Crueldade


Escrevo essas linhas ainda sob o choque da notícia da morte do grande piloto Marco Simoncelli. Faço isso de propósito, não quero esperar até que as emoções se acalmem, e a razão me permita ponderar os fatos de maneira mais equilibrada. Estou revoltado, sim. Muito.

Amo esse maldito esporte desde que me entendo por gente. Essa cachaça ingrata, traiçoeira, capaz de hipnotizar e fascinar mais do que qualquer outra invenção humana na área do entretenimento, a qualquer par de olhos que seja atento a detalhes. Esse vício devorador, esse esporte que teima em flertar com o drama, e que parece brincar de te roubar as mesmas pessoas que ao longo dos anos te ensinou a admirar. Quase como se te lembrasse, com sádico prazer, que não se deve apegar a nada, que essa vida, como diz Niemeyer, é meramente um sopro. Verdade irônica, vinda da boca de alguém com 102 anos de idade.

Nada no mundo do espetáculo supera em beleza o balé de um piloto levando sua moto ao limite, cada movimento de seu corpo exposto, visível, equilibrando forças violentíssimas a mais de 300 km/h, raspando o cotovelo no chão... E dando conta de tudo isso como se estivesse sempre fazendo pose para lindas fotografias.

Nos carros, não é muito diferente. No coração das máquinas mais rápidas que o engenho humano é capaz de conceber, pulsam dilemas humanos. Dentro do capacete um homem solitário, um viciado em adrenalina, um incompreendido que vive no limite entre a condenação carmática e autodestrutiva, e uma existência de sonho. Um esporte no qual a vitória é quase como um holograma disfarçando o vazio de um precipício. Acelere o suficiente, saiba parar no ponto exato, e colha os bons frutos. Passe um milímetro que seja do limite, e sofra as consequências.

E a coisa piora - afinal, ninguém compete sozinho. Quando as luzes se apagam, quando é dada a largada, aquele bando de solitários – apenas outra ironia –, experimenta um tipo de ligação que só encontra paralelo em pelotões militares em meio a batalhas verdadeiras. De repente, um torna-se responsável pela integridade física do outro. O grupo, trinta solitários, torna-se uma massa única, unida por cordões umbilicais invisíveis entrelaçando seus destinos. Um erro cometido, um excesso, pode terminar por não prejudicar somente a si mesmo, mas iniciar uma reação em cadeira que irá cobrar a vida de alguém que, de repente, vinha pilotando de forma até conservadora.

E então, toda aquela tecnologia, todo aquele esforço de antecipação, tudo de melhor que o homem é capaz de construir, fica sujeito aos caprichos do acaso, de forças incompreensíveis... Do rolar errático de dados. Da crueldade do destino.

Talvez eu esteja sendo injusto. Talvez, se olhar friamente para a coisa, eu deva concluir que ocorre o oposto, e que no fim morre muito pouca gente, diante do risco que se assume. Talvez, haja mais sorte que crueldade por aí, e no fim eu devesse estar agradecendo, em vez de reclamando.

Mas não hoje. Não agora. Estou com a cabeça quente, e não vou esperar até que ela esfrie.

Não me digam hoje que foi fatalidade, não me digam que faz parte. Pro inferno tudo isso. Essa semana o destino foi cruel, foi sádico. Dan Wheldon... Não, não foi justo. O cara venceu de forma épica, histórica, as 500 Milhas deste mesmo ano, numa aparição única. O tipo de conquista que compõe uma lenda. Aí ele começa a trabalhar no desenvolvimento do carro de 2012, fecha contrato com uma boa equipe, recoloca a carreira nos eixos e teria tudo para andar super bem no próximo ano, motivado e contando com informações privilegiadas. Mais que isso: o homem estava apenas começando uma vida de casado, tinha dois filhos pequenos demais. Tinha a minha idade, cacete!

Então o chamam para integrar o grid na última corrida do ano, na condição que crianças costumam chamar de “café com leite”. O colocam na última posição, e fazem uma aposta. Se vencesse, dividiria 5 milhões de dólares com um fã, sorteado ao acaso. Legal, só tinha a ganhar.

Aí uma manobra infeliz à sua frente derruba a primeira pedra do dominó, iniciando uma cascata irrefreável que termina com o encontro de sua cabeça junto à tela de proteção. Óbito cruel demais. Uma viúva e dois órfãos.

E então, exatamente uma semana depois, a nova estrela da MotoGP, que aos 24 anos havia assinado recentemente novo contrato para pilotar uma moto oficial da Honda, sofre um acidente besta, sem maiores proporções. Um mínimo excesso de velocidade supera o limite da aderência nos pneus dianteiros, a moto vai ao chão. Piloto e moto cruzam a pista, cruelmente à frente de Colin Edwads e – crueldade das crueldades – seu grande amigo e ídolo Valentino Rossi.

Não há nada que os dois possam fazer para evitar o choque, mas os dois tentam. É inevitável tentar mas, outra ironia, teria sido melhor não fazer isso. Ao guinarem para a direita, Edwards e Rossi acabam sendo definitivamente cercados por moto e piloto em movimento na mesma direção. O americano da Yamaha ainda parece colher a moto, mais que o piloto. Já Rossi, na tentativa última de escapar, acaba atingindo justamente a extremidade final do conjunto derrubado: a cabeça de seu grande amigo.

Com o impacto o capacete é arrancado num só golpe, dando ideia do tipo de energia que o pescoço de Simoncelli se viu obrigado a dissipar. Não, ele não tinha a menor chance.

Aquele garoto cheio de vida, exuberante, extravagante, polêmico, atrevido, agora é apenas um corpo esticado na pista, por onde outras motos ainda passam em velocidade de corrida. A ausência do capacete acrescenta enorme realidade à coisa, reforçando a sensação de que houve, o tempo todo, uma lógica sinistra por trás dos fatos.

No GP de Portugal deste mesmo ano, Simoncelli se viu em meio a uma pesada discussão com Jorge Lorenzo, a respeito de segurança. Ele, Marco, sendo acusado de ser perigoso, e debochando da inquisição que vinha sofrendo. Agora ele está morto, justo ele. Desculpe, mas é demais para a minha cabeça.

Estou revoltado, pois não foi para escrever esse tipo de coisa que estudei. Não foi para sofrer esse tipo de perda que tantas vezes me desloquei a autódromos, ou virei noites analisando corridas e divagando sobre elas.

Mais que isso, estou com medo. Perdi vários amigos em pouco tempo, e cobri duas mortes seqüenciais, marcadas pelo mesmo traço inconfundível da crueldade. Ainda sob efeito da emoção quase irracional, tenho medo do que ainda pode vir por aí.

James Hunt e Niki Lauda, numa certa altura de 1971, conversavam sobre os riscos da vida de piloto, e juntos chegaram à conclusão de que não lhes cabia acumular riquezas, pensando em curtir a vida no futuro. Simplesmente, o tal futuro podia nunca chegar. Era preciso, portanto, curtir o durante, curtir cada dia, cada noite, cada momento, dentro e fora das pistas.

Depois de sentir tão de perto o mau cheiro da morte nestes últimos dias, só consigo pensar da mesma forma.


E-mail para esta coluna: marcio@ultimavolta.com


Márcio Madeira da Cunha