Rubens, no plural


E eis que chegou o dia. Há pelo menos cinco anos venho me preparando para ele, pensando no que não poderia deixar de escrever quando o momento chegasse. E então, quando preciso enfrentar a página em branco, percebo o quão inglória é a missão de tentar resumir 19 anos num único texto.

Para começar, é preciso dedicar algumas palavras a esta incrível marca. Dezenove anos consecutivos no pináculo do esporte a motor, sendo bem pago para isso, não é coisa para qualquer um. Barrichello pode nunca ter sido o melhor piloto do mundo, mas manteve-se no top 10 ao longo de duas décadas, atravessando diversas gerações posteriores à sua. Tal combinação de competência e resistência moral encontra poucos paralelos no mundo do esporte, e é justo afirmar que ele jamais perdeu a motivação ou a capacidade de pilotar. Não o fará em 2012 por conta de interesses mercadológicos, mas se dependesse apenas de competência ou de sua vontade, Rubens ainda teria lugar no grid por alguns anos. É importante frisar este ponto: sua carreira jamais murchou por falta de empenho, conforme vimos acontecer a diversos grandes campeões. Basta lembrar, por exemplo, as temporadas derradeiras de gente como Jody Scheckter, James Hunt, Niki Lauda, Damon Hill ou Mika Häkkinen, entre muitos outros.

E como será estranho não vê-lo na pista! Para muitos jovens que já votam e possuem habilitação, todas as corridas vistas na Fórmula 1 contaram com a participação do veterano brasileiro. Transportando toda esta longevidade para o início dos anos 60, por exemplo, Rubens poderia ter começado a carreira correndo contra Stirling Moss, e tê-la encerrado disputando curvas com Nelson Piquet. Ao todo foram 326 participações, com 322 largadas. Para se ter uma ideia do tamanho deste feito, um piloto que começasse a carreira em Silverstone, 1950, teria que pilotar até o GP na mesma pista em 1979, caso quisesse igualá-lo. Dos 858 GPs disputados oficialmente até hoje, desde a formação do campeonato, Barrichello esteve inscrito em nada menos que 38% deles. É muita, muita coisa.

Com a aposentadoria de Barrichello encerra-se também a 5ª geração em continuidade na história da F1. Até então, seria possível contar a história da categoria através de Fangio, que correu com Brabham, que correu com Emerson, que correu com Patrese, que correu com Rubens. É verdade que Schumacher pertence à mesma geração do brasileiro, mas os três anos em que se manteve afastado deixam um buraco nesta cobertura. A partir deste ano, começa um novo ciclo.

E, para encerrar as brincadeiras com números, algumas das estatísticas de Barrichello na F1:

Quilômetros percorridos: 80.585 (Recorde)

Voltas percorridas: 16.631 (Recorde)

Quilômetros na liderança: 4.142 (22º na história)

Voltas na liderança: 854 (21º)

Grandes Prêmios que liderou: 51 (10º)

Vitórias: 11 (28º)

Poles: 14 (23º)

Largadas na 1ª fila: 34 (18º)

Voltas mais rápidas: 17 (16º)

Pódios: 68 (5º)

Em 103 corridas dividindo a Ferrari com Schumacher, Rubens, largou à sua frente 23 vezes. Em média foi 375 milésimos mais lento. Nada mal para quem lutava contra privilégios de peças e testes, e guiava carros projetados para seu companheiro de equipe.

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Ao volante, muito talento e um caso de múltiplas personalidades.

De um lado, se agruparmos as melhores atuações de Barrichello, teremos em mãos uma seleção que não fica a dever à maioria dos campeões mundiais. Corridas como as que ele fez em Donington 1993, Aida 1994, Mônaco 1997, Brasil e França 1999, Alemanha 2000, Brasil e Grã-Bretanha 2003, Grã-Bretanha 2008 são dignas dos maiores gênios do esporte, e não deixam dúvidas acerca de seu potencial. Da mesma forma, os excelentes resultados nas categorias de base e o baixíssimo nível de erros ao longo da carreira comprovam suas qualidades. Especialmente sob clima variável, ou em pistas como Monza, Interlagos, Silverstone, Hockenheim (antiga), Zeltweg, Montreal e Melbourne. Sob estas circunstâncias, Rubens era perfeitamente capaz de enfrentar Schumacher, mesmo em seus melhores dias.

Tendo vencido inúmeros campeonatos no kart, e após ter sido campeão europeu na F-Opel e na F-3 inglesa em anos consecutivos, qualquer um que olhasse para Rubens Barrichello ao fim de 1991 tinha boas razões para acreditar que o Brasil havia produzido seu quarto fenômeno em apenas 20 anos. Diante de tanto potencial, portanto, os números finais de Barrichello acabam sendo interpretados não com a finalidade de exaltação, mas sim com o intuito de entender como ele, afinal, não se sagrou campeão mundial. É quando nos vemos diante da complexidade de sua carreira.

Para começar, é preciso dizer que Rubens nem sempre foi brilhante.

Por alguma razão difícil de identificar, Rubens na maioria das vezes ficou aquém daquilo que poderia ter obtido através de seu enorme talento. São igualmente numerosas as atuações foscas ao longo de sua carreira, ainda que a maioria de suas participações tenha sido marcada por uma competência geralmente discreta. Em 2009, por exemplo, ele sofreu diversas vezes com o sistema anti-stall da Brawn, e demorou metade da temporada para perceber que vinha sendo prejudicado pelo tipo de freio utilizado em seu carro. Quando identificou e resolveu o problema, passou a andar melhor que Button – que, ano passado, desbancou ninguém menos que Hamilton. O campeonato, no entanto, já tinha ido pelos ares.

Há quem acredite que a terrível pancada em Ímola 1994 tenha roubado-lhe alguns décimos de segundo, ou ao menos parte daquela inclinação kamikaze que leva um piloto a jogar dados no instante em que julga a velocidade-limite para cada curva. Outros dirão que o casamento e os filhos é que terão o tornado mais, digamos, responsável. Qualquer que seja a causa real, o fato é que ao longo dos anos Rubens caminhou rumo à segurança, e esta mudança fica clara na forma como ele recentemente falou sobre seu acidente no fim de semana que cobrou a vida de Ayrton Senna. “Tudo que lembro a respeito daquele acidente é de um Rubens Barrichello muito jovem e idiota entrando na curva a uma velocidade impossível de ser mantida” – diria ele à revista Autosport. Vale lembrar que, naquela altura, o piloto “jovem e idiota” ocupava a vice-liderança do mundial, ao volante de uma Jordan bastante limitada.

Então seria Rubens um piloto de grande potencial e temperamento um tanto tranqüilo demais? Sim... Mas não apenas isso.

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A carreira de Barrichello foi mal administrada.

Desde a forma como assinou com a Il Barone Rampante na F-3000 em 1992, numa época em que a equipe não podia retornar à sede italiana por conta de dívidas, à maneira (ingênua?) como assumiu o fardo de devolver as alegrias à torcida após o trauma da morte de Senna, Barrichello esteve geralmente mal posicionado. E, assim, trocou o status de promessa pelo de chacota em apenas um ano.

Ao fim de 1994 sua reputação era das melhores, mas algumas decisões infelizes e imediatistas acabam mudando os rumos de sua carreira. O piloto – que na época ainda tinha a carreira administrada por terceiros – rompe a longa parceria com a Arisco e fecha com a Pepsi, apenas para ver a popularidade despencar com o mau desempenho e a menção a Senna na pintura do capacete. Comercialmente, era o princípio do fim.

Paralelamente, o brasileiro fica tempo demais na Jordan, e um erro besta de pilotagem (o pé esquerdo ficava mal posicionado, acionando o freio de forma involuntária sempre que a pista ondulava) demorou a ser identificado e lhe arranhou a imagem de piloto rápido. Quando vai para a Stewart, Rubinho praticamente recomeça do zero.

Ao fim de 1999 a reputação está novamente em alta, mas a esta altura qualquer contrato em equipe grande lhe seria bem-vindo. Por ter demorado demais a alcançar um cockpit competitivo, Barrichello acabou tendo que aceitar qualquer condição quando o fez. E o maior erro foi não ter transmitido isso ao público brasileiro. Nas pistas, o desempenho não foi ruim. As expectativas é que eram irreais.

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O relacionamento de Rubens com a imprensa, aliás, foi largamente favorável aos jornalistas.

Piloto emotivo, sincero, autêntico, extremamente otimista e completamente incapaz de esperar a cabeça esfriar antes de se manifestar, Rubens fez a delícia de todos os tipos de veículo. São incontáveis as declarações infelizes que pontuaram sua trajetória, ainda que estas tenham inegavelmente reforçado a humanidade do personagem.

Para o bem ou para o mal, Rubens nunca foi um piloto protocolar. E acho que levaremos um bom tempo antes que outro piloto da Ferrari volte a dar uma banana à equipe, diante dos olhos do mundo.

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Noutras esferas, a conduta de Barrichello foi impecável.

Legítimo corredor, Rubens em seus últimos anos colocou a competitividade acima do lado financeiro, e demonstrou todo o prazer que tira do trabalho. Paralelamente, seu papel à frente da GPDA foi levado com extrema seriedade e dedicação, servindo como exemplo aos pilotos mais jovens e menos experientes.

Damon Hill, de forma simples e sincera, disse que o paddock irá sentir falta do piloto brasileiro. David Coulthard pediu que ele fosse a Melbourne, receber a despedida que tanto fez por merecer. Patrick Head o isentou de culpa pelo ano desastroso da Williams, dizendo que em meio às mudanças estruturais, Barrichello simplesmente não tinha alguém com quem conversar acerca do desenvolvimento do carro.

Entre sucessos e derrotas, Barrichello escreveu uma carreira extremamente sólida no automobilismo internacional, e certamente deixará saudades ao torcedor. A rigor, a imensa maioria dos países jamais revelou um piloto de seu calibre, e poderíamos citar China, Índia, Rússia, Turquia e Japão como exemplos deste grupo.

Genial e apático, sincero e ingênuo... Certa vez alguém observou que os três campeões mundiais brasileiros possuem nomes terminados em fonema que sugere aumentativo. No caso de Rubens Barrichello, não. Contudo, ao fim de sua longa carreira, me parece bastante apropriado que seu nome seja escrito no plural.


E-mail para esta coluna: marcio@ultimavolta.com


Márcio Madeira da Cunha