Minha corrida inesquecível


Este texto foi escrito em setembro de 2006 e jamais publicado. Conta minhas impressões de um fato ocorrido há exatos 20 anos e que revela um pouco da minha intimidade. O período é, certamente, o relevante possível para que eu possa compartilhá-lo com todos.


Formula 1, GP do Japão, Suzuka - aquele do primeiro título do Ayrton Senna, 30 de outubro de 1988. A corrida inesquecível da minha vida faz parte de um tempo em que eu era um pirralho de quatro anos e não mais que um metro de altura. Nem sabia ler, tampouco escrever - mas já era portador do tal “vírus” incurável do automobilismo. Meus pais presentearam-me, meses antes, com o álbum de cromos da temporada - aí é fácil imaginar no que deu. Era pra ser um singelo passatempo: virou obsessão, mania... Mesmo com tão pouca idade, eu conseguia reconhecer carros, pilotos, capacetes, circuitos... em suma, um tremendo pentelho que não parava de falar em Formula 1 aqui e acolá, todo o tempo.

Mas voltemos ao GP. Este acontecera na madrugada. Grande novidade, já que eu sequer tinha idéia do que era fuso-horário. Lembro que meu pai me acordou, depois de fazer um café, e assistimos ansiosos às propagandas preliminares, entre outras, da U.S. Top (“Bonita camisa, Fernandinho”, bordão clássico). Japão ao vivo, finalmente. Na primeira tomada, ao longe, um helicóptero sobrevoando o circuito nipônico, num céu muito, muito cinza. “Olha pai, vai chover. É bom pro Senna, né?”. Grandes esperanças. A qualquer momento podia rolar água. Seria fácil para o Senna, com sua McLaren MP4/4, em habitual pole-position, disparar para a vitória. Alain Prost, único rival pelo título, não teria a menor chance.

Carros alinhados. Então, acontece aquela largada pavorosa, com Senna inerte, braços pro ar e carros passando por todos os lados. Desânimo por uma iminente vitória de Prost, na outra McLaren, imediatamente elevado à condição de franco-favorito-absoluto-imbatível. Deu incrível vontade desligar a TV e ir dormir. Mas meu pai e eu, àquela altura, mais acordados do que nunca, concluímos: já que estávamos acordados, assistiríamos até o fim, por pura curiosidade. Então veio a recompensa por continuar na frente da telinha...

Enquanto Prost segurava um endiabrado Ivan Capelli, numa March que até hoje não sei se era verde ou azul, Senna engolia os adversários rumo ao encontro com os ponteiros. Nem o roteirista hollywoodiano mais pirado poderia ceifar a participação de Capelli num momento tão propício a Senna. Foi na hora certa, parecia arranjado: Capelli quebrou e Senna colou em Prost. Uma garoa fina e Senna, no trecho mais sujo da reta principal, passa o francês rumo à consagração. Vitória espetacular. Abraço meu pai. Do podium, lembro da guerra de champanhe; deuses hoje imortalizados num pôster enorme destacado na parede do meu quarto.

O teórico alemão Walter Benjamin define magistralmente o que é a lembrança: “Um acontecimento vivido é finito. Um acontecimento lembrado é ilimitado”. Faz tempo, mas aquela corrida permanece fresca na minha mente. Provocou em mim tais mudanças ilimitadas. Ainda encontro-me em constante transformação pela minha paixão pelo esporte a motor. Japão 88 fez parte da minha formação e vocação; faz parte do que sou - um apaixonado por automobilismo que escolheu o jornalismo para vivê-la intensamente.


Lucas Giavoni