles tornaram-se irreversíveis. Uma pena, já que eu creio que a temporada 2009 não será nada fácil para o brasileiro. Fora o próprio Hamilton, Alonso vem aí, e esse é osso duro de roer. Isso sem falar em Kimi Raikkonen, que não deve ser menosprezado jamais. Claro que durante as 71 voltas do GP do Brasil tudo pode acontecer. Felipe sabe exatamente como agir para manter vivas suas chances. Piloto disposto ajudá-lo, pelo que se vê, é o que não vai faltar.


Luana Marino