O nome do jogo


Inteligência. Eis a única arma da Brawn GP, que explica sozinha todo o furor causado pela equipe nanica em meio aos gigantes da Fórmula 1 neste início de temporada. O grande mérito da Brawn foi, sem dúvida, se lembrar de algumas lições muito simples, que não se aprendem nas aulas de engenharia, e sim nas esquinas da vida.

A bem da verdade, aliás, algumas das coisas mais importantes que alguém deve aprender na vida nos são ensinadas antes mesmo que saibamos assinar nossos nomes. Uma delas, crucial sobretudo para os meninos, é que nunca se deve iniciar uma briga com alguém que seja mais forte. Outra, que começa a tornar as coisas um pouco mais complexas, é que jamais se deve fugir de uma briga, mesmo sob essas circunstâncias. Se acovardar no ambiente selvagem dos primeiros anos escolares não é uma opção.

Bom, e aí? Como enfrentar um 'inimigo' maior e mais forte?

Inteligência, meu caro.

Para começar, o mais fraco precisa aprender a amar as diferenças. Igualdade de condições não é negócio para ele. As chances residem na diversidade de condições e no caos. Não adianta seguir a cartilha lógica, pois as melhores estratégias pertencem aos mais fortes. Repeti-las, por mais que eventualmente garanta ao pequeno seu máximo rendimento, jamais bastará. Não adianta. Se um fraco quiser vencer, terá que arriscar e assumir a condição de zebra. Aumentar as variáveis é um bom caminho. Estatégias kamikazes também podem ser bem-vindas. O que importa é sair do convencional, pois essa é a única forma de romper com a ordem.

Outra coisa importante nesses momentos de adversidade, que qualquer garoto também aprende cedo na escola, é ter amigos fieis. Quando se precisa enfrentar um adversário maior, ter bons amigos aumenta em muito as chances de sobrevivência.

Por fim, é importante ter o distanciamento necessário para saber identificar quando uma batalha já está perdida. Se a ideia é vencer a guerra, o quanto antes você puder desviar seu foco para sua próxima chance de sucesso, melhor. Vale para a guerra, vale para o amor, e também vale para o mundo gelado e metálico da Fórmula 1.

Pois veja só: por que, afinal, essa equipe tão jovem e limitada foi capaz de levar para a Austrália carros melhores do que aqueles produzidos pelos maiores especialistas do mundo em criação automobilística?

Ora, não foi por seu departamento de engenharia e projetos ser melhor do que os da concorrência, isso parece claro. A questão aqui é única e exclusivamente inteligência. Ross Brawn aplicou, uma a uma, as lições que enumerei, aprendidas em sua maioria lá no jardim de infãncia.

Primeiro, ele compreendeu sua própria inferioridade em relação aos meios, e assumiu sua condição de zebra. Arrogância e prepotência são ótimos atalhos para a danação, e Ross sabe disso muito bem. Ao contrário, ele analisou a situação friamente, podendo assim se posicionar corretamente dentro do jogo.

Consciente em relação ao fato de ser 'o menor da turma', Brawn compreendeu que precisaria partir para táticas diferentes, jogar com outras armas. De nada adiantaria seguir as consagradas fórmulas de seus adversários. O caminho era inovar.

Por isso, quando olhou para o carro do ano passado e percebeu que se tratava de uma batalha perdida, voltou seu foco para sua próxima chance de sucesso. Neste caso, a temporada 2009. O regulamento havia embaralhado as cartas, e diante de um novo começo, quem pudesse se adaptar primeiro deveria levar alguma vantagem. De fora, víamos apenas um carro que cada vez andava menos. Porém, dentro dos laboratórios, um projeto sólido vinha sendo levado adiante.

O regulamento abria a possibilidade do KERS, e certamente os adversários mais poderosos correriam para usar esta nova arma. Seguir este caminho, portanto, seria a pior opção a se fazer. Simplicidade foi a palavra de ordem. Construir um carro simples, porém refinado. Mirar no equilíbrio do conjunto, justamente enquanto os demais estarão se virando para balancear um bólido usando apenas 10kg de lastro.

E então veio a notícia do abandono da Honda. De uma hora para outra o castelo desabava, e o caminho mais provável seria o da aposentadoria forçada. Foi então que Brawn se lembrou de que jamais se deve fugir de uma briga, e que quem tem amigos fieis tem sempre uma boa carta na manga.

A palavra dita e o fio do bigode ganharam status de contrato firmado dentro da oficina de Brackley. Ninguém parou de trabalhar, e quando uma decisão garantiu a continuidade da equipe, velhos amigos foram chamados. Os pilotos foram mantidos, por sua vez concordando em terem seus salários reduzidos. A velha lição do jardim de infância foi aplicada à perfeição.

Por fim, houve também a hora de finalizar o projeto. Ora, se a corrente vigente defende o lançamento do carro em fins de dezembro, o caminho da zebra deverá ser lançar muito depois. Deixe que os outros revelem suas soluções, e aprimorem seus projetos, não há pressa.

Analise, fotografe, compare, entenda. O que pode ser copiado, o que pode ser aproveitado, e o que pode ser aprimorado? Não cabe qualquer inibição ou vergonha nesse sentido, pois quem é menor precisa jogar com qualquer arma a seu alcance.

Pronto, agora sim. Você construiu um carro simples e competente, trabalhado por mais tempo do que qualquer outro, e embalado nas soluções e ideias dos próprios adversários. Ao volante você tem dois pilotos de reconhecida competência, certamente mais motivados que quaisquer outros no grid, e quando os tempos marcados forem muito melhores do que o esperado, seu maior aliado será seu próprio tamanho diminuto. "É apenas um blefe", dirão os grandões, de cima para baixo.

E, ao te subestimarem, estarão te dando ainda mais tempo. É aí que tornam-se frágeis, e por conseguinte derrotáveis.

É claro que mais cedo ou mais tarde a ordem volta a se estabelecer, e na Fórmula 1 não será diferente. Muito em breve a Brawn será copiada, o KERS vai começar a compensar, e os grandes voltarão a dar as cartas. Tudo bem.

Golias certamente derrotou muitos homens antes de enfrentar Davi, mas ninguém se preocupou em registrar isso. Notícia é quando o rabo balança o cachorro. Pouco importa se Ferrari ou Mclaren vão reagir e vencer este mundial. A verdade é que ele já está para sempre marcado pelo dia em que a inteligência e as lições do jardim de infância valeram mais do que milhões de euros, túneis de vento, simuladores e caríssimos departamentos de pesquisa.

Vencer é próprio dos grandes. Por isso mesmo eles serão sempre mais lembrados por suas derrotas.


E-mail para esta coluna: marcio@ultimavolta.com


Márcio Madeira da Cunha