Dominós e borboletas


“O bater de asas de uma borboleta em Tóquio pode provocar um furacão em Nova Iorque”. Essa frase, ou alguma de suas muitas variações geográficas, teria sido formulada pelo meteorologista e matemático estadunidense Edward Norton Lorenz, quando nos anos 60 este se surpreendeu com os resultados experimentais do sistema de equações algébricas que havia concebido para aprimorar a previsão do tempo. Segundo o caminho por ele aberto, ficava claro que mínimas variações num estado considerado inicial poderiam repercutir na forma de alterações inimagináveis, após algumas sequências de operações padronizadas, inspiradas nos fenômenos naturais.

Para compreender melhor essa proposta, imagine um “efeito dominó”, no qual cada peça derrubada se depare com outra maior e mais pesada. Assim, uma pequena pedrinha tombada pelo sopro de uma criança poderia, ao fim de uma cadeia, ser responsável pela derrubada de um arranha-céu. O sistema de Lorenz não era assim tão linear, mas a mensagem era mais ou menos esta.

Bom, certamente Lorenz não tinha o automobilismo em mente quando visualizou aquilo que ficaria popularmente conhecido como “efeito borboleta”, mas uma das grandes virtudes da Teoria do Caos – na qual o efeito se insere – é a de possuir aplicabilidades em virtualmente todas as áreas do conhecimento humano, desde a matemática às religiões. E assim chegamos ao nosso habitat natural, pois numa livre e atual tradução automobilística, a famosa máxima do matemático muito bem poderia ser reescrita como: “o bater de uma mola em um capacete na Hungria pode provocar uma temporada fantástica mundo afora”.

Passados seis meses desde aquele traumático dia 25 de julho de 2009, chego a sentir uma ponta de raiva de mim mesmo. Isso, por ter sido tão incapaz de enxergar os fatos que se tornaram inevitáveis logo assim que a pesada mola lançada pela Brawn de Barrichello golpeou violentamente o capacete de Felipe Massa, e dias depois, o brasileiro deu os primeiros sinais do que viria a ser uma incrível recuperação física.

Tal como numa sequência de dominós recém-posta em colapso, estava tudo lá. O fato inicial, o caminho incontornável, e o desfecho inevitável. Para quem fosse capaz de interpretar o bater de asas de uma borboleta, praticamente todo o cenário de forças da temporada 2010 da Fórmula 1 já estava visível e cristalino ainda na metade de 2009.

Elementar: por trás de comunicados de apoio e otimismo, a Ferrari começou a pensar num substituto para Felipe Massa no exato momento em que se deu conta da gravidade do ocorrido. Havia sido assim com Niki Lauda, 33 anos antes, e obviamente seria assim agora também. E nem mesmo podemos censurá-la por agir assim.

Elementar nº2: o primeiro nome cogitado teria de ser o de Michael Schumacher, maior ídolo da história da equipe, e oficialmente funcionário contratado de Maranello.

Elementar nº3: livre de pressões por vitórias ou título, havia grande chance de que o heptacampeão aceitasse o desafio. Até mesmo porque desde o anúncio de sua aposentadoria, o alemão sempre foi figurinha fácil em qualquer tipo de evento competitivo mundo afora.

Elementar nº4: Schumacher ainda se recuperava de uma séria lesão no pescoço, de tal maneira que seu eventual retorno poderia ser embargado por questões de saúde. Ademais, seus 40 anos o tornavam inadequado para a Ferrari em questões de longo prazo. Maranello precisava de um jovem talento, sob o qual pudesse construir uma nova hegemonia. Este nome, claro, era Fernando Alonso.

Elementar nº5: Com a opção por Alonso, a situação de Kimi Räikkönen ficava condicionada à recuperação de Felipe. Uma vez que o brasileiro dissipou os receios de que restariam seqüelas do trauma, o campeão mundial de 2007 poderia se considerar fora do time.

Elementar nº6: recebendo um salário irreal mesmo para os padrões da F1, Kimi tinha sua empregabilidade paradoxalmente reduzida. Depois de guiar para as melhores equipes e se sagrar campeão mundial, seu futuro na F1 teria de ser numa condição muito mais desconfortável. Ganhando menos, e tendo de se bater com companheiros de equipe abusados, na McLaren ou na Brawn. Para alguém desmotivado e cada vez mais peixe fora d’água como ele, a tantas vezes antecipada migração para o rally tornava-se talvez a opção mais provável.

Elementar nº7: Após ver seu nome pegar carona em tantos escândalos recentes ligados à McLaren, era evidente que a Mercedes iria esfregar as mãos diante de uma equipe vencedora (com seus motores) e à beira da falência como a Brawn. E embora esse fato não tenha qualquer relação com a mola no capacete, este já era um quadro visível na ocasião, abrindo a perspectiva de mais um possível destino a Schumacher.

Elementar nº8: Afinal, obviamente o problema no pescoço do alemão poderia ser resolvido em médio prazo, e a perspectiva de retornar pela Ferrari ao meio do ano poderia muito bem reacender sua insaciável sede por competição.

Elementar nº9: ao cogitar sua entrada oficial num momento de crise em que as demais montadoras estão arrumando suas malas, obviamente a Mercedes iria querer montar um time de sonhos, de preferência com volantes alemães. Paralelamente, Jenson Button iria buscar equipe e salário condizentes com sua nova condição de campeão mundial, de preferência o mais longe possível da sombra de Schumacher. Restava-lhe apenas a McLaren, que por coincidência queria se livrar de Kovalainen, e desejava um piloto mais forte para seu lugar. Sendo inglês então, melhor ainda.

Como vemos, as peças se encaixam perfeitamente, e de forma mais ou menos organizadas todas elas estavam lançadas já em meados do ano passado. Ok, talvez essa sequência de acontecimentos não fosse assim tão previsível naquela altura, mas ainda assim não restam dúvidas de que toda a cascata de transações e transferências, que terminou por desenhar um cenário inicial fantástico para a nova década automobilística, teve seu tiro inicial na improvável mola que por pouco não ceifou a vida de Felipe Massa.

Se Deus escreve mesmo certo por linhas tortas, o que poderia muito bem ter sido uma tragédia pode vir a marcar o início de uma época de ouro para o esporte a motor em seu mais alto nível.


E-mail para esta coluna: marcio@ultimavolta.com


Márcio Madeira da Cunha