Raposa no poleiro

Desde que tivemos conhecimento das atividades às quais se dedica Max Mosley em seus momentos de lazer, todo tipo de comentário discutindo se ele deveria ou não abandonar a presidência da FIA vem sendo emitido. Logicamente, há opiniões tanto favoráveis quanto contrárias à sua continuidade, e aqueles que o defendem argumentam que a tal "festinha" é algo que se restringe ao âmbito privado de Mosley, e que lá deve ficar.

Os defensores de Mosley destacam os enormes avanços no terreno da segurança havidos durante o seu mandato, mas eu não me atrevo a dizer que a situação teria sido diferente com outro presidente. Parece-me que as coisas acontecem quando há condições para que aconteçam, e este foi precisamente o caso da segurança, pois esta era uma preocupação anterior às medidas implementadas por Mosley. O euroNCAP, instituto europeu que testa a segurança de todos os carros vendidos na Europa desde 1998, foi a inspiração de Mosley, pois a FIA havia sido convidada a formar parte da organização como forma de dotar o organismo de relevância internacional. Portanto, as medidas propostas por Mosley apenas eram uma conseqüência da maior preocupação pela segurança que já havia na época.

Quanto à preocupação de Mosley com a segurança, poderíamos ainda recordar que, faz alguns anos, Max transferiu o seu escritório / residência para Mônaco, segundo ele mesmo, por sua própria segurança pois, no caso de um eventual acidente com morte na Formula 1, ele poderia enfrentar-se a algum processo legal e as leis comunitárias são muito mais duras que as monegascas. Neste caso, não há dúvida de que ele se preocupava com segurança. A sua própria...

Mas, retornemos ao que nos ocupa: as atividades lúdicas de Mosley. Max, iniciou um processo legal contra o jornal NOTW, pela emissão do vídeo que mostrava suas atividades sádico-masoquistas, argüindo que se tratava de uma violação de sua intimidade (cabe frisar que ele nunca negou as tendências que se podem inferir com base nas imagens do video). Finalmente, a denúncia de Max foi desestimada, porém resulta curioso tanta preocupação pela privacidade, levando em consideração o seu total desprezo pela de outros.

Com motivo do recente caso de suposto uso indevido de informação da Ferrari por parte da McLaren. algumas dúvidas foram suscitadas sobre a validade como prova da correspondência mantida entre Mike Coughlan e Nigel Stepney. Perguntado ao respeito dessas dúvidas, Mosley repondeu:

"The world council's only concern is whether the list is accurate and truthful. We are not concerned with whether there are issues over how that is obtained. Unless there is no evidence that it is not forged or inaccurate, we will take it on its face of value ".

O que poderia ser traduzido como:
"Ao conselho mundial só lhe importa que a lista seja precisa e fidedigna. Não estamos interessados em como foi obtida. A menos que haja evidência de que é falsa ou imprecisa, nós a teremos em conta."

Max tampouco teve algum escrúpulo em publicar a correspondência privada mantida entre Alonso e de la Rosa (incorrendo, assim, num delito). Como vemos, para Mosley a única privacidade que importa... é a sua.

Apesar de tudo, concordo que ao que se dedique Mosley em seu tempo livre é algo privado, mas não estou tão convencido de que o assunto não se estenda além dos limites da privacidade, pois me pergunto até que ponto é "institucionalmente higiênico" manter um sádico adúltero na presidência de uma organização internacional de tanta relevância. Pergunto-me, até, se os serviços prestados pelas prostitutas que aparecem no vídeo, foram por conta do próprio Max ou da FIA, pois de um cara assim podemos esperar qualquer coisa, mais ainda contando com todo o dinheiro "fresco" da multa imposta à McLaren.

Além do mais, o comportamento de Mosley no vídeo me causa muita inquietude, e rememorando algumas de suas mais recentes e polêmicas atuações, não posso deixar de pensar nelas. Por exemplo: no caso da "espionagem" da McLaren à Ferrari, Max sempre disse que empregaria a máxima tenacidade em resolver o assunto. Porém, me pergunto se tanta tenacidade respondia realmente a uma legítima busca da verdade ou era uma forma de satisfazer sua mais abjeta necessidade de prazer, pois, como sabemos, os sádicos desfrutam causando sofrimento. Parece-lhes que alguém assim conta com o suficiente equilíbrio emocional para ser equânime?

Esta dúvida, creio que deveria ser suficiente para afastar Max da presidência da FIA, pois não me parece lógico que alguém que desfruta com o sofrimento alheio, tenha o poder de causá-lo.

Acaso alguém deixaria uma raposa no poleiro esperando que esta tomasse conta das galinhas?

Manuel Blanco – Valência, Espanha