H2O


Água. Dois átomos de hidrogênio ligados a um de oxigênio por pontes de hidrogênio. Água. Um elemento cada vez mais importante na química do automobilismo mundial.

Não me recordo de outro período histórico no qual tenham sido realizadas tantas provas com chuva na Fórmula 1. É possível que eu esteja errado, pois não tive tempo de levantar uma estatística mais séria a esse respeito, portanto é apenas uma impressão. Mas vejamos, assim, de cabeça mesmo, quantas corridas com chuva foram disputadas na F1 no período de um ano: Monza (onde nunca havia chovido dessa forma), Spa (ok, tudo normal), Silverstone, Mônaco, Fuji e Xangai. Ou seja: das 17 últimas provas, a chuva foi decisiva em seis, caso eu não esteja me esquecendo de nenhuma. São 35% - mais de um terço! E a previsão para Cingapura é de 40% de chance de precipitação durante a corrida...

Mas antes de avaliarmos o que pode vir a ser uma corrida de Fórmula 1 noturna e chuvosa, acho que devemos nos ater um pouco mais à estatística que marotamente acabamos de produzir. Sem qualquer exagero, a chave para os rumos deste campeonato pode residir justamente neste ponto: a água.

Após 14 corridas, Hamilton lidera Massa na tabela de classificação com a vantagem mínima de um ponto. Em caso de empate, Felipe tem uma vitória a mais no momento. Porém, por trás deste equilíbrio, existe uma outra estatística igualmente forte: das últimas oito corridas com chuva, a McLaren faturou seis na pista – estou contando Spa aqui, apesar deste troféu estar em Maranello. É um número forte demais para ser só coincidência.

Vejo nessa estatística um resquício das longínquas escolas de construção de automóveis, originalmente tão diferentes na Grã-Bretanha e no Continente. A primeira sempre apostando em seus carros ágeis e bons de curva, a segunda cuidando dos motores e as altas velocidades. Claro, hoje computadores e túneis de vento ditam as regras, e todos seguem o mesmo caminho. Mas sim, se a gente olhar bem, ainda há um pouco de humanidade e identidade no meio de tanta tecnologia.

Voltando então ao que interessa, creio que podemos concluir que chuvas beneficiam a Mclaren, e altas temperaturas favorecem a Ferrari. A chuva, ou a falta dela, deve ser sim um fator decisivo na decisão deste campeonato.

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Após tantos anos de tradição, qualquer corrida que viesse a ser disputada em Monza debaixo de chuva intensa já seria por si só histórica. Mas a conjuntura astrológica quis mais, muito mais. O que vimos foi uma corrida memorável, daquelas que será comentada daqui a muitas décadas. A chuva que encharcou Monza durante os três dias de atividades providenciou um batismo digno de gênio ao jovem Sebastian Vettel. Dentro dos muros do Santuário o prodígio alemão escreveu seu nome com destaque na galeria dos grandes vencedores da Formula 1.

E Vettel venceu com personalidade. Sua corrida pode não ter tido o drama ou o brilho de uma Mônaco 84 de Ayrton Senna, mas teve a consistência e a normalidade típica dos grandes vencedores. O mais jovem vencedor da história ganhou com impressionante e insuspeita naturalidade, partindo da pole position. Como se não estivesse ao volante de uma Toro Rosso, como se não tivesse 21 anos recém-completados, como se o carro que vinha atrás não fosse infinitamente melhor, como se fosse normal guiar em Monza debaixo de muita chuva, como se não estivesse escrevendo a história a cada curva. Nasceu uma estrela em Monza.

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Discordo da maior parte das análises que li a respeito dos desempenhos de Felipe Massa e Lewis Hamilton em Monza. Vi a corrida através da cronometragem oficial, e apenas depois consultei o vídeo. E pelo que vi nos tempos, Felipe andou muito bem sempre que teve pista limpa à frente. Neste quesito, ele foi até mais rápido que Hamilton, embora nós tenhamos que considerar que o inglês estava mais pesado, o que iguala a situação. Eram, certamente, os dois pilotos mais rápidos debaixo de chuva. Lewis disparado no primeiro trecho da pista, e Massa no segundo e no terceiro.

A grande diferença ficou por conta das ultrapassagens, muito mais fartas em Lewis que Felipe. E isso se deve a três fatores: a própria condução dos pilotos, a diferença dos carros e a posição de largada de cada um deles.

Hamilton guiou sempre com a faca nos dentes, até porque tinha pouco a perder na prova. Já Felipe, por sua vez, parece ter mudado depois da Hungria, assim como Senna mudou depois de Mônaco 88. Ele aprendeu a colher pontos, percebeu que o campeonato, nesse formato de pontuação, se decide mais por abandonos que vitórias. Vai atacar nas horas certas, claro, mas aprendeu a valorizar os pontos possíveis.

Os carros também explicam em parte a maior progressão de Lewis. A McLaren se dá melhor na turbulência, e também aquece melhor os pneus. É um carro que coloca mais respeito quando cresce nos retrovisores, e isso é algo que se nota também por Kovalainen. Por fim, é natural que o conjunto que lidera o campeonato, ao largar na 15ª colocação, faça mesmo mais ultrapassagens do que se estivesse largando em sexto.

O grande equívoco, em minha opinião, é reduzir o fim de semana à realidade da corrida. O fato é que Massa chegou à frente de Lewis, e o fez por méritos próprios. Sobretudo graças à excelente atuação na Q2, num momento em que ninguém mais conseguia melhorar os tempos. Foi ali, quando acertou uma volta incrível e superou Robert Kubica classificando-se para a Q3, que Felipe Massa construiu a vantagem que o permitiu ser mais cauteloso, e ainda assim somar mais pontos que Hamilton.

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As últimas previsões indicam que é provável que volte a chover durante a corrida em Cingapura. O GP de nº 800 na história da Fórmula 1, primeiro a ser disputado à noite, pode se tornar ainda mais especial. Mas cabe a pergunta: será realmente seguro promover uma corrida nessas condições?

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Ah, a água que bebemos!

O fim da temporada se aproxima, e já dá para fazer um balanço pra lá de positivo para o desempenho brasileiro nas principais categorias de monopostos do cenário mundial.

Na Formula 1, depois de muitos anos o Brasil verdadeiramente tem um representante disputando o título. As chances de conquista são reais, e sustentadas sobre muitos méritos. Massa amadureceu a olhos vistos, como piloto e como pessoa.

Na GP2 Bruno Senna e o impressionante Lucas di Grassi chegaram à última rodada ainda com chances remotas de título. No fim o Brasil foi vice com Senna, e teve o melhor piloto do ano em Di Grassi. Lucas começou a competir apenas na sétima corrida do ano, e de lá para cá foi quem mais somou pontos. Quase com certeza teria sido campeão, caso tivesse participado de todas as provas, e tudo isso ao volante da equipe Campos, que até então não tinha feito nada de relevante na categoria. Sem dúvida, tornou-se grande demais para ser ignorado pela Formula 1.

Já nos Estados Unidos, Hélio Castro Neves reencontrou a melhor forma, e fez um ano de muita regularidade e consistência. Colecionou pódios quando era impossível vencer, e no fim protagonizou uma arrancada que por pouco não lhe rendeu o título. Tony Kanaan não foi tão longe, mas continua certamente sendo um dos melhores pilotos da categoria.

E na Indy Lights o Brasil brilhou pelas mãos competentes de Bia Figueiredo – terceira no campeonato com direito a uma vitória – e com o excelente Raphael Matos, campeão da categoria e certamente um dos maiores talentos que o Brasil revelou nesta década.

Em resumo: o Brasil esteve na disputa pelo título em todos estes campeonatos. Um desempenho impressionante, justamente num momento em que nossas categorias de base em monopostos praticamente não existem. Há motivos para acreditar que a F3 voltará a seus melhores dias em 2009, mas a verdade é que este impressionante desempenho do Brasil segue sem explicação.

Exceto para Jackie Stewart.


E-mail para esta coluna: marcio@ultimavolta.com


Márcio Madeira da Cunha