Mais um ano com asterisco


Se eu fosse um comissário da FIA, não teria punido Lewis Hamilton após o GP da Bélgica.

Não que eu ache que a disputa foi normal, ou que ambos os pilotos não cometeram excessos, não é isso. Sim, Lewis obteve alguma vantagem ao cortar a chicane. E sim, Kimi praticamente o jogou para fora da pista, e mais tarde também levou vantagem ao sair do traçado.

A questão, porém é muito maior que isso. Por exemplo, se fosse grama, e não asfalto fora da pista, Lewis certamente teria tirado o pé, e não teria como fazer a ultrapassagem na Source. Não é minha intenção, todavia, discutir o caso. Qualquer opinião que eu emita será apenas mais uma, num emaranhado de opiniões bem fundamentadas de parte a parte. O que importa neste caso, a meu ver, é a polêmica em si.

Primeiro, porque ela serviu para mostrar como os tempos mudaram. Uma rápida consulta na internet irá mostrar que 9 entre 10 pilotos de outros tempos concordam que Lewis foi injustiçado, ao passo que proporção semelhante, entre os pilotos da atualidade, defende opinião contrária. Das duas uma: ou existe de fato entre os pilotos um código de ética em relação ao que fazer após cortar uma curva; ou a popularidade de Lewis Hamilton entre seus iguais está muito em baixa. Quer saber, acho que é um pouco dos dois.

A polêmica é importante ainda sob um outro aspecto, e é nele que me apóio para dizer que não puniria Lewis. Quando há tantas opiniões importantes e bem fundamentadas colidindo, mesmo com tempo para analisar e tantos recursos de vídeo à disposição, é sinal de que não existe um caso bem configurado. Aplicar uma punição dessas num momento tão crítico do campeonato pode perfeitamente ser algo decisivo na hora de contar os pontos. Se isso acontecer, 2008 será mais um ano dotado de asterisco, e o campeão será tratado com as mesmas ressalvas que a história reservou a nomes como James Hunt ou John Surtees, para ficar por aqui.

Acho que uma advertência teria ficado de bom tamanho.

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Ao contrário da maioria das pessoas, achei que o segundo lugar já havia sido um resultado excelente para Felipe Massa na busca por seu primeiro campeonato. Ok, Lewis havia aberto mais dois pontos, mas isso sinceramente não importava tanto. A verdade é que após as quebras da Ferrari na Hungria e na Espanha, qualquer ponto que Massa obtivesse em Spa seria um lucro imenso. Se fosse Massa, teria guiado da mesma forma, fazendo de tudo para assegurar a terceira posição. Diante disso, chegar em segundo, com o bônus de ver Kimi praticamente alijado da disputa, certamente era o bastante para merecer uma comemoração.

A média de pontos dos líderes caiu de 2007 para 2008. É bem possível que o campeão deste ano marque menos que os 110 pontos de Kimi no ano passado, a despeito de o campeonato ter crescido em uma etapa. Além disso, com o sistema de pontuação atual, no qual 5 segundos lugares equivalem a 4 vitórias e não existem descartes, campeonatos decidem-se muito mais por abandonos do que por vitórias. Chegar em segundo ou terceiro faz parte do caminho, e é preciso ter em mente que esses pódios valem muito mais do que corridas heróicas terminadas precocemente. Massa, pela primeira vez na carreira, entendeu isso direitinho. O estilo “bundão” da Bélgica é reflexo direto das dores da Hungria. Ele sabe que precisa fazer 7 pontos por corrida até o fim do ano para ser campeão. E tem grandes chances de fazer isso.

Pela maturidade que Massa adquiriu, e pelo que guiou na maior parte do ano, gostaria que Lewis não tivesse sido punido. Continuo acreditando que, sendo o único representante da Ferrari, Felipe tinha plenas condições de descontar 8 pontos em 5 provas, e assim conquistar um título sem asteriscos históricos.

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Raphael Matos é um nome que os brasileiros apaixonados por automobilismo deveriam conhecer melhor. O mineiro, que esta semana sagrou-se campeão da Indy Lights, é um verdadeiro fenômeno. É título atrás de título. O garoto é muito bom de braço, e vai muito longe. Também merece uma menção mais do que honrosa a bela e competente Bia Figueiredo, que terminou o mesmo campeonato na terceira colocação. Ambos devem subir para a categoria principal, e têm tudo para representarem o Brasil muito bem nos EUA durante os próximos anos.

Aliás 1: a vitória obtida por Hélio Castro Neves (a grafia original é esta) na prova de encerramento da Indy foi a 98ª de pilotos brasileiros em categorias top de monopostos nos EUA. O mesmo número de vitórias que o Brasil conquistou na Fórmula 1.

Aliás 2: as excelentes atuações de nossos pilotos nas duas principais categorias de acesso do automobilismo mundial - vide Bruno Senna e Lucas di Grassi na GP2 - contrastam frontalmente com o abandono vivido pelas categorias de monopostos nacionais. Cada vez mais acho que Jackie Stewart tinha razão. Nosso sucesso nas pistas provavelmente se deve mesmo à água que bebemos...

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Neste fim de semana a MotoGP corre pela primeira vez em Indianápolis. O campeonato da F-1 de duas rodas vinha sendo disparado o melhor do ano, até que as quedas de Stoner, Pedrosa e Lorenzo fizeram o papel de anticlímax. De todo modo, trata-se de uma corrida histórica, imperdível para quem ama o esporte a motor. Até porque, daqui para a frente, qualquer corrida que se possa ver com Valentino Rossi em ação será algo a ser contado um dia para os netos.

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Neste fim de semana se completam 30 anos da morte do grande Ronnie Peterson. Fica aqui o agradecimento, onde quer que ele esteja, por todo o brilho que o sueco emprestou às páginas do automobilismo.

Que a bravura e a elegância de Ronnie possam inspirar muitas gerações de pilotos. Amém!


Márcio Madeira da Cunha