Respeito é bom


Enquanto Lewis Hamilton vive a sua crise de adolescência – seja dizendo que Räikkönen não tem “balls”, seja jogando Glock deliberada e desnecessariamente para fora da pista numa Monza sob chuva, ou ainda dizendo a quem quiser ouvir que é tão bom quanto Senna – dois dos maiores nomes do esporte a motor deram sólidas demonstrações recentes de que respeito é bom sim, e eles gostam.

Começando pela própria Fórmula 1, o GP de Cingapura foi daquelas provas ainda decididas por fatores humanos. O erro de Nelsinho Piquet, o erro do mecânico da Ferrari, a ousadia e o talento maduro de Alonso, o brilho de Rosberg, a consistência de Glock ou Vettel, o erro de Räikkönen.

Existem sim vitórias ocasionais na história da Fórmula 1, mas elas são muito raras. No mais das vezes, mesmo quando a prova parece ter sido totalmente decidida por fatores externos, o mais comum é ver um legítimo vencedor de GPs cruzando a linha de chegada em primeiro. O futuro pode vir a me desmentir, mas tenho a certeza de que Monza, este ano, não fugiu a essa regra, assim como Cingapura também não.

Pois bem, podemos dizer que a primeira prova noturna da F-1 teve três grandes nomes ao volante: Felipe Massa, Fernando Alonso e Nico Rosberg. Qualquer um dos três que vencesse, teria feito por merecer. Massa, porque apesar do motor usado, e de estar numa pista que não favorecia nem ao seu estilo nem ao seu carro, fez uma volta sensacional no sábado, e liderou com segurança até ter sua prova arruinada nos boxes.

Já Nico Rosberg efetivamente fez lembrar seu pai, sempre muito forte em pistas de rua. O jovem alemão emendou uma série de voltas rapidíssimas sem o menor erro, mostrando um talento muitas vezes eclipsado pelas limitações atuais da equipe e do FW30. Deu gosto ver sua condução. Não é qualquer piloto que é capaz de fazer o que ele fez naquela altura da prova.

E por fim, Fernando Alonso. Uma vitória da sorte? Sim, em parte. Mas, sobretudo, uma vitória da ousadia. Se Alonso já tinha feito sua parada quando o companheiro bateu, isso se explica unicamente porque foi ousado, subverteu a lógica. Quantas vezes nós vimos pilotos largando lá atrás encherem o tanque até a boca, conformados com a idéia de que não adiantaria sair leve e tentar recuperar posições na pista? Ora, é possível dizer que esse comportamento já se tornou um padrão. Palmas, portanto, para Alonso, que confiou no próprio taco mesmo numa pista tão complicada de se ultrapassar. Foi o tipo de vitória que consagra as grandes biografias. Uma vitória de bicampeão do mundo.

As duas últimas provas deixam uma coisa muito clara: antes de se pautar por Ayrton Senna, Hamilton ainda tem uns truques a aprender com seus próprios companheiros de pista.

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Pulando para as duas rodas, vejamos Valentino Rossi. Simplesmente me faltam palavras para descrever o que esse rapaz tem feito pelas pistas do mundo. Há duas semanas, na estéril pista de Motegi, Rossi precisava apenas de uma terceira colocação para garantir matematicamente seu título com 3 provas de antecipação. O tipo de situação que faria Alain Prost correr de maneira folgada. Mas não Rossi.

O italiano pilotou ainda com mais gana, como se dependesse desesperadamente da vitória. Guiou como se precisasse daquele desempenho para ter alguma chance na vida, guiou como se aquela vitória – a de nº 70 de sua carreira apenas na categoria principal (!) – fosse alterar muito tudo aquilo que será dito dele daqui a vinte ou trinta anos. E é isso o que mais fascina em Valentino. Apesar de tudo o que já ganhou, apesar de toda a realização que já alcançou, ele continua sendo um legítimo corredor. Sua verdadeira e única motivação continua sendo a disputa, a superação.

E não foi uma vitória fácil, diga-se de passagem. A Ducati rendia melhor nas retas e retas daquele Frankenstein que alguns chamam de pista, e Stoner, como sempre, estava inspirado. O australiano fez a sua parte, e tentou abrir distância de todas as formas, mas ele e todo o mundo sabiam que, cedo ou tarde, Rossi viria pra cima.

A ultrapassagem do italiano, na única tentativa real, foi uma das mais técnicas que já vi em toda a minha vida. Rossi inventou uma nova forma de entrar na reta, exigindo tudo de quadro, suspensão e pneu traseiros, tracionando de maneira soberba. Buscou o vácuo, e então freou tão tarde que teve que colocar e perna esquerda totalmente para fora da moto, equilibrando o conjunto numa linda derrapagem controlada. Apesar de forçar o limite, não espalhou na curva seguinte, e então seguiu sem erros até o fim. Se você não viu a manobra, então corra para o youtube e se redima.

Acho que é isso que fascina em Rossi, e que tempos atrás também fascinou em Ayrton Senna. Ele sempre espera, de si mesmo, mais do que qualquer pessoa de fora teria coragem de esperar dele. No fundo, ele é seu maior crítico, e quando sai satisfeito de uma prova, é sinal que o mundo inteiro acabou de ficar assombrado mais uma vez.

No início do ano, muitos diziam que Alonso e Rossi pertenciam ao passado. A imprensa inglesa, inclusive, chegou a se referir ao asturiano como “aquele não vencerá mais nenhuma corrida na Fórmula 1”. Com Rossi a coisa não foi muito diferente. Bom, está aí a resposta de ambos. Grandes campeões se provam justamente nas maiores dificuldades.

Respeito é muito bom, e eles gostam.


E-mail para esta coluna: marcio@ultimavolta.com


Márcio Madeira da Cunha