Bravo, Felipe!

Um pecado. Não encontro outra forma de definir o que houve com Felipe Massa na prova do último domingo. Sofrer uma quebra a três voltas de uma vitória sob todos os aspectos consagradora, num momento chave do campeonato, é algo que não pode mesmo ser definido de outra forma. Aquilo foi um pecado.

Não sei exatamente por que Felipe Massa chorou após a prova. Não sei se foi simplesmente pela sensação de impotência diante da mão do destino, pela horrível experiência que é se sentir vítima de uma injustiça, ou se ele tinha alguma consciência maior a respeito da importância daquele momento. Sim, porque não se tratou apenas de uma mera explosão de motor, ou de uma vitória magistral e certa que foi perdida sem culpa. Talvez Massa tivesse a consciência de que um piloto tem poucas chances de se tornar campeão na Fórmula 1, e ele já teve ao menos uma. Talvez ele soubesse que corridas como aquela não acontecem todos os dias, ou talvez mais. É possível que ele compreenda que este ano Fernando Alonso não está na disputa pelo campeonato, mas que essa é uma situação atípica. Afinal, parece claro que muitas forças exercem uma atração quase irresistível entre o espanhol e a casa de Maranello, e talvez o encontro desses dois pólos seja uma mera questão de tempo. Ou alguém duvida que Fernando mais cedo ou mais tarde estará disputando títulos novamente?

Quem sabe Massa intua, como todos que acompanham a F-1, que Kimi Räikkönen anda desmotivado, andando menos do que sabe ou é capaz, e que essa fase há de passar mais cedo ou mais tarde, dando lugar ao piloto que encantou o mundo com atuações como em Suzuka 2005. Talvez, ainda, Massa tenha a compreensão de que Lewis Hamilton é um diamante sendo lapidado - que em breve estará repetindo muito mais Hockenheim do que Montreal -, e que outros talentos de sua geração, como Sebastian Vettel, logo estarão assumindo o volante de cockpits competitivos. Uma geração muito boa, com carreiras muito bem administradas. Sim, dá pra ver o tempo se fechando no horizonte.

E o que eu quero dizer com isso tudo? Afinal não seria Felipe bom o bastante para estar preocupado apenas com a própria pilotagem? Não, não é isso que estou dizendo. O que estou dizendo - e talvez tenha sido justamente essa a causa das lágrimas de Felipe - é que o nível de aproveitamento deste campeonato tem sido baixíssimo, a ponto de ter dado a Kubica a chance de liderar o mundial após sete etapas. Massa sabe – ou deveria saber – que este ano está fácil para ser campeão do mundo, e que esse cenário não deve se repetir nunca mais em sua carreira.

De muitas maneiras, Felipe estará escrevendo a própria biografia ao longo das próximas sete corridas. Para começar, ele precisa responder como irá reagir ao duro golpe que sofreu. Se pudesse dar algum conselho, citaria como exemplo a reação imposta por Ayrton Senna após a derrota doída em Mônaco, vinte anos atrás. Entre os GPs do Canadá e da Bélgica foram 6 vitórias em 7 corridas, praticamente garantindo ao brasileiro seu primeiro título mundial.

A essa altura, Felipe nem precisa de tanto. Passadas 11 provas o líder soma 62 pontos, numa média de 5,63 por corrida. A se manter o cenário, bastaria a Massa marcar uma média de 7 pontos por GP para chegar lá. Não custa lembrar que este mesmo ano ele já conseguiu marcar 48 pontos em seis provas. Dá pra fazer. Mas para isso importa, sobretudo, que ele complete as corridas na maior normalidade possível. Não pode haver mais quebras, não pode haver mais apagões como na Inglaterra. Restam sete provas, e é bom que ele esteja no pódio em ao menos seis delas, pontuando em todas. Precisa considerar vencer ao menos duas dessas corridas também. Uma coisa é quase certa: se Felipe Massa quiser se firmar como um constante candidato ao titulo, meu amigo, então essa é a hora de se credenciar.

Sei que muita gente tem antipatia por Felipe, e o fazem pelos mais diversos motivos. Eu mesmo, por muitos anos, torci o nariz. Talvez porque paire no ar a sensação de que ele jamais fez na Sauber qualquer coisa que o credenciasse a ter nas mãos uma Ferrari, especialmente numa condição de igualdade que Barrichello jamais conheceu. Talvez ainda por faltar-lhe a empatia e a identificação com o público que tanto marcaram nossos maiores campeões, não sei. Só sei que aos poucos Felipe Massa conseguiu ganhar minha admiração.

Aprendi a admirar Felipe, entre outras coisas, porque ele não é um fenômeno. Se olharmos atentamente a carreira de Massa, então seremos forçados a reconhecer uma franca evolução. Sem gozar de um talento sobrenatural, Felipe aos poucos vem se lapidando, transformando uma velocidade inata num ritmo de prova cada vez mais forte e seguro. Sim, ainda comete erros, mas estes são cada vez mais raros. E domingo passado ele chegou lá. Fez uma corrida de muita bravura, pilotou como os melhores em seus melhores dias. Não deixa de ser uma vitória da superação, do mérito. Além disso, Massa começa a demonstrar uma grandeza de espírito surpreendente. Quando assumiu a liderança do mundial na França, perguntaram-lhe se ele já poderia ser comparado aos nosso três campeões mundiais. E diante dessa sofrível pergunta, infelizmente representativa da qualidade de boa parte de nosso jornalismo esportivo, Massa foi grande ao dizer que, perto deles, era ainda muito pequenininho.

Impressionou-me ainda muito mais o comportamento de Felipe em Hockenheim, diante do primeiro pódio de Piquet. Já ao deixarem os carros Massa o cumprimentou de maneira efusiva, e foi ainda muito além durante a entrevista coletiva. Tanto em inglês quanto em português, antes de comentar a própria corrida Massa fez questão de explicitar um apoio raramente visto entre compatriotas, dando uma tremenda força ao rapaz num momento em que ele de fato estava precisando. Para quem, como eu, viveu e lamentou o racha desnecessário entre Piquet, Senna e seus respectivos correligionários, deu vontade de aplaudir de pé. Foi certamente o melhor momento do Brasil na F-1 em muitos anos. Bravo, Felipe!

Restam ainda sete etapas para o fim dessa história, e é impossível prever o final que ela terá. A reação de Massa, a maneira como os carros irão evoluir, as incógnitas de Valência e Cingapura, todas essas são cenas dos próximos capítulos. Mas uma coisa é certa: com título ou não, Felipe Massa a cada dia que passa se parece mais com um piloto campeão. E o melhor de tudo: humano, passível de erros, batalhador. Ora sortudo, ora azarado.

E ele também chora. Como eu ou você.


Márcio Madeira da Cunha