Homens e meninos

As Olimpíadas são um verdadeiro colírio para os olhos de quem ama o esporte, ou simplesmente sabe apreciar o que é belo, o mérito, a superação. Tudo nos jogos me fascina, e a cada dia descubro novos motivos para gostar ainda mais. A cada novo recorde, vejo mais que homens. Vejo a própria humanidade. Vejo histórias sendo escritas, biografias sendo jogadas, mitos sendo criados. É mais que esporte. São vidas, são sonhos. E, de modo muito especial, esta edição de Pequim está chamando minha atenção para um aspecto decisivo em qualquer desempenho humano, seja ele esportivo ou não: a forma como cada um lida com a pressão.

Simplesmente participar de alguma edição dos jogos já é algo a ser contado com orgulho para os netos. Ninguém chega lá de graça, embora as dificuldades superadas por cada um possam variar imensamente. De qualquer forma, muita gente boa dedica uma vida inteira a este objetivo, e poucos de fato chegam lá. Não basta dedicação, portanto. É preciso que haja também apoio, suporte, orientação. E há certamente algo a mais também. Algo que de forma um tanto genérica chamamos de talento. Aquele fator imponderável, que faz com que dois alunos que recebam tratamento idêntico venham a apresentar resultados tão distintos. Ou que faz com que um garoto seja ótimo em determinada modalidade, e um completo fiasco em qualquer outra.

Mas então é isso? Dedicação + talento = sucesso?

Creio que não, nossa equação ainda não parece estar completa. Afinal, como explicar a queda prematura de tantos favoritos destacados ao longo da história moderna dos jogos? Pessoas que fizeram tudo certo nos bastidores, que chegaram aos jogos com desempenhos tantas vezes superiores à concorrência, e que, na hora H, não conseguiram repetir suas melhores atuações. Tenho certeza de que muitos exemplos desse tipo de situação devem vir à sua cabeça. Um deles, a gente pode lembrar, foi categórico. Nos jogos de Atenas a seleção brasileira feminina de vôlei vencia a Rússia por 2 sets a 1, e tinha o match point no quarto set: 24 a 19. O jogo estava ganho. Bastava ao Brasil colocar uma bola no chão, enquanto as adversárias teriam que fazer 7 pontos seguidos. E, se elas por acaso fizessem isso, ainda teriam que confirmar a vitória no quinto set! E o Brasil perdeu aquele jogo, e a chance de disputar a final. Dias depois perdeu inclusive a medalha de bronze.

Trazendo o foco para o automobilismo, o desempenho de Lewis Hamilton no final do ano passado se enquadra no mesmo caso. Ele saiu do Japão precisando marcar apenas 8 pontos em duas provas para ser campeão mundial – quase nada para alguém com a constância que ele vinha apresentando até então. E marcou apenas dois, única e exclusivamente graças a uma série de erros pessoais inacreditáveis.

Daí a gente tira que além do talento e da preparação, uma terceira condição se impõe ao atleta que queira chegar ao topo: ele precisa ser capaz de repetir seus melhores desempenhos – ou de preferência superá-los – na hora que realmente isso importa, no momento central de suas vidas, diante dos olhos e das críticas do mundo inteiro. A hora da pressão. E é nesse ponto que se separam os homens dos meninos.

É por isso que quando avalio o feito de Michael Phelps em Pequim, fatalmente fico mais impressionado por ele ter quebrado 7 recordes mundiais e 1 olímpico nas oito provas que disputou, do que por ter vencido todas elas. Se a gente olhar, em várias dessas ocasiões o segundo colocado também superou o antigo recorde mundial, o que significa que quando chegou à China, Phelps ainda não tinha feito em treinos o que seria necessário para atingir seu objetivo. Não, ele teve que se superar, justamente no momento de maior tensão de toda a sua vida. Grande Phelps.

Parece-me ainda que a diferença fundamental entre uma e outra reação reside no foco do atleta. Em países de menor tradição a cobrança sempre tende a ser maior, bem como costumam ser maiores os sacrifícios de bastidores. Muitas vezes uma medalha significa a chance de mudar de vida e, especialmente no Brasil, pode medir também a distância entre ser herói e ser piada. Natural, portanto, que muitos atletas mantenham o foco na medalha, e esqueçam-se de que o importante, de fato, é que eles consigam seus melhores desempenhos pessoais. Justamente por isso, tantas vezes apresentam desempenhos decepcionantes, e sentem medalhas certas ou possíveis escorrerem-lhe por entre os dedos.

Ano passado tive a chance de entrevistar longamente Robert Scheidt, durante um vôo para Lisboa. Eu ia cobrir a etapa portuguesa do WTCC, e ele ia participar do campeonato mundial da classe Star em Cascais. E impressionou-me muito a forma com que ele me olhou no fundo dos olhos e disse que estava indo para ganhar, não para competir. A força daquela convicção, daquela confiança, fez minha espinha gelar por um instante. Não, não havia qualquer arrogância em suas palavras. Havia, isso sim, decisão. O campeonato só iria começar dentro de 15 dias, mas lá estava ele, como se fosse um principiante, indo praticar em águas portuguesas. Ah, sim, ele foi campeão mundial.

Bom, retornando ao esporte a motor, no fim de semana passado nós vimos dois dos melhores pilotos do mundo, no auge de suas formas. No WRC, Sebastien Loeb novamente fez da pressão seu combustível, e venceu de forma absoluta o Rally da Alemanha. De quebra retomou a liderança do campeonato mundial, jogando a pressão para o lado de seu rival, o finlandês Hirvonen.

E por fim, o maior piloto da atualidade em todas as categorias deu mais uma aula sobre como vencer um campeonato dificílimo sem contar com o melhor equipamento. Valentino Rossi, depois de protagonizar e vencer uma das mais incríveis corridas de todos os tempos, em Laguna Seca, voltou a pressionar impiedosamente o jovem e excelente Casey Stoner, levando-o novamente ao erro em Brno. Stoner vinha em primeiro, e seu ritmo era tão bom quanto o de Valentino. Tinha, portanto, a corrida nas mãos. Porém, a derrota na Califórnia deixou suas chagas. Com sua experiência, Rossi intuiu que o campeonato – ao menos em seu aspecto moral – estava sendo decidido ali, a incríveis sete provas do final. E justo ali fez uma das melhores corridas de sua vida. O jovem Stoner certamente levou as lembranças amargas daquela corrida para as férias, e quando voltou a ver Valentino abrindo perseguição à sua Ducati, se desestabilizou. Traiu um certo pavor em sua tentativa de fuga, e o encontro com o asfalto tornou-se inevitável.

Aos 29 anos, Valentino está em sua melhor forma. Quando finalmente teve pela frente uma geração tão talentosa e competitiva quanto ele, encontrou o estímulo para brilhar ainda mais. Pouco cotado no início do ano, “O Doutor” já venceu 5 vezes, e derrubou um a um os favoritos, andando muito forte e mantendo-se livre de acidentes. Lorenzo, Pedrosa e Stoner: três superdotados, que ainda vão brilhar muito nos próximos anos. Valentino Rossi: um homem no meio dos meninos.

E hoje o vôlei feminino brasileiro conseguiu a vaga na final olímpica, que escapou há 4 anos.


Márcio Madeira da Cunha