O favorito, o irregular e o inexperiente


A temporada 2008 de Fórmula-1 caminha para um final dos sonhos de qualquer anti-Schumacher: impossível de prever o campeão. Após 14 etapas, Lewis Hamilton e Felipe Massa estão separados por um único ponto. São os protagonistas de um espetáculo que nos trouxe agradáveis surpresas até o momento.

Difícil imaginar que seria assim se tomássemos como parâmetro tudo o que aconteceu no ano passado. Há quatro etapas do fim – exatamente como agora –, Massa assumia publicamente que o título era praticamente impossível. Hamilton, por sua vez, ia do céu ao inferno em dois fins de semana seguidos, jogando no lixo aquela que seria uma conquista histórica. Rótulos foram criados: ao brasileiro, coube o papel de piloto irregular; o inglês pagou pela inexperiência e por não reagir bem sob pressão. Isso sem contar que o inesperado (mas não surpreendente) título de Kimi Raikkonen o transformava em favorito para 2008. E o que aconteceu nas primeiras provas desse ano confirmava as previsões: erros de Felipe, afobação de Lewis, superioridade de Kimi.

Mas o mundo da Fórmula-1 gira na mesma velocidade de suas máquinas, e o que temos hoje é o inverso das definições impostas na temporada passada. Raikkonen, após um início arrasador até Barcelona, voltou à velha rotina de má sorte (somada a uma boa dose inexplicável de apatia). Não vence desde o GP espanhol, sendo que nas últimas três corridas não saiu do zero. Seu companheiro de equipe, em contrapartida, marcou 23 pontos em 30 possíveis, encostando de vez no líder. Foi o suficiente para a Ferrari rebaixá-lo ao posto de fiel escudeiro de Massa nas próximas etapas, mesmo ninguém querendo admitir abertamente o fato.

Já Felipe mostra o quanto amadureceu em menos de um ano. Depois de uma temporada de altos e baixos, poucos apostavam nele (eu, inclusive). E eis que o brasileiro resolve mostrar porque está em uma equipe do gabarito da Ferrari. Foram oito pódios, sendo que em cinco ele subiu no degrau mais alto. É o exemplo vivo de como podemos aprender com nossos erros. Se não é genial, compensa naquilo que outrora era o seu ponto fraco: a constância. É arrojado, mas ao mesmo tempo consciente. Sua atuação no GP da Itália ilustra perfeitamente o que afirmo. Muitos disseram que o desempenho do brasileiro foi burocrático, ainda mais se levarmos em consideração o que fez Hamilton na pista. Ora, e o que poderiam esperar de um candidato ao título a bordo de um carro visivelmente instável em chuva? Vale lembrar que o circuito em questão era Monza, uma pista com média de velocidade superior aos 250 km/h. Achei Felipe discreto, sim, mas consciente. Ele sabia que qualquer manobra mais ousada seria um risco desnecessário. No fim das contas, usou a cabeça para salvar um fim de semana que prometia ser desastroso. A confiança só aumenta a cada GP.

E Hamilton? Foi o centro das atenções nas duas últimas corridas. Polêmicas à parte, a verdade é que o inglês já deixou para trás o mito de que sofreria com a ausência de um piloto mais experiente na McLaren. O cargo de primeiro-piloto-de-equipe-de-ponta não pesa mais. Lewis está mordido desde o ano passado, quando perdeu o título mais ganho de todos os tempos. Precisava provar – muito mais para si mesmo do que para os críticos – que não era apenas uma promessa ou gênio de um ano só. Suas atuações enchem os olhos dos mais saudosos amantes do esporte. Deu um show de pilotagem em Monza, com ultrapassagens para todos os gostos. Claro que eu não discordo dos que dizem que ele exagerou em algumas manobras (acho que ele forçou demais a barra para cima de Glock e Alonso, por exemplo), mas se por um lado Felipe não tinha muito o que fazer, para Hamilton era exatamente o contrário. Largando em 14º e vendo o seu principal adversário partindo em 6º, ele só teria chances na prova se lutasse pelas posições na pista. E sem querer menosprezar a belíssima e merecida vitória de Vettel, Hamilton cresceria no retrovisor do alemão se garoasse mais um pouquinho. Pilotou como se conhecesse a fundo cada milímetro do traçado de Monza. Apesar da pouquíssima vantagem na tabela, está muito mais solto do que em 2007, como se já corresse há tempos na Fórmula-1.

As próximas etapas prometem. Lewis e Felipe mostraram até aqui os campeões em potencial que são. Seja lá qual deles levar o campeonato, será merecidíssimo. Previsões? Não arrisco nada! Dizia para quem quisesse ouvir que Kimi Raikkonen seria bicampeão. Só que o favorito, quem diria, foi o primeiro a cair.


Luana Marino