Cabeça fria

Sou, ou procuro ser, dos que acham que é melhor pensar de cabeça fria. É melhor não se deixar influir pelo fragor do momento e, assim, despido das primeiras reações viscerais, tudo é visto de maneira diferente e, possivelmente, mais exata.

Digo isto em referência ao incidente envolvendo Lewis Hamilton e Kimi Räikkönen no passado GP da Bélgica. Aquele polêmico corte de chicane por parte do britânico, que desencadeou dois fortes e, em ocasiões, enfrentados pontos de vista a respeito de sua posterior punição. Toda classe de argumentos foram esgrimidos para apoiar as opiniões, fossem estas em prol ou em contra da punição aplicada a Hamilton por dita manobra.

A minha primeira impressão foi que Hamilton se beneficiou do lance, mesmo havendo cumprido o regulamento que diz que um piloto que obtenha benefício de uma manobra assim, deverá devolver a posição (ou posições) conquistada(s).

Ao meu modo de ver, o caso é que, perante a impossibilidade de se comprovar se Hamilton tinha intenção ou não de se beneficiar de sua saída de pista, devemos considerar que ele errou no ataque a Räikkönen, colocando-se numa situação difícil que, como último recurso e para evitar contingências maiores, teve de sair da pista. Desde esta premissa, me parece que resulta inadmissível que alguém se beneficie dos seus próprios erros. Caramba! Isto não acontece em nenhum âmbito da vida, pois quem erra, é quem acarreta com as conseqüências do seu erro. Portanto, admito como lógico que não se lhe podia permitir que se beneficiasse do erro.

No entanto, e apesar de todos os comentários sobre a saída de pista de Hamilton, me parece que o problema não radicava em dita saída, nem no que a provocou, fosse esta fruto de um erro ou não. Para mim a verdadeira questão do assunto, o que resulta indiscutível, foi a sua intenção de retornar à pista. Neste ponto, acho que ninguém dirá que Hamilton não fez tudo quanto esteve ao seu alcance para retornar à pista o mais rapidamente possível. Aqui, sim, houve clara intenção de não acabar prejudicado pela saída. De fato, acabou beneficiado do lance.

Recordemos que o propósito dos escapes é o de proteger a integridade do piloto em caso de saída da pista, seja pelo motivo que seja. O fundamento de sua existência é a segurança do piloto, não o de proporcionar-lhe um rápido retorno à pista.

Tampouco me parece pertinente atribuir a Hamilton qualidades como arrojo ou valentia e me resultou algo soez e pouco digno o seu comentário posterior à corrida sobre as gônadas de Räikkönen, pois não sabemos se o britânico teria atuado com o mesmo "arrojo" no caso de que naquele ponto houvesse grama, brita ou inclusive um muro ou árvores. Com os níveis atuais de segurança, creio que adjetivos como arrojo ou valentia têm um significado bastante diferente do que tinham antanho. Como disse o insigne psicólogo B.F. Skinner em certa passagem de seu livro Beyond Freedom And Dignity (Além da liberdade e da dignidade): “Num mundo onde a força e o valor não são necessários, os forçudos e valentes parecem até ridículos”.


Manuel Blanco – Valência, Espanha