A grande corrida da Fórmula 1


Graças a Emerson, Pace, Piquet, Senna, Rubinho e Massa, o Brasil pode se orgulhar de ter 99 vitórias na F1. Os números, porém, não dizem tudo, pois entre elas há algumas exibições realmente fabulosas, páginas de destaque na própria história do automobilismo.

Foi assim com Emerson na Argentina em 73, ou na Inglaterra em 75 (sem mencionar as grandes vitórias 'morais' de Montjuich 75 e Jacarepaguá 78). Foi também assim com o grande Moco em Interlagos 75. Piquet, por sua vez, encantou o mundo com pinturas em San Marino 81, Brasil 82 (estava ilegal, mas pilotou como um deus), França 85, Hungria e Monza 86, ou Austrália 90. Então vem Senna, e temos o episódio de Mônaco 84 (lembremos que ele recebeu a bandeira quadriculada em primeiro, juntamente com a vermelha que tornava inválida a volta final), Portugal 85, Espanha 86, Hungria e Japão em 88, Brasil e Hungria 91, Mônaco 92, e por fim Brasil e Donington em 93. As vitórias de Barrichello na Alemanha em 2000 e na Inglaterra em 2003 certamente também estão em negrito nessa lista, ao passo que entre as conquistas de Massa o GP do Brasil de 2008 surge com destaque, embora sua maior vitória tenha se evaporado numa quebra de motor na Hungria. E então, qual delas escolher?

Pois eu digo que, em minha opinião, a maior vitória do Brasil não figura nessa lista. Falo do incrível GP do Japão de 1989, vencido na pista por Ayrton Senna, e deliberadamente maculado por Balestre, como ele mesmo assumiria anos mais tarde.

Suzuka 89 é uma prova que impressiona pelo aspecto humano. O GP foi, em si, um reflexo das incalculáveis forças externas longamente acumuladas ao longo de dois anos da mais alta rivalidade esportiva e humana. Senna e Prost duelavam asperamente nos bastidores, enquanto nas pistas desenhava-se um paradoxo: Prost liderava o campeonato com folga, apesar de - pela primeira e única vez em sua gloriosa carreira - estar levando uma surra impiedosa de seu companheiro de equipe no que se refere a velocidade. Ayrton e Alain eram dois homens no limite, sobre os quais pesavam pressões impossíveis de mensurar. Um final apoteótico, na pista, era tudo que se poderia esperar para aquela verdadeira batalha.

Ao contrário de boa parte das corridas especiais, não houve nesse dia nada de anormal que afetasse a disputa ou o andamento de algum dos protagonistas. Não teve chuva, não teve pneu furado nem pit stop demorado. Teve, isso sim, estratégia, ódio, tensão, superação, dentes trincados dentro dos capacetes, delírio. Prost estava cansado de reclamar, de dar desculpas. Sempre fora visto como um piloto superdotado, capaz de encurralar Niki Lauda com sua fulminante consistência. E então, de repente, ele se via condenado a largar corrida após corrida atrás de seu companheiro de equipe, condenado a vencer apenas quando este abandonava. Não, nem mesmo ele, que parecia sempre tão alheio a essa condição, estava suportando mais aquilo. Prost foi ao Japão para derrotar Ayrton. Na pista.

Nos treinos nenhuma surpresa: Senna faz a pole com quase dois segundos de vantagem sobre o francês. É possível calcular o quão longe Ayrton teve de ir para anotar tal feito, mas esses números dizem mais, muito mais. Prost sabia que a pole já tinha dono e seria inútil lutar por ela. Sabia mais: em Suzuka o pole era obrigado a largar do lado sujo da pista, o que na prática anulava sua vantagem. Assim sendo, concentrou-se apenas em garantir um lugar na primeira fila, e obter o melhor acerto possível para a corrida.

É preciso que se diga algo sobre o francês: Prost não gostava de ir além de certos limites. Com sua habilidade, logo percebeu que não precisava dar tudo de si ou do equipamento para obter vitórias. A totalidade de um GP comporta as mais diversas variáveis, e Alain as manipulava como poucos. Importante, aos seus olhos, era conservar um ritmo forte e seguro ao longo de toda a prova. Porém, em raras ocasiões, ele mostrou ser dono de uma impressionante reserva técnica. Isso fica muito claro quando se presta atenção em suas performances nos GPs da França (sua própria ‘casa’), do Brasil (casa dos adversários), e em decisões de mundial. Ao contrário de Schumacher, que por diversas vezes fez corridas irreconhecíveis em decisões de título, Prost crescia na hora da decisão. E eu posso afirmar, sem medo de errar, que em toda a sua carreira Alain jamais quis tanto vencer uma corrida quanto aquela.

Olhando quase vinte anos depois, sua tática fica evidente. Ele sabia que Ayrton precisava vencer a corrida, e sabia também que O MP4/5 era rápido, mas de certa forma frágil. Além disso, Prost conhecia perfeitamente o temperamento do brasileiro, de tal modo que pôde antever o cenário e traçar uma estratégia brilhante para a prova. Ele daria tudo de si na luz verde, aproveitando-se da pista emborrachada. Se conseguisse fazer a primeira curva em primeiro, então iria surpreender o mundo com um ritmo de prova alucinante desde o início, fazendo o papel de coelho – totalmente fora de seus padrões, portanto. Ayrton que tentasse acompanhá-lo, assumindo todos os riscos que isso implicava.

E assim foi. Dada a largada tinha-se a impressão de que os capacetes haviam sido trocados, pois era Alain quem fazia uma primeira volta arrasadora. Importantíssimo notar também que o francês queimou aquela largada. Vendo as imagens de sua câmera onboard, quadro a quadro, isso fica muito claro. Ayrton, como todos que não conheciam os planos do francês, é nitidamente surpreendido. Num primeiro momento sua postura é a de não alterar o ritmo de prova, buscando conservar pneus e equipamento. Porém, estava numa terrível sinuca de bico: se partisse na suicida captura de Prost corria o risco de mais uma vez ficar pelo caminho. Se não o fizesse, poderia se ver atrasado demais para qualquer tentativa futura. Como Prost já previa, a indiferença de Senna não dura mais que umas poucas voltas.

Eis a história da corrida: Prost pilotando em ritmo de classificação, e Senna sendo obrigado a fazer o mesmo. Certamente Ayrton contava com os retardatários para aplicar bote semelhante ao do ano anterior, mas Prost era outro piloto naquele dia. Simplesmente não estava negociando, tirava e passava como se fosse Nigel Mansell. Ayrton ainda perdeu alguns segundos na troca dos pneus, de forma que, faltando 15 voltas, estava claro para ele e todo o mundo que só uma ultrapassagem poderia manter suas chances de título. A essa altura, aliás, o título era o de menos. Ganhasse ou perdesse, Ayrton havia dominado toda a temporada. Fora sempre mais rápido, sem jamais ter sido batido na pista. Isso, óbvio, até aquele momento, pois o que Prost estava agora fazendo era vencer o campeonato na pista, impondo a Ayrton uma velocidade até então oculta. Se vencesse, então todos poderiam dizer que, se quisesse, ele poderia ser tão veloz quanto Ayrton. Esse é o ponto: a vitória de Prost justificaria todos os seus argumentos, e mataria o mito Senna. Não era, portanto, apenas uma corrida. Era um duelo. Não se via nada parecido nas pistas desde o terrível embate entre Varzi e Nuvolari em Mônaco, 1933.

O mundo prendeu a respiração ao longo daquelas inacreditáveis voltas finais. Senna e Prost, carros iguais, condições normais, iriam disputar um pega de rua, valendo as próprias biografias, valendo o que ainda restava de honra. Senna iria tentar, todos sabiam. Vivera toda a sua vida para aquele momento, em que tudo o que sempre acreditou estava sofrendo o mais duro dos testes, diante dos olhos do mundo. Toda sua reputação, toda a credibilidade e até o respeito próprio estavam em jogo! Sim, ele tinha que tentar. Restava apenas descobrir quando, como e onde.

Quando nada mais restava além da certeza de que teria que ser no braço, Senna brilha. Apesar dos enormes aerofólios de então, ele consegue se aproximar, sabe Deus como. E então, na volta 47, faz a curva de sua vida na 130R, se posicionando próximo a Prost na freada da chicane. Havia chegado a hora.

Senna tira de lado, invadindo em muito a área de entrada dos pits, extremamente mal localizada. Deixa para frear onde apenas um gênio seria capaz, estourando qualquer limite de rotações do Honda. A curva era dele, e ninguém podia mudar isso. Ou será que podia? É então que o lado sombrio do plano de Prost vem à tona.

Alain estava pronto para essa possibilidade, conforme já havia antecipado em entrevistas. Vendo que havia perdido, provoca o acidente de forma insofismável. Dois fortes golpes na direção, que a TV japonesa mostrou à exaustão. Com tal movimento Prost antecipou a tomada da chicane em pelo menos 10 metros, como pode ser visto perfeitamente pela câmera no helicóptero. Os dois carros ficam presos, e o francês tem o sangue frio de deixar o McLaren engrenado em primeira marcha antes de abandoná-lo.

Ayrton é empurrado para fora da área de perigo, e volta à pista cortando a chicane. Prost fizera o mesmo em San Marino, e Mansell na Bélgica, naquele mesmo ano. Tal procedimento, um ano mais tarde, seria defendido pelos próprios pilotos, a começar por Piquet, no briefing do mesmo GP japonês.

Senna ainda está na liderança, mas tem o bico avariado. Chega a sair da pista numa certa altura, tentando chegar depressa aos boxes. Passa por Prost no caminho para os pits, naquela que foi sem dúvida a foto do ano. A McLaren troca o bico, sem mexer nos pneus, enquanto Nannini assume a ponta. Restam 5 voltas, e Senna agora precisa descontar mais de sete segundos de desvantagem, e ainda superar o italiano.

Na volta 51 Senna está embutido no Benetton. De forma a confirmar a legitimidade da manobra anterior, ultrapassa Nannini no mesmo ponto, da mesma forma. O êxtase do público japonês ao longo das duas últimas voltas é coisa de se ver. Senna vence a prova e soca o próprio capacete, enquanto à sua volta milhares de pessoas começam a se dar conta de que viram a grande corrida da história da F1.

Entre toda a herança dos episódios daquele dia, certamente a maior injustiça é que uma corrida única, absolutamente de sonho, seja lembrada tão somente pelo choque entre os McLarens e pela desqualificação de Senna. Esqueçam o campeonato, pois Ayrton não o perdeu ali. Mas não esqueçam a corrida. Em minha opinião, a maior vitória de um piloto desde a criação do campeonato mundial, em 1950.


E-mail para esta coluna: marcio@ultimavolta.com


Márcio Madeira da Cunha